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terça-feira, 15 de maio de 2018

Conheça Face Oculta




Problemas Editoriais no Brasil

Face Oculta é um daqueles títulos que você oferece para o leitor, insistindo: “Leia isso, por favor!”, mas como sou o dono da livraria, ele pensa logo que só quero vender um troço estranho que está encalhado na prateleira. Até entendo, por que acompanhei um pouco os problemas da série no Brasil. Inicialmente, ela foi lançada em novembro de 2012 e deveria seguir o padrão original italiano, uma maxi-série em 14 volumes, mas morreu na segunda edição, deixando os compradores frustrados com dois gibis que provavelmente nunca teriam continuação.

Mas a esperança não é necessariamente gratificante, pode ser torpe, e iludiu uma segunda vez aqueles fãs do fumetti. Em setembro de 2016, a Panini lança novamente o título, desta vez encadernando as 4 primeiras edições em um volume. A gente faz a matemática e deduzimos que essa nova série deverá ter apenas 4 volumes, juntando todas as 14 edições originais. O problema é que a edição custava R$39,9 e vinha de um histórico com terrível falha de continuidade. Os eventuais fãs do escritor Gianfranco Manfredi, que conheciam seu trabalho no excelente Mágico Vento (série que a Mythos publicou na íntegra em 151 edições e que hoje reimprime em edições especiais coloridas e em capa dura), poderiam evitar a nova edição por pura falta de expectativas, já que já fora frustrado uma vez. Já o público mais amplo, facilmente teria descoberto a história que este título poderia continuar minguando em sua mais tenra idade. Acredito que foi isso que aconteceu.


As poucas Face Ocultas que solicitei em minha livraria, eram recusados até pelo mais bonelliano dos meus clientes, que dirá leitores de X-Men ou One Piece. Encalhou. Mas a gente não quer desistir de um bom gibi e, depois de quase dois anos (agora, em maio de 2018), a Panini anuncia o volume dois, talvez muito por causa do sucesso que foi a retomada de títulos italianos através de iniciativas independentes, como a da Lorentz, com Dylan Dog e Editora 85, com Dampyr. Pelo sim ou pelo não, o que importa é que agora é hora de festejar e tirar a poeira da cara, ou da face, com o perdão do trocadilho.



Mas nem tudo são rosas, o volume dois de Face Oculta custará a bagatela de R$51,9, um ponto muito difícil para barganhar com os leitores. Tudo bem que teremos, nesse encadernado, cinco edições da série original, quase 100 páginas a mais que o volume anterior, totalizando 480 páginas, e, por mais que seja injusto comparar títulos e preços, o que importa é a realidade do bolso do leitor, e pagar R$51,9 por um gibi, 16x21cm, preto e branco, de um personagem completamente desconhecido, é investir demasiada e cegamente no público de nicho que, por estar desde 2012 esperando, duplamente frustrado, pode se negar a comprar, sem contar que existem edições do gênero muito mais em conta, do próprio Tex, com cerca 320 páginas pela metade do preço. Isso sem mencionar gibis como Lobo Solitário, com mais de 300 páginas por apenas de R$18,9.

Quem é o autor?
Escrever esse texto foi uma grande surpresa, pois descobri que Gianfranco Manfredi, além de ser o escritor de Mágico Vento, é um artista múltiplo, autor de mais de trezentas canções, vários roteiros de cinema e televisão, ensaios e críticas sobre música, entre outras coisas, como sua graduação em História da Filosofia, formação que o permitiu inclusive lecionar na área em institutos de educação italianos.



Manfredi nasceu em 1948 e até meados da década de 1980 produziu música intensamente. Quer dizer, ele não é um aventureiro na área que cria canções pontuais para se divertir. É autor e/ou cantor em, pelo menos, 11 discos (entre álbuns e singles) desde 1972, sendo que seu último, data de 2003. Sua carreira na música dividia-se entre o compor e cantar, mas escrever músicas acabou tornando-se o foco principal, local mais agradável e que lhe dava mais espaço criativo dentro dos seus limites. A escrita, afinal, sempre é mais libertadora, pois os limites são imaginários, talvez esse tenha sido o verdadeiro motivo que o levou a afastar-se do mundo da música e imergir nos vários universos das letras.





A partir da segunda metade dos anos 80, começa a dedicar-se à carreira de escritor, roteirizando 9 filmes e vários programas de TV, mas não ficava apenas atrás das câmeras, pois foi ator em outras 9 películas.



 Em uma entrevista para o site texwillerblog.com (que tive a pachorra de traduzir usando o google e adaptar livremente), Manfredi comenta sobre porque parou de fazer filmes: “Alguns filmes produzidos na Itália não me interessam. Há ótimos filmes, pelo amor de Deus, mas o esforço para completar um de algum valor expressivo, hoje na Itália, é realmente inviável. Estou acostumada a trabalhar duro, mas não estou disposto a trabalhar como uma mula para coisas que terminam não realizadas, ou que são malfeitas, ou concluídas apenas cinco anos depois de alguém pensar nelas, ou que não encontram espaço nos cinemas porque a distribuição está nas mãos dos americanos”. Manfredi também comente que o cinema italiano é muito voltado para a aventura e humor, gêneros que não lhe apetece, preferindo muito mais o horror ou o romance (o que tentou fazer em Face Oculta, do qual trataremos mais à frente):

“Escolhi a escrita, que me deixou criativamente mais livre. Meu amor pela escrita, no entanto, foi maior do que para a música, que também me deu grande satisfação, assim eu aproveitei a boa reputação e estima que tinha ganhado como um cantor/compositor para me apresentar no cinema como roteirista, principalmente, mas também como ator e, às vezes, como compositor de música cinematográfica. Mais tarde, bastante decepcionado com o fato de que na Itália na época foram produzidos quase exclusivamente comédias, enquanto eu preferia um cinema mais radical em suas escolhas (do western ao horror), decidi abordar a escrita de uma maneira mais ampla e completa e assim cheguei à narrativa escrita, com uma série de romances que exploram, digamos assim, os limites do gênero (do gótico ao romance histórico)”.




Produziu 15 romances, além de um tanto assim de ensaios e críticas de música. Sua estreia no campo dos quadrinhos ocorreu com a criação de "Gordon Link", um caçador de fantasmas não convencional, em 1991. A partir de 1994, Manfredi começa a colaborar com a Sergio Bonelli Editore, escrevendo inúmeros roteiros para Dylan Dog e Nick Raider. Em 1997, foi a vez de criar seu projeto mais duradouro, o western Mágico Vento, que mistura elementos de terror e magia (e que futuramente iremos resenhar). Em 2005, fez sua estreia como roteirista de Tex, escrevendo a história "La pista degli agguati", um gibizão de história fechada com 290 páginas, publicada no Maxi Tex daquele ano. 



Só em 2007 começou o Face Oculta, um romance em quadrinhos, fechado em 14 volumes. E agora uma informação que pode deixar todos nós com uma pulga enooooorme atrás da orelha: Face Oculta tem uma sequência! Mas calma! Ao que tudo indica, a série original é conclusiva, o que temos nessa nova história intitulada Shanghai Devil é outra maxi-série em dezoito edições, utilizando o mesmo protagonista Ugo Pastores, mas que não precisa ser lida para uma plena satisfação com a série anterior. Manfredi parece escrever como nos moldes das antigas aventuras seriadas, onde o protagonista aventura-se em cenários diferentes a cada vez, saindo da África, em Face Oculta, para a China nesta segunda. 



Em outubro de 2014 começou sua mais recente obra nos quadrinhos, chamada Adam Wild, uma série de aventura que volta para um cenário relativamente parecido com o Face Oculta, a África oitocentista.




Manfredi, nessa montanha russa criativa que é sua vida, reúne algumas das principais características que formam um bom escritor: experiência e vontade de narrar. Definitivamente, não é um emergente na área.

Mas do que trata mesmo o gibi?
“Gostaria de escrever histórias de amor. Nunca fiz isso, mas o experimento me atrai. Tentei fazer um pouco no Face Oculta, e talvez, no futuro, faça isso em um romance. Difícil de percorrer todo esse caminho em uma história em quadrinhos, porque nem a Bonelli nem outras editoras na Itália parecem estar interessadas em nada além de quadrinhos de aventura ou humor. Eu não escreveria sobre bolos de carne sentimental. Acredito que o amor pode ser contado de outra maneira, mas... Para escrever coisas diferentes, você deve primeiro ler coisas diferentes, ampliar o alcance de seus interesses”



Tentarei responder a essa pergunta do tópico, citando esse trecho do autor Gianfranco Manfredi para deixar bem claro que Face Oculta não é exatamente o que aparenta. Quando você vê a capa, um homem de terno com um revólver na mão, um exército formado por tribos africanas e um rosto, ao fundo, coberto por uma misteriosa máscara prateada, tudo parece nos levar para uma exótica aventura, mas isso é apenas o que sugere as primeiras 100 páginas desse encadernado.

Sem querer estragar o prazer de sua leitura e procurando apenas preparar o terreno para o leitor desavisado, Face Oculta conta a história de Ugo Pastore e seu pai, Enea. Ambos são representantes de uma sociedade comercial italiana que faz transações econômicas e diplomáticas entre a metrópole e suas colônias. Chato? Poderia ser se o cenário inicial não fosse realmente a exótica África dos 1890. Então, sim! É um gibi sobre intrigas políticas e comerciais, que deve ser lido com atenção, porque a Etiópia, dividida em várias tribos que lutavam entre si, foi forçada a aceitar o reinado de um soberano que subiu ao trono por interesse da própria metrópole italiana, afinal, negociar com um único rei é mais fácil do que com várias tribos de opiniões diversas. Neste cenário, surge a figura enigmática e mitológica do Face Oculta, personagem que consegue reunir homens de tendências diversas contra a tirania do rei e contra exército italiano.

Tudo indica que a história seguiria facilmente por aí, mostrando o preparo e a execução de uma guerra sangrenta. Mas as coisas não são tão simples e, baseado em fatos reais, Manfredi sabe que não pode resolver as coisas facilmente. Na segunda parte deste volume 1 (dividido em 4), temos um salto temporal de 5 anos, e vemos Ugo morando em Roma, distante desses problemas da colônia. E é fantástico lê um gibi italiano passando-se em terra natal, pois somos tão acostumados a ler aventuras da Bonelli em outros países da Europa ou na América que ficamos encantados com os detalhes das ruelas escuras de Roma e suas fachadas em ruínas.



Mas, como estava dizendo, a história parece mudar drasticamente nessas edições 2, 3 e 4 que compõe o volume, deixando Face Oculta em segundo ou terceiro plano e focando no que parece ser uma calma e delicada montagem de um cenário maior. Somos apresentados a novos personagens e outras tramas, envolvendo dramas familiares e ocultação de cadáveres e, ao final deste primeiro volume, voltamos para a África, sob novas perspectivas.

Nos editoriais da revista, o autor nos informa de algumas influências que teve, como as óperas dramáticas e a construção de personagens femininos, vivendo em um mundo extremamente machista, então somos apresentados à personagem Matilde, de uma personalidade profunda que nenhuma pequena resenha deveria ousar explicar, mas que representa, de certa forma, o tipo de personagem romântico da época, apaixonada e doente, frágil, mas, ao mesmo tempo, capaz de nos surpreender, fugindo do padrão moldado muito mais pela opressão externa do que por qualquer outra coisa. Também conhecemos Vittorio, um oficial da cavalaria, metido a Don Juan, aventuresco, violento, justo e insensível (se é que é possível). Enfim, não são personagens fáceis de lidar.

Apesar do sensível distanciamento da narrativa sobre o personagem Face Oculta, tudo parece ser conduzido de volta para lá, e é o que vemos acontecer já na quarta história desse primeiro volume, pois mesmo lá na Itália, enquanto nossos três protagonistas enrolam-se em suas próprias confusões, descortina-se no fundo do palco o problema constante que envolve a guerra travada entre a Itália e a Etiópia e, com certeza, nos próximos volumes (que oramos para a Panini publique com uma velocidade superior a uma bienal) teremos muitas aventuras sob um sol escaldante e de paisagens de areia arrastadas pelo vento.

Quase esqueci de falar do desenho! A primeira edição é feita por Goran Parlov, já conhecido tanto pelos bonellianos quanto pelos marvetes, quando desenhou o Justiceiro para a “Casa das Ideias”. Parlov é, de longe, o melhor desenhista na edição. É importante explicar que, na Itália, para manter uma série mensal com 100 páginas de quadrinhos, é muito comum o rodízio de desenhistas. Pela qualidade das pranchetas, é completamente inviável que o mesmo artista assuma um título sozinho, já que ilustrar essa quantidade de quadrinhos pode demorar, facilmente, de 3 a 4 meses. Por isso, temos 4 desenhistas neste primeiro volume, um para cada edição. Rotundo faz a segunda e segue uma linha parecida com a de Parlov, de traços angulares e estilizados, de altos e cristalinos contrastes em preto e branco. A terceira edição, de Nespolino, tem um traço mais próximo do que gosto de chamar de um padrão bonelliano de qualidade, mais tradicional, mais quadradinho em sua narrativa e estilo de desenho. O autor da quarta edição deste primeiro encadernado, é Burak, com certeza o que causa mais desconforto em qualquer leitor desavisado. Com uma rachura, por vezes, grosseira, tem o traço mais distante do que um leitor mais mainstream está acostumado, mas também de uma riqueza incrível.

Para não me alongar mais, a gente só espera que a torpe esperança não nos iluda uma terceira vez! Vida longa a Manfredi, Face Oculta e que venha logo Shangai Devil.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Memória de Elefante, um gibi que precisa ser lido




Memória de Elefante é aquele tipo de gibi que você acaba deixando pra fazer a leitura depois porque não tem nenhuma referência, não sabe exatamente do que trata, a capa pode não dialogar muito contigo e aí ele vai ficando na pilha de leituras, ou mesmo você vai ignorando ele na livraria... Foi isso que aconteceu comigo.

Tenho uma livraria especializada em quadrinhos e confesso que leio muito devagar, não me mantenho atualizado. E Memória de Elefante foi lançado em 2010 (em minha defesa, só abri a livraria no ano seguinte). Há um bom tempo esse livro era colocado de um lado para outro em minhas prateleiras e, com um pouco de curiosidade e culpa de leituras atrasadas, eu dava uma folheado no gibi, prometendo a mim mesmo “um dia...”

Acho que sei porque, depois de tanto postergar, li esse gibi de um dia para o outro. Tudo começou em março, quando comecei a ler Vingadores Eternamente (parte 1 e 2, lançados pela SALVAT nos números 14 e 15, de lombada). Passei abril em um suplício tentando terminar. Prometi a mim mesmo ler aquilo só por causa do Kurt Busiek, afinal de contas, uma pessoa que escreve Marvels e Astrocity sabe o que faz. A ideia era produzir uma resenha, entretanto, reavaliei minhas prioridades, pois se iria me dedicar a escrever um texto deveria ser sobre alguma coisa que eu, no mínimo, tivesse gostado. Então, procurei outra coisa pra ler. Instintivamente, queria algo completamente diferente daquela coisa colorida e saltitante. Memória de Elefante brilhou na prateleira.

Comecei a ler o gibi de noite e quando fui dormir já tinha lido 150 das 228 páginas do livro. Provavelmente teria terminado a leitura se minha mulher não estivesse tentando dormir com um pano cobrindo seus olhos. Concluí na manhã seguinte. É clichê dizer que “aquilo me prendeu. Não queria largar o quadrinho”? Foda-se. Foi assim mesmo. E isso é muito raro na vida de minhas retinas preguiçosas.



Como falei no início, Memória de Elefante não havia chamado minha atenção, nem pelo título, nem pela capa (por sinal, acho que a capa dialoga muito pouco com o conteúdo do gibi. Muito melhor o Elefante que está na folha de rosto da obra), nem exatamente pela qualidade dos seus desenhos. Ou seja, realmente não é um quadrinho que se vende fácil. Talvez por culpa minha, nunca tinha ouvido falar do autor: Caeto. Minha única indicação de qualidade é a editora: Companhia das Letras, mais especificamente o seu selo de quadrinhos, o Quadrinhos na Cia. Dificilmente eles erram. De tudo que li do catálogo dos caras, apenas um gibi não me convenceu (um que inclusive é super elogiado pela crítica, o que me dá até certa vergonha de citar que não gostei, mas dane-se! “Umbigo sem fundo” é ruim. Se você discorda de mim, ponto pra editora, pois eles não teriam nada descartável... Bom, se você não estiver de bem com a vida, talvez não goste de “Repeteco”, mas eu o guardei na minha estante).



Caeto conta uma história autobiográfica, seus problemas na família, entre os amigos, na escola, na vida profissional... O grande lance é que não tem nada muito especial na coisa toda. É algo cru e simples, tanto no traço, na diagramação, quanto no texto. O personagem-autor perambula pelas ruas de São Paulo, nos inferninhos, nos bares, nas galerias de arte, fazendo sexo e um retrato curioso dessa vida alternativa da arte paulista, principalmente envolvendo a música punk e a produção de fanzines de quadrinhos. Um dos autores que dá às caras no livro é o Rafael Coutinho, autor de “revistinhas” (termo empregado com carinho e não pejorativamente) como Cachalote, Mensur e O Beijo do Adolescente. Memória de Elefante fala sobre arte, sobre tentar viver de arte através deste esquema de feiras independentes e vemos que, mesmo em São Paulo, a coisa não é fácil (alô, alô! Falando aqui diretamente de Teresina, Piauí).

A história é cotidiana e somos apresentados às dificuldades do protagonista, mas não apenas a isso, somos convidados a conhecer o autor e como ele pensa e isso pode incomodar a gente. Afinal de contas, é fácil não gostarmos de um personagem e curtir a obra. O difícil é você não gostar do autor, que é o protagonista da obra, e conseguir gostar do quadrinho. Novamente, repito que não conhecia o Caeto, mas depois de ler seu gibi, confesso que ele não é alguém com quem, provavelmente, eu curtisse conviver ou trocar umas ideias: mas seu gibi é bom pra porra!



Caeto é escroto, um tanto preconceituoso, impaciente e um pouco insensível. Sua sorte é conseguir lidar com a maior parte desses problemas internamente, sem explodir, transformando tudo isso num gibi para evitar ou uma úlcera no estomago ou espancar alguém. Talvez tenha consciência disso, fazendo do quadrinho uma grande terapia, mesmo que não seja o objetivo. Por sinal, acho que, definitivamente, uma terapia não é o objetivo do gibi, apesar de servir para isso também. Mas não pense que é um dramalhão, longe disso.

Boa parte do drama do gibi é sobre o autor conseguir estabilidade financeira, dormir em um lugar onde não existam pulgas que lhe atrapalhe seu sono, conseguir uma namorada e se relacionar com sua família, principalmente com seu pai doente.



Com a experiência de transformar seu cotidiano em matéria-prima, seu livro é um delicioso recorte de acontecimentos. Recomendo fortemente.

Caeto, se nunca cruzar com você, aproveito para lhe dar logo os parabéns pelo belo trabalho, melhoras na sua vida e saúde, caso espirres!

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Por um cenário de quadrinhos (ou artes plásticas) no Piauí



(Este texto foi publicado, originalmente, na revista Acrobata, em 2015)

Quero falar sobre a produção de histórias em quadrinhos (HQs) no Piauí, sob a perspectiva de um cenário cultural. Quer dizer, isso existe por aqui? Evidente que há desenhistas, escritores, quadrinistas, por assim dizer. Existem também eventos, desde alguns focados mais nos animês e mangás, que acontecem quase todos os meses em Teresina, e em algumas cidades do interior, em Piripiri e Parnaíba, por exemplo, como também a Feira HQ, evento “anual” desde 1999 e que teve sua 13ª edição em 2013.
Talvez eu não seja a pessoa mais indicada para escrever isso, já que estou intimamente próximo do tema, entretanto, me considero intimado. Meu objetivo não é fazer um recorte ou um panorama totalizante. Afinal, é como uma lista cheia de subjetividades. Alguns nomes estão incluídos, outros esquecidos ou, simplesmente, não foram citados.
Pra começo de conversa, entendo que pensar em “cenário” envolve uma série de elementos interligados, e um deles é a sensação de pertencimento, de entender que esse cenário é como um grande grupo do qual fazemos parte. Acredito também que sentimentos como esse são estimulados, entre outras coisas, pela construção de uma história em comum. Se entendermos as pinturas rupestres como HQs, então temos uma longa pesquisa pra fazer, já que o Piauí possui alguns dos maiores sítios arqueológicos com esse tipo de inscrição no mundo. Se considerarmos que os quadrinhos modernos nasceram junto com o desenvolvimento da imprensa, com as charges no século XIX, falta-nos também uma pesquisa apurada sobre quem eram os ilustradores dos primeiros periódicos jornalísticos do Piauí. Houveram ilustradores no século XIX ou início do século XX? Eles fizeram quadrinhos? Isso ainda é uma incógnita pra mim e desconheço pesquisas desse gênero, mas certa vez fiz uma entrevista com Albert Piauhy, reconhecido cartunista à frete do Salão de Humor do Piauí por quase 30 anos, e ele disse-me que o “Arnaldo Albuquerque é o primeiro chargista da história piauiense. De verdade, entendeu? Porque eu entrei lá pra substituir o Arnaldo (...) Na verdade, o Arnaldo fez charge no jornal O Dia, mas o primeiro chargista constante fui eu mesmo. Fui eu que consolidei a charge no jornalismo piauiense. Só que naquela época eu era um cara muito inquieto e o mundo era grande e eu achei de ir embora pro Rio de Janeiro. Então eu fui chargista do Jornal O Dia várias vezes até chegar a vez do Jota A”.
Se estudarmos os jornais da década de 1970 pra cá encontraremos facilmente os nomes citados acima: Albert, Arnaldo, Jota A e outros, como Dodó Macedo, e, mais recentemente, Moisés ou Izânio. Eles ilustraram nossos jornais. Eventualmente, a piadinha do cartum vinha em arte sequencial: em quadrinhos. Alguma coisa se originou com essa geração, afinal entendemos Arnaldo Albuquerque como o autor da primeira revista em quadrinhos do Piauí, a Humor Sangrento, impressa em 1977.
Mas enfim, esses caras que ilustraram os impressos incentivaram a criação de um cenário no Piauí? Vou citar o Albert novamente, ele costuma dizer que por aqui uma geração não cria outra. Não parece existir essa linha contínua (que não precisa ser entendida como linear ou progressista) traçada por sobre essas gerações, interligando-as. Não generalizaria o pensamento do Albert para todas as artes, mas acho que os artistas plásticos no Piauí sofrem sim deste problema: Qual? O de uma geração não alicerçar-se em outra, ou desconstruir a anterior intencionalmente, possibilitando um mínimo que seja de entendimento de plano, de chão, de perspectiva, se é que me faço entender...  É quase crônico! E os quadrinistas não são alheios a isso. Para exemplificar melhor, vamos pensar a questão do humor gráfico. Imaginem que o Piauí possui 30 anos de experiência de um Salão de Humor bem sucedido (apesar das afirmações e evidências em contrário) e qual é a escola de humor que se criou no Piauí? Os cartunistas piauienses que estão nos jornais são os mesmos há quase 3 décadas. Qual a promessa do humor gráfico no Piauí? Quem substituiria Jota A, Moises ou Dino Alves (que ainda terão muitos anos de trabalho, queira Deus!) e que já tem, pelo menos 5 anos de experiência no mercado?
Agora entenda que, à exceção do salão de artes plásticas organizado pela fundação municipal de cultura de Teresina, e do próprio Salão de Humor do Piauí, não temos nenhum outro evento significativo envolvendo artes plásticas no estado. Talvez a Feira HQ, que teve 13 edições, mas a modéstia e o bom senso me impedem de citar. Só para reforçar essa ideia, fiz uma entrevista com Sônia Terra, que foi presidente da Fundação Cultural do Piauí por oito anos (de 2003 a 2010) e lhe perguntei sobre essa ausência de ações no âmbito das políticas culturais para as artes plásticas e ela disse que “se você for olhar, nós não temos sequer no Piauí um equipamento cultural digno pra receber grandes exposições: nós não temos uma galeria de artes plásticas. Pra quê mais grave do que isso? Hoje a galeria do Clube dos Diários é mínima e insuficiente. A gente não recebe aqui grandes exposições porque nós não temos espaço. Estou falando institucionalmente, governamentalmente. Isso significa que nós temos um déficit enorme com esse segmento, assim como teve com outros segmentos. E isso é um desafio. Nós passamos oito anos e não conseguimos, fizemos questões pontuais que não representam a demanda que está aí reprimida, nem o mínimo a gente conseguiu realmente atender. É fato. E não digo isso com alegria não, digo com muita tristeza”. Preciso dizer que, durante minha entrevista, Sônia Terra colocou, reiteradamente, que a ausência de políticas públicas mais eficientes para as artes plásticas é também reflexo de uma classe mal organizada, articulada ou participativa e citou o Salão do Livro do Piauí como um sucesso exatamente por se apresentar de forma oposta à maneira como a classe dos artistas plásticos se apresentam diante do poder público.
Para além disso, o que quero dizer é que somos carentes de espaços: o estado não realiza um salão de artes plásticas, não temos uma galeria e não temos uma escola pública para artes plásticas (a não ser que você queira cursar arte educação!). Isso, de certa forma, nos torna órfãos de muita coisa. É claro que, eventualmente, você descobre a obra de um Afrânio Pessoa ou Jô Oliveira e percebe que pessoas como eles fizeram gerações de artistas por aqui. Mas quem Arnaldo Albuquerque criou? Quem o Amaral, autor do premiado quadrinho Hipocampo, fez? Não falo de “fazer escola” ou instituir um estilo. Pergunto como classe. Se Arnaldo Albuquerque é pioneiro, quem são os outros quadrinista significativos que surgiram no cenário aberto por ele?
Não podemos ignorar que existe um problema de mercado. Músicos piauienses como Assis Bezerra eram também bons quadrinistas, mas que deixaram as pranchetas pela guitarra. Era necessário escolher uma arte ou mesmo tentar tirar um sustento dela. Então, o que parece existir, constantemente, são desenhistas insistentes que realizam seus quadrinhos no intervalo que o cotidiano lhes permite. Inclua nessa conta os inúmeros alunos dos cursos de Arte da UFPI, ou mesmo técnicos do IFPI, que queriam ser quadrinista e saem de lá professor de “educação artística” nos fundamentais do ensino público.
Para realizar este texto, fiz um roteiro de seis perguntas e enviei para 6 desenhistas que considero importantes na atual produção de quadrinhos local. Disse que estava escrevendo um artigo sobre o cenário de quadrinhos no Piauí, do qual eles devem fazer parte. Todos visualizaram as perguntas, cinco confirmaram que iriam enviar, um ignorou o aviso não comentando nada e apenas 2 enviaram as respostas dentro do prazo que pedi (8 dias). Não escrevo isso com tom de denúncia contra nenhum deles. Só achei um dado significativo para a discussão que estou fazendo. Afinal, os seis tinham consciência que eu os havia selecionado, mas será que eles se percebem como um grupo independentemente de suas ligações interpessoais? Eles poderiam se perceber como um recorte significativo de um cenário? E será que se importam com isso?
Os dois artistas que responderam foram Thiago Melo e Joniel Santos, ambos quadrinistas premiados na Feira HQ. Joniel, inclusive, já tem algumas coisas publicadas por aí. A primeira pergunta que fiz foi: “Existe um cenário de quadrinhos no Piauí? Existem referências de autores ou trabalhos locais?” Joniel disse: “Creio que existe gente querendo fazer quadrinhos e alguns fazendo. Espero que assim possa existir um cenário propriamente dito como em outros estados. E quanto a referências, sim, temos referências de autores locais que estão conseguindo visibilidade nacional e internacional.” Thiago Melo citou exemplos: “Sim, mas é muito tímido - infelizmente. Algumas referências locais podem ser destacadas, como os trabalhos do Leno Carvalho, do Caio Oliveira e do Bernardo Aurélio que, em cenário local, talvez sejam os artistas de maior destaque nessa área”. Os dois não são muito otimistas com relação ao “cenário” local, apesar de existir algumas pessoas que começam a aparecer como referências nacionais, ou mesmo internacionais.
Da minha parte, quais os quadrinistas profissionais que considero por aqui? Sendo otimista, citaria três: Leno Carvalho, Caio Oliveira e Will Walber Jr. Esses autores, de estilos completamente diferentes, treinados nas escolas de suas próprias subjetividades, moldados por suas leituras, vendem seu trabalho para o mercado nacional e internacional. Existem vários outros que fazem quadrinhos, claro, mas autores como esses três poderiam ser considerados referência para quaisquer quadrinista de primeira viagem que queiram tentar a sorte nesse mundo de artes sequenciais, entretanto, não são! Isso porque falta maior conhecimento sobre a obra desses artistas que conseguem algum destaque no cenário local ou nacional. Parte dessa falta é culpa pessoal de cada um, entretanto existe uma ausência maior que deveria cumprir esse papel divulgador, de contar nossa história e apresentar os exemplos, acima disso, de lhes representar. O Núcleo de Quadrinhos do Piauí (NQ) foi criado para isso, entretanto, eu seria ingênuo se acreditasse que o NQ cumpre com seus objetivos.
No começo do texto disse que eu não era a pessoa indicada para escrever este texto e um dos motivos é porque sou um dos sócios fundadores do NQ, presidente por 4 anos e conselheiro por mais 2 anos, além da minha luta nos outros 8 anos anteriores, quando o grupo atuava antes de sua regulamentação formal. O que posso dizer é que dos cerca de 30 sócios oficialmente registrados em ata e dos mais de 1000 membros do grupo virtual no facebook, o NQ resume-se a meia dúzia de pessoas, às vezes 9 ou 10 se considerarmos o que rege o estatuto, incluindo diretoria e conselho. Deste pequeno ciclo, um ou dois são quadrinistas. Para não me alongar em uma discussão que não é a proposta, o NQ é uma instituição aberta, sem fins lucrativos e disposta a trabalhar com todos que se apresentarem. Foi assim, com a ajuda de vários amigos e assistentes que fizemos 13 edições da Feira HQ e alguns projetos de publicação de quadrinhos, como a Revista Feira HQ nº 1, 2 e 3, reimpressão de 30 anos de Humor Sangrento, Foices e Facões, Cabeça de Cuia, O Imortal e Por dentro do Máscara de Ferro.
Para exemplificar melhor o papel do NQ, faço uso do que disse os artistas convidados. Para Joniel Santos “o Núcleo e a realização da Feira durante todos esses anos foi de importância fundamental pra o quadrinho no Piauí. A oportunidade dada aos iniciantes, como ocorreu comigo, a visibilidade dos trabalhos que são avaliados por profissionais e as premiações que sempre estimularam a produção no nosso estado e em outros. Sou suspeito pra falar da Feira HQ já que devo o início da minha carreira à exposição das minhas obras neste evento e pelos contatos que fiz através dela”. Thiago Melo afirmou que “para os quadrinistas locais, a Feira é um dos poucos espaços de visibilidade e troca de experiências no nosso Estado. Acredito que se a Feira um dia acabar, leva junto boa parte disto que se constitui como um ‘cenário local de quadrinhos’”.
Acredito que a opinião dos dois é bastante significativa, falando por si mesmas. Talvez, um ou outro dos quatro que não responderam minhas perguntas apresentasse opinião contrária. De fato, a Feira HQ ou o NQ não contribuíram de forma verdadeiramente efetiva para construir um cenário ou desenvolver um mercado de quadrinhos local, característica essa de vital importância quando se pensa em qualquer cenário cultural em qualquer região. Entretanto, pessimismos à parte,  NQ contribuiu para que esse cenário tivesse algum rosto, nome ou alguma história, e como já disse, esse é um dos elementos fundamentais para construirmos uma ideia de cenário.
Lembro-me de conversa que tive certa vez com Chagas Vale, grande músico e ator de teatro de bonecos. Sim! Ator de teatro de bonecos. Pois não são apenas os bonecos que encenam numa peça de mamulengo, também atua o dono da mão escondido por trás do palco. E o que estou dizendo aqui não é incoerente: lembro do Chagas porque ele disse para mim que os quadrinistas são como atores de teatro de boneco: o grande público sempre nos considera uma arte menor. Teatro de Boneco < Teatro. Quadrinhos < Artes plásticas (ou artes visuais). Cito isso, neste momento, para que você considere que, no Piauí, onde os grandes artistas plásticos de caras pinturas a óleo que ostentam salas e gabinetes não possuem, sequer, uma galeria digna, fruto, eventualmente, de mal organização e articulação de uma classe sem representatividades. Agora imagine que os quadrinistas fazem “apenas teatro de boneco” diante das grandes obras de arte e tente configurar o cenário de nossa expressão artística.

Obrigado.


domingo, 13 de setembro de 2015

VOLTA, MUTARELLI, VOLTA! OU NÃO...


Mais uma prova de que quadrinhos não são literatura é a matéria do site uol sobre Lourenço Mutarelli. Este, um autor que conheci em meados da década de 90 com a “trilogia em quatro partes” de Diomedes, um detetive muito escroto. Aquilo brilhou pra mim. Até hoje considero uma das melhoras obras que já li e a melhor hq nacional que conheço. Uma obra volumosa, densa, cheia de propostas estéticas. Propostas que poderiam incomodar os incautos, mas que agradaria aos curiosos.



Naqueles anos eu fazia uma feira de quadrinhos aqui no Piauí e resolvi que Mutarelli deveria ser um dos nossos convidados. Eu o procurei, achei um e-mail, entrei em contato, mas sua esposa respondeu e disse que ele não poderia ir. “Coisa de artista”, pensei. Hoje, parece-me que ele já não costumava ir a esses eventos, como não foi ao último Troféu HQ Mix, receber a homenagem que lhe fizeram. Um quadrinista que não faz mais quadrinhos e que dedica-se a outras áreas da arte. “A Lucimar Mutarelli irá me representar. Obrigado", escreveu ele à organização do HQ Mix, segundo a matéria do site Uol com o artista. Posso imaginar como se sentiram o pessoal do prêmio.



Enfim, Mutarelli desistiu dos quadrinhos. Ele disse que "o meio dos quadrinhos sempre me incomodou bastante. Os próprios quadrinistas mesmo. É um meio muito bitolado”. O autor fez teatro, namorou com o cinema, em filmes como a adaptação de O Cheiro do Ralo, mas antes disso havia se rendido à literatura.  Ele disse que “essa mudança veio não só pela literatura, mas também pelo meio literário, que me aceitou muito bem. Isso é uma coisa que me ganha. Aceitação verdadeira, não bajulação. No meio literário eu fui muito bem acolhido, isso foi uma coisa que foi muito importante para mim”. Fica evidente que o autor não foi bem aceito pelo meio dos quadrinhos. O que é uma pena. Perdemos uma referência que estava, talvez, no auge de sua criatividade. Foi rumar por outras linguagens porque fazer quadrinhos no Brasil é um tormento, o próprio autor disse que “no quadrinho, você precisa trabalhar no mínimo dez horas por dia desenhando. Escrevendo [romances], eu trabalho menos horas por dia, trabalho com muito mais prazer. E vivo também. Antes, eu não vivia, só trabalhava”. Essa é uma condição de crise para o mercado de quadrinhos no Brasil. Existe um grande esforço desse tipo de autor, o desenhista, que passa horas, às vezes dias, produzindo uma única página.



Mutarelli é um artista reconhecido e reclama-se abertamente da falta de recursos, “eu preciso é de dinheiro. Sou um cara totalmente falido”. Já li alguns textos sobre o mercado de quadrinhos no Brasil e é lugar comum encontrar referências de quadrinistas que tiveram de percorrer caminhos no design ou publicidade para puderem sobreviver.

Dessa história, fico com algumas reflexões: por que os quadrinhos no Brasil são um meio tão indigesto com seus artistas? Por que nossa arte sequencial teve de perder esse talento tão significativo para outros meios artísticos? Serão os quadrinhos um meio realmente tão “bitolado” a ponto de renegar a sobrevivência de um autor referência em seu próprio seio?

Mutarelli, cara, fica de boas!

Não quero aqui fazer um tratado sobre o mercado de quadrinhos no Brasil, apenas me indigno em saber que nos EUA, autores da literatura e de outras áreas, como Stephen King, George RR Martin e Orson Scott Card, migram e fazem sucesso com os quadrinhos,mas aqui no Brasil ainda vivemos em um meio onde si diminui os quadrinhos a um gênero qualquer de “subliteratura”, onde autores, para serem levados a sério, precisam escrever romances porque gibis não levam ninguém a lugar nenhum.