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sábado, 19 de maio de 2018

Conheça a tradutora de livros de Arquivo X, Sidney Sheldon e Trono de Vidro


Por Bernardo Aurélio

Mariana Kohnert é tradutora de livros desde 2011 e trabalhou em textos de autores como Sidney Sheldon (Em busca de um novo amanhã) e Sarah J. Maas (da série Trono de Vidro). Nesta entrevista, conversamos mais particularmente sobre o livro The X Files – Origens: Agente do Caos (que já resenhei por aqui), aventura que conta sobre a adolescência de Fox Mulder, protagonista da famosa série de tv Arquivo X.

Em nossa conversa, Mariana nos conta sobre o ofício da tradução, sobre as particularidades de cada autor com quem trabalhou, sobre sua relação com a série de tv que deu origem ao Agente do Caos e sobre o que mais gostou no livro. Parece que nós tivemos uma exer traduzindo, isso faz toda diferença...

Bernardo Aurélio: Antes de qualquer coisa, como você se tornou uma tradutora?

Mariana Kohnert: Eu me formei em Comunicação Social com habilitação em Produção Editorial, então entrei no mercado editorial ainda como estagiária. Depois disso me tornei assistente editorial e ganhei experiência trabalhando com produção de livros. Eu já me interessava bastante pela área textual e durante um tempo fiz freelas como revisora e copidesque. Isso me deu experiência com texto e, depois de alguns anos, eu decidi tentar ser tradutora. Pedi para fazer testes de tradução e meu texto foi aprovado. E estou traduzindo desde 2011.




BA: Percebi que você tem uma longa lista de trabalhos, que envolvem nomes que passeiam por Sidney Sheldon, John Green a Sarah J Maas. Como é traduzir textos desses diferentes autores?

MK: É interessante ter a oportunidade de traduzir diferentes autores porque cada um representa um desafio diferente. Cada autor tem seus traços estilísticos próprios, as histórias e o público-alvo são diferentes. Isso me leva a adotar uma perspectiva diferente para cada texto traduzido, o que torna o trabalho bastante revigorante a cada mudança de livro.

BA: Atualmente, o nome do tradutor aparece do lado do nome do escritor original em sites de busca ou venda. Como é o trabalho de autoria de um tradutor? Quer dizer, como você lida com a subjetividade do seu trabalho se, teoricamente, você deve ser maximamente fiel ao original?

MK: Eu prezo bastante pela fidelidade ao original. Mas isso não é sinônimo de uma tradução absolutamente literal. A tradução literal de uma expressão idiomática característica da língua de origem, por exemplo, pode acabar traindo o texto, destituindo do trecho o significado pretendido pelo autor e desrespeitando o leitor.
Nesses casos entra o trabalho de adaptação de fato.
Eu acredito que por mais que o tradutor procure ser objetivo, se ater ao texto, os recursos de que lançamos mão para um trabalho de adaptação são resultado de nossas experiências formativas, do que compõe essa nossa bagagem linguística, e são nossas marcas de estilo também. Isso é inevitável, mas é preciso ficar atento para que não prejudique o texto ou desrespeite os leitores. Um exemplo, eu sou carioca, e sei que os livros são distribuídos pelo Brasil todo, então muitas vezes preciso parar e pesquisar se uma expressão que utilizei é excessivamente carioca. É um trabalho difícil porque exige que a gente se questione bastante, mas é importante para que se respeite a diversidade geográfica dos leitores e também não se prejudique o entendimento para parte deles.


BA: Como o livro Agente do Caos chegou às suas mãos?

MK: Ele foi me oferecido para tradução pela editora – processo normal mesmo.

BA: Você já conhecia os livros de Kami Garcia, autora de Agente do Caos? Se identificou com a escrita dela?

MK: Eu conhecia os livros da série Beautiful Creatures  (Dezesseis Luas). Eu adoro a escrita dela, na verdade. A Kami Garcia tem uma forma bastante leve de escrever, você se pega recitando os diálogos (às vezes quando a gente traduz é preciso dar uma recitada na cena) como estivesse participando da situação, é tudo bastante natural. Assim como os trechos narrativos de introspecção dos personagens, sinto que ela consegue ser bastante natural nessas horas também.

BA: Chegou a ler ou soube que Kami Garcia já havia escrito um conto (Filho do Buraco Negro) de Arquivo X publicado no Brasil anteriormente?

MK: Antes de receber o livro para traduzir eu não sabia que a Kami Garcia tinha escrito o conto não. Depois, com a breve pesquisa que fiz para iniciar a tradução do livro, eu fiquei sabendo.

BA: Você envolveu-se de alguma forma com o processo de tradução do livro The X Files Origens: Advogado do Diabo? Sabia que esse livro tem interseções com o Agente do Caos? Inclusive há um mesmo personagem nos dois livros que teve seu nome traduzido de maneira diferente (Luz do Sol ou Raio de Sol). O que poderia nos dizer sobre isso?

MK: Eu não me envolvi diretamente com o processo de tradução do Advogado do diabo. Nós trocamos vocabulários e fizemos algum contato inicial para determinação de alguns termos recorrentes. Eu não sabia que o Luz do Sol aparecia também no Advogado do Diabo até você observar.

BA: Qual sua relação com a série Arquivo X? Algum fã lhe procurou ou você procurou algum deles para o seu processo de tradução?

MK: Eu na verdade cresci assistindo Arquivo X, primeiro na TV aberta e depois na TV a cabo. Minha mãe sempre foi muito fã de ficção científica, e ela passou isso para mim e para o meu irmão. Era um momento família nosso sentar na frente da TV à noite e assistir Arquivo X. E depois ficar conversando horas e às vezes dias sobre as tramas. Ela comprava para a gente revistas que tinham entrevistas, que discutiam teorias dentro da série. Foi uma parte muito grande da minha formação e tenho muitas memórias familiares ótimas relacionadas a Arquivo X. Com o fim da série e com o tempo eu acabei deixando um pouco de lado, e na verdade ainda não consegui assistir à nova temporada porque aqui onde moro demorou muito para chegar à TV e quando chegou eu nem me dei conta de que já estava disponível.
Enfim, por conta disso, eu acreditei que tinha recursos, que tinha bagagem cultural para direcionar minhas pesquisas para a tradução desse livro.

BA: Um dos pontos mais importantes em Agente do Caos é sua relação com o livro “A Espada Diabólica”, de Michael Moorcock. Você já conhecia o livro e esse autor?

MK: Eu não conhecia o livro nem o autor. Passei a conhecer durante as pesquisas para a tradução de Agente do caos.

BA: Percebi que traduziu o título original “Stormbringer” para “A Espada Diabólica”, o mesmo título utilizado no Brasil na década de 1970 por uma pequena editora que nem deve existir mais. Isso faz parte de um processo de pesquisa? (pergunto porque, pra mim, foi ótimo, porque assim pude conhecer, encontrar, comprar e ler a versão de “A Espada Diabólica”, publicada em 1975)

MK: Isso realmente faz parte de um processo de pesquisa e também da prerrogativa de respeito ao leitor. Se o original menciona uma obra que tenha sido traduzida para a língua de destino, é importante a gente usar o título dessa tradução justamente para que um leitor possa pesquisar e encontrar tal livro se quiser.
Abri um sorrisão aqui ao saber que você pesquisou e encontrou A espada diabólica depois de ler Agente do caos – eu sempre imagino essa possibilidade, você acaba de me mostrar que acontece mesmo!



BA: Qual passagem do livro achou mais interessante ou curiosa de fazer? A quem você indicaria, que público deve ler Agente do Caos?

MK: Nossa, essa é difícil! Eu me diverti muito traduzindo os trechos com o Major, e sendo fã de Arquivo X, uma vozinha na minha mente ficava dizendo “Vocês precisam dar atenção ao Major”, e eu ficava maquinando de que maneira as falas aparentemente loucas e enigmáticas dele podiam se encaixar na trama e esclarecer alguma coisa. Fiquei arrasada com a última cena do Major...
Eu indico o livro pra todo mundo que conheço que gosta de Arquivo X, mas também indico para quem gosta de um bom mistério. Acho que para os fãs, têm todos os pontos de reconhecimento com a série que dão uma perto de nostalgia no coração. Para quem nunca ouviu falar, acho a trama muito bem construída, e qualquer um que goste de um bom mistério de serial killer deveria ler.

BA: Existe alguma indicação de tradução ou cuidado externo dos escritores originais com relação a este livro?

MK: Não houve indicação para cuidados específicos com a tradução desse livro não. Mas sei que a editora que me escolheu para traduzir esse livro sondou meu interesse pela série. E fiquei muito, muito grata por ter passado nessa sondagem inicial!

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Agente do Caos: a origem de Fox Mulder



Por Bernardo Aurélio

Em meados de 2015, os fãs de Arquivo X reacenderam suas expectativas por conta da volta de uma das mais importantes séries da TV norte americana para os holofotes da mídia. O último episódio da nona temporada havia sido exibido em maio de 2002 e seu segundo longa-metragem havia estreado em julho de 2008. Então, sete anos depois começam a anunciar a 10ª temporada com episódios inéditos. Na esteira desse retorno, vieram também novos livros sobre o universo, ou a “mitologia” da série.

Em janeiro de 2016 estreia a 10ª temporada. 30 dias depois já estava disponível a coletânea de contos Arquivo X: A Verdade Está lá fora (que será resenhado aqui futuramente). No ano seguinte, foram lançados dois livros simultâneos com um importante objetivo: contar a história dos protagonistas da série ainda jovens estudantes, adolescentes, antes de se conhecerem no FBI.

Recentemente, fiz a resenha do livro The X Files Origens: Advogado do Diabo (você pode ler aqui), que conta a história de Dana Scully, então com apenas 15 anos de idade. Agente do Caos, foca na história de Fox Mulder. Os livros foram lançados juntos com um objetivo que não era apenas a simples origem desses personagens tão queridos. As duas publicações fizeram parte de um projeto editorial, tanto visualmente, quanto na história, quer dizer: ambas se passam em 1979 e alguns elementos narrativos se cruzam. A folha de rosto dos dois livros traz relatório do FBI datados de 1º de abril daquele ano com informações secretas, inclusive censuradas em algumas palavras, tanto sobre a situação de Bill Mulder quanto do Capitão Scully e de seus respectivos filhos, indicando que desde o princípio eles estavam envolvidos com algo maior envolvendo o governo dos Estados Unidos e que estavam sendo observados.





A história de Dana Scully passa-se na, então, pequena cidade de Craiger, em Maryland, para onde ela acabava de se mudar de San Diego. Da mesma forma, o pai de Bill Mulder acabava de ser realocado, juntamente com seu filho, de Martha’s Vineyard para Washington DC. Existem outros pontos em comum entre os dois livros, mas calma! Não vamos atropelar as coisas.

Do que trata Agente do Caos? Fox Mulder, como sabe qualquer pessoa que conhece minimamente a série, é traumatizado com um fato de sua infância: o sumiço de sua irmã. Para todos que acompanham a série com mais atenção, sabemos que o sumiço dela faz parte de todo um processo conspiratório envolvendo o governo, organizações secretas e planos alienígenas, mas nosso protagonista, com 17 anos, não fazia ideia disso. As lembranças do acontecido, quando ele ainda era uma criança, eram muito incompletas, enevoadas, reticentes... O que teria acontecido com sua irmã, Samantha? Esse é um acontecimento que funda a personalidade de Fox e o nascimento de todo o ambiente claustrofóbico que envolve a família Mulder, e esse é um ponto alto no livro de Kami Garcia.

Curiosamente, Agente do Caos não foi a primeira incursão de Kami Garcia no passado de Fox Mulder. No livro de contos “Arquivo X – A Verdade está lá fora”, ela escreve o “Filho do Buraco Negro”, e faço esse parêntese aqui não porque essa história seja fundamental para plena compreensão do outro livro. Faço-o apenas para reforçar a qualidade da autora no que diz respeito à tensão em que vivia Mulder desde que Samantha sumiu. Sua família se desgastou, se consumiu, se apagou. Com almoços silenciosos, o cotidiano deles era revirado por discussões abafadas que Mulder não devia ouvir, muito menos entender. “Filho do Buraco Negro” é justamente uma analogia ao vazio que Samantha deixou, mas é também onde conhecemos a melhor amiga de Mulder, Phoebe Larson, que tem papel muito importante em Agente do Caos. Depois falaremos mais sobre ela.

Em seu livro, Kami Garcia mostra a família Mulder terminando de se acabar, com os pais separados e, por sugestão da própria Teena Mulder, pai e filho deveriam morar junto, o “experimento vamos nos conhecer melhor”, segundo Fox. Isso é muito triste para nosso protagonista, que vive na mesma casa que o pai, mas a quilômetros de distância de uma convivência real, ou fraterna, com ele, e ainda sendo afastado da mãe por decisão dela própria. Mas isto tudo é apenas o cenário geral. A história realmente começa quando Mulder encontra-se diante de um caso de sequestro e assassinato de crianças e tudo o faz relembrar do sumiço de Samantha. Terá sido ela sequestrada e assassinada? Essa não é uma trama nova em Arquivo X, já vimos algo semelhante ainda na quarta temporada (1996-1997) no episódio “Corações de Pano” (S04e10). Já que a trama não é, exatamente, original, onde mais o livro de Kami Garcia pode agradar tanto aos e fãs quanto ao público em geral?

Um dos pontos já foi colocado aqui que é justamente a relação de Mulder com sua família. O outro ponto é a abordagem de como contar uma história, por assim dizer, já “conhecida”. A autora conseguiu criar personagens secundários interessantes na mesma medida em que foi habilidosa incluindo personagens conhecidos na trama: não apenas o Canceroso, arquivilão e quase um protagonista na série, espionando Mulder, como o enigmático X. O leitor ocasional de Agente do Caos (existem?) provavelmente não se importa com o X, mas o fã sempre se empolga com a volta de um personagem tão carismático, em sua dureza, que saiu do seriado décadas atrás. Além dos personagens “mitológicos”, Kami retoma a mesma Phoebe de seu conto anterior e um novo amigo: Gimble. Os três, juntos, são refrescantes como uma aventura de sessão da tarde. Não! Na verdade, eles possuem uma química nerd que nos lembra a relação entre os amigos de Stranger Things, impressão reforçada por discussões sobre RPG, Duna e Jornada nas Estrelas, tudo isso embrulhado no ano de 1979, cheio de outras referências à TV (Farrah Fawcett) e literatura. O trio acaba se envolvendo em “altas aventuras” para tentar resolver os crimes de assassinato de crianças que estão se repetindo na cidade.

Essas referências à cultura pop setentista que aparecem no livro, e que senti falta no Advogado do Diabo, também é um dos pontos altos de Agente do Caos. Particularmente, minha leitura foi muito prazerosa porque me despertou curiosidade a alguns desses elementos, como o livro "A Espada Diabólica", de Michael Moorcock. Talvez você só conheça essa obra pelo nome do seu protagonista, Elric, recentemente lançado em uma versão em quadrinhos luxuosa pela editora Mythos ou as duas edições do livro Elric de Melniboné (Generale). Infelizmente, não li nenhuma dessas versões novas, mas encontrei uma impressão antiga de A Espada Diabólica, que narra a história do mesmo Elric, lançada pela (provavelmente extinta) editora Francisco Alves, em 1975. Comprei por meros R$10 no Mercado Livre e recomendo fortemente, apesar da tosca capa (no futuro devo fazer uma resenha sobre esse livro também). Mas porque estou citando esse livro mesmo? Porque ele é o tempo todo mencionado em Agente do Caos. O “Caos” no título do livro é uma referência a história de Elric, toda a trama envolvendo o assassinato das crianças envolve uma “crença” em torno desse livro, e porque Moorcock é um escritor de fantasia de enorme sucesso, só comparado no estrangeiro ao Tolkien (Senhor dos Anéis) e Robert E. Howard (Conan), que só fui ler depois de apresentado aqui por Kami Garcia.



Da mesma forma que em Advogado do Diabo, onde Scully não é exatamente cética, em Agente do Caos somos apresentados a um Fox Mulder que gosta de ficção científica, que sonha em trabalhar pra NASA e ser astronauta, mas que ainda não está completamente disposto a acreditar. A fantasia, a crença no mítico, a sensibilidade de se curvar diante do inexplicável ou das probabilidades extremas, ou mesmo a simples dúvida de que o governo nega ter conhecimento, mas que sempre se envolve conspiratoriamente, ainda não existem. O que levaria Mulder a mudar? O que faria ele querer acreditar? Para isso é fundamental a participação de outro personagem interessante: o louco Major, pai de Gimble, um homem que teria visto demais e que ficou completamente paranoico, que arranca suspiros de simpatia da parte de Mulder, mas que pode significar muito mais para seu futuro.

Como havia mencionado antes, os dois livros possuem interseções. Em seu livro, Scully combate crimes na cidade de Craiger, Maryland e passeia por um lugar chamado Além do Além, onde somos apresentados a alguns personagens como Corinda ou o encantador Luz do Sol (Advogado do Diabo)/Raio de Sol (Agente do Caos). Curiosamente, Mulder e seus amigos acabam passando pela mesma cidade no meio de suas investigações e conhecem aqueles coadjuvantes. É possível que Mulder tenha entrado no ambiente onde Scully estava e eles poderiam ter se conhecido anos antes do mostrado na primeira temporada da TV. Claro que o fato de eles terem se envolvidos em resolução de crimes durante suas adolescências em um mesmo período e região e isso nunca ter sido citado na série, pode deixar de cabelo em pé os mais xiitas, mas para nós é apenas uma coincidência legal proporcionado pela literatura.


E já que estamos falando de “coincidências” preciso falar de algumas que encontrei e que me fizeram querer escrever logo esse texto: o 12º episódio da primeira temporada, chamado “Fire” (O Incendiário) nos apresenta uma personagem chamada Phoebe Green e ela é muito parecida com a Phoebe Larson que conhecemos em Agente do Caos. Green é uma investigadora britânica apresentada por Mulder como “o terror da Scotland Yard” e como uma pessoa de mente brilhante. Eles se conheceram na universidade de Oxford, onde provavelmente fizeram o curso de psicologia juntos e teriam feito loucuras uma noite, em cima do túmulo de Sir Arthur Conan Doyle. Green, apresenta-se como uma mulher impulsiva e extremamente sexy que teria magoado Mulder, o que o obrigou a tentar deixa-la no passado. Phoebe Larson tem o mesmo tipo de gênio: sensual a ponto de saber usar seus dotes femininos para chamar atenção de adultos, isso ainda no conto "Filho do Buraco Negro", quando ela deveria ter no máximo uns 16 anos, e muito inteligente, poliglota sem contar o klingon e o élfico. Phoebe Larson também foi namoradinha de Mulder em Agente do Caos. Impossível elas serem exatamente a mesma personagem, já que na série eles se conhecem na Inglaterra no início da década de 1980 e no livro eles viviam na mesma cidade de Martha’s Vineyard em meados dos anos 1970, mas, pra mim, é inegável que uma personagem ajudou a construir a outra.



Mas as semelhanças entre o livro e o episódio Fire não se resumem à Phoebe. Como se trata de um spoiler, vou deixar essa explicação para uma observação no final do texto.
Para não me alongar mais, se você é fã de Arquivo X e ainda não leu Agente do Caos, está fazendo algo muito errado. Leia! É um livro divertido que procura agradar tanto aqueles que foram jovens assistindo às primeiras exibições da série nos anos 1990, quanto os verdadeiros jovens de hoje, talvez numa tentativa de criar um novo público para a série a partir da literatura juvenil. Digo isso porque, além do clima meio cômico de aventura de sessão da tarde, Agente do Caos traz rompantes de amor e sedução adolescente entre Mulder e Phoebe, o que era muito fácil de se esperar de um jovem de 17 anos que escondia Playboys do pai debaixo do colchão de sua cama. Afinal de contas, Mulder não é tão estranho assim.

Nota 3,5 de 5.

Spoiler: No episódio Fire, Mulder coloca que a casa de seu melhor amigo explodiu e que ele teria passado a noite lá fazendo vigília, protegendo os destroços da casa. Isso teria traumatizado o personagem, que desenvolveu grande fobia por fogo. O episódio não fala exatamente que o seu melhor amigo morreu teria morrido no incêndio. Tudo indica que Kami Garcia usou esse elemento para construir um momento que podemos chamar de “ponto de virada” no personagem. Em Agente do Caos, a casa de seu melhor amigo é realmente explidida, e o pai de Gimble, o Major, morre por conta disso. É a morte do Major, uma figura aparentemente inocente em suas loucuras conspiratórias, que faz Mulder querer acreditar. O fogo, o assassinato do Major muda Mulder.

sábado, 7 de abril de 2018

The X Files Origens: Advogado do Diabo



Por Bernardo Aurélio

Nesses últimos anos, aproveitando a retomada de uma das séries de maior sucesso na televisão em todos os tempos, a editora Harper Collins decidiu trazer para o Brasil dois livros que abordam, cada um deles isoladamente, a origem de seus protagonistas. Um deles é Agente do Caos, que foca sua narrativa na adolescência de Fox Mulder e que será resenhado aqui futuramente. O outro, Advogado do Diabo, nos apresenta uma Dana Scully com apenas 15 anos de idade, sobre o qual iremos nos debruçar agora.

Na orelha do livro, em letras garrafais está escrito “ELA NEM SEMPRE FOI CÉTICA”. Essa é a premissa do livro. Se você conhece Arquivo X, sabe que uma das melhores características da série é justamente o ceticismo de Dana Scully, uma médica forense e agente do FBI, que sempre se encontra diante de situações que questionam sua razão ou lógica científica. Mesmo diante de fenômenos paranormais ou criaturas mitológicas, isso não a abala, disposta a dialogar com um bordão como: “existe uma explicação científica para isso”. Acontece que ela aprendeu a ser cética antes de conhecer Fox Mulder e os Arquivos X, e Advogado do Diabo monstra, justamente como isso aconteceu.

O melhor elogio que poderia fazer a esse livro é dizer que é “diferente”. Scully, definitivamente, não é a mesma que entrou por aquela porta de um depósito do FBI no início dos anos 1990 para nos apresentar os “imprestáveis do FBI”. No caso, ser uma Dana diferente é quase um problema, pois pode gerar um desconforto nos fãs, acostumados que somos com a personagem de um jeito e não de outro. Mas precisamos abrir nossa cabeça para as possibilidades. Afinal de contas, estamos falando de uma adolescente, estudando no primário de uma cidadezinha chamada Craiger, de Maryland, em 1979.



Quando digo “abrir nossa cabeça” estou falando no nível de Dana Scully tendo experiências extracorpóreas e protagonizando viagens astrais, só para você ter uma ideia. Coisas desse tipo se estendendo por quase 90% do livro. É claro que, importante frisar, estamos falando de um livro de “origem” e, portanto, de como algo veio se tornar, a nascer e, apenas por isso, já vale a pena ser lido se você for um fã da série, mas não tenho certeza se o livro agradaria o público em geral.

Afinal de contas, do que trata “Advogado do Diabo”? A família Scully mudou-se a pouco tempo para a cidade de Craiger e as irmãs Dana e Melissa precisam se adaptar à nova turma no colégio Regional Francis Scott Key. Nesse ponto, o livro é quase uma historinha de colegiais e gente estranha precisando se enturmar. Melissa é praticamente a mesma personagem que vimos na série, fascinada pelo misticismo dos cristais e espiritualidades, com o detalhe de ainda ser uma adolescente também. Ela é o fio condutor que carrega Dana por essas influencias. Um dos pontos positivos do livro é justamente a abordagem do relacionamento entre as irmãs, no que tange ao crescimento do ceticismo de Dana e o consequente distanciamento entre elas, como assistimos no show de tv. Dana e Melissa frequentam a casa “Além do Além”, um lugar onde se pratica yoga, meditação, onde vende-se cristais, livros de astrologia, apanhador de sonhos, incensos e todo tipo de parafernália do gênero, mas onde as duas vão, principalmente, para tomar um chá.

A vida seguia bem em Craiger, até Scully começar a ter sonhos e visões acordadas que apontariam para certa mediunidade da personagem e, pior, essas experiências que vinha tendo poderiam indicar que as várias mortes acidentais que aconteciam à adolescentes nos últimos meses naquela cidade não seriam tão acidentais assim, que poderiam ser assassinatos. Dana Scully, com toda a maturidade que uma adolescente pode ter, não sabe como lidar com as visões que acabam lhe trazendo muitos transtornos, pois agora não era mais apenas a nerd da sala, mas sim a “nerd maluca que tem visões e fala com os mortos”.

A narrativa prossegue contando a história de como a jovem protagonista pode ajudar a desvendar esses crimes, às vezes usando de pesquisa sorrateira e meticulosa, digna de qualquer agente do FBI, até a utilização da mediunidade como uma força e fonte de conhecimento. O livro procura sempre esse equilíbrio, mostrando Scully nesta corda bamba para qual lado penderia sua personalidade futura, o que não é nenhum segredo se você já assistiu a pelo menos 1 dos mais de 200 episódios da série.

É engraçado ver a jovem Scully ruborizando aos primeiros galanteios de um colega de sala, ou esforçando-se para ser uma aluna aplicada nas aulas de jiu-jitso, elementos que constroem uma personagem retraída, tímida, mas, ao mesmo tempo, forte e disposta a lutar pelo quê acredita. Uma das melhores cenas do livro, na minha opinião, foi a descrição da luta dela com um dos seus instrutores enquanto ela estava, por assim dizer, com seus poderem de mediunidade “ligados”.

O livro torna-se uma leitura rápida mais pela forma como é contado do quê pelo conteúdo em si. São 316 páginas e 83 capítulos. Sim! 83! Dá uma média de menos de 4 páginas por capítulo. Você fica com aquela sensação de “vou ler só mais o próximo. É só mais uma ceninha” e você acaba demorando largar o livro, mesmo quando o sono vem. A história em si não é ruim, mas deixa um pouco a desejar se você é um leitor que procura todas as respostas para uma história de investigação. Mas se você conhece Arquivo X, então não se incomoda se um grupo misterioso chamado “Sindicato”, que são apresentados como “Homens de Preto”, estão por trás de tudo e lhe dão apenas reticências como resposta. Essas ausências, esses buracos, são da natureza de mitologia que fez de Arquivo X um grande sucesso mundial.

Entretanto, o autor Jonathan Maberry, mesmo se esforçando em descrição de cenas familiares afetuosas, como Dana com seu pai lendo Moby Dick ou com sua avó tomando café (que nunca assistimos na tv, corrijam-me se estiver enganado), mesmo tendo ganho cinco vezes o Bram Stoker Award e mesmo tendo editado antologias de Arquivo X nos EUA, deixa a desejar. Não é nem tão sensível, nem tão horroroso quanto deveria. Uma leitura mediana que, assim como as duas últimas temporadas de Arquivo X na tv, só deve agradar, verdadeiramente, o fã mais convicto. Ou que só deve levar até a última página o leitor menos exigente. Talvez essa sensação de insuficiência do livro tenha sido realçada pela aparente falta de esmero na edição brasileira, que tem parágrafos com textos truncados, palavras repetidas que ecoam mal em qualquer leitura ou falta de concordância em frases como “ele tentou sorriu” (página 299).

Nota 2,5 de 5

quinta-feira, 29 de março de 2018

Arquivo X terminou. E agora?


Por Bernardo Aurélio
Essa semana, fiz um experimento: carente de Arquivo X, como estou, já que a 11ª temporada acabou com um gostinho incômodo no final da língua, fui até meu armário. Tenho algumas caixas das temporadas antigas lá, então decidi sortear uma delas e assistir alguns episódios aleatoriamente. Veio a 4ª temporada, peguei o disco 3 sem saber o que teria nele. O objetivo aqui é falar um pouco sobre esses episódios randômicos que desfrutei.

Só pra gente se situar, no encarte da 4ª temporada vem a seguinte sinopse: “as proféticas palavras do alienígena Caçador de Recompensas ecoam por toda a Quarta Temporada, que se inicia com a mãe de Mulder à beira da morte e o assassinato do misterioso X. A volta de Alex Krycek e o óleo negro alienígena ficam em segundo plano devido ao câncer da Scully. O trágico reaparecimento de Max Fenig leva à morte de um colega agente do FBI. E apesar desses acontecimentos fortalecerem a crença de Mulder em uma conspiração cada vez maior, uma desconcertante verdade revelada por Scully o leva a uma crise de fé que pode ser seu fim”. Esse é o cenário geral, mas eu não lembrava, não fazia ideia exata do que iria assistir. A coisa começa a se descortinar com o primeiro episódio do disco:

Terma, a pedra da morte (“Terma”, s04e09), nota 4 de 5.


O episódio é continuação direta do anterior, chamado “Tuguska, a pedra da morte”, onde Mulder vai para Rússia investigar as origens do óleo negro alienígena. O backgroung estava em algum lugar da minha memória, porque, em Terma, Mulder já começa preso em um campo de concentração e já havia participado de experimentos com o óleo. Ele estava atrás de Krycek e uma das suas maiores motivações era o ódio que sentia por ele. O foco de Mulder é conseguir fugir do campo e voltar para os Estados Unidos, enquanto lá acontecem as melhores cenas: Scully sendo sabatinada por uma comissão do Estado em um tribunal que queria saber do paradeiro do seu parceiro. 


A agente usa toda sua perícia e inteligência para esfregar na cara da comissão que o mais importante não era revelar a localização do Mulder, o que poderia representar um perigo para ele, mas investigar os motivos que o fizeram invadir a Rússia e reacender uma brasa da guerra fria, envolvendo espionagem e assassinatos para queima de arquivo. Grande episódio da mitologia, Krycek que o diga!

Corações de Pano (“Paper Hearts, s04e10), nota 5 de 5

Este episódio havia ficado marcado em minha lembrança quando assisti em uma das reprises da Record, e agora eu lembro o porquê. Nota 5 de 5. É aquele tipo de episódio com final em aberto onde você acredita ou não baseado em suas opiniões.

John Lee Roche é um assassino serial que Mulder ajudou a prender traçando seu perfil psicológico anos antes da série começar. Ele matava crianças e recortava pequenos corações de pano como lembrança das roupas que elas usavam. Teria feito 13 vítimas, até Mulder descobrir, revelado em seus sonhos, o paradeiro do 14º corpo, que o FBI não fazia ideia da existência. Com o desenrolar desta nova investigação, os agentes descobrem que há mais dois corpos desaparecidos e um deles pode ser Samantha, irmã de Mulder.

Trata-se de um excelente triller, que permeia o sobrenatural, mostrando como Mulder e Lee Roche influenciam-se mutualmente, focando sempre na impulsividade do agente, capaz de burlar as condutas do bureau, seja socando um criminoso preso, seja pondo-o em liberdade, para chegar aos fins.

Entraria facilmente em um top de todos os tempos de Arquivo X. Incrível como esses episódios antigos pareciam saber utilizar muito melhor aqueles 43ou 44 minutos de exibição.

O mundo gira (“El mundo gira”, s04e11), nota 3,5 de 5


O que poderíamos ter quando Arquivo X envolve-se com uma das maiores lendas da ufologia da América Latina? Se você lembrou do Chupa-Cabra, está certo! O episódio tem praticamente todos os elementos que tornaram a série um sucesso mundial: fenômenos naturais incomuns (como enormes clarões no céu e chuva amarela), elementos patogênicos estranhos (pessoas morrendo de forma instantânea com seus corpos sendo corroídos inexplicavelmente), a crença irrefreável de Mulder, o ceticismo coerente expresso de maneira tão técnica que apenas Gillian Anderson poderia deixar interessante e... possíveis alienígenas!


Apesar de tudo isso, o episódio escorrega um pouco na dinâmica das cenas no começo e tudo só torna-se mais interessante do meio para o fim, quando começa a dialogar com a veia dramática latina. Afinal, o Chupa-Cabra existe ou é apenas uma forma de um povo de sangue quente, temperado a novelas shakespearianas baratas, justificarem seus atos ou aumentarem suas histórias, maquiando os fatos?

No meio disso tudo, ainda somos apresentados à problemática da imigração ilegal e a discriminação que esse povo sofre na fronteira entre Estados Unidos e México.

O Homem do Câncer (“Leonard Betts”, s04e12), nota 4,5 de 5.

Para todos aqueles que adoram Eugene Tooms, mítico vilão que ajudou a cunhar o termo “monstro da semana” em Arquivo X ainda na primeira temporada, recomendo que assistam Leonard Betts com o coração aberto, mas cuidado!

Existem semelhanças entre Tooms e Betts, mas longe de incomodar, elas são um bálsamo para quem gosta de um assassino bizarro com uma pequena tendência para se alimentar, de alguma forma, de suas vítimas.

O grande lance desse episódio é que Betts, a princípio, não é um monstro da semana. Na verdade, ele é, literalmente, um salva-vidas, um excelente enfermeiro que atende urgências em ambulâncias. Tudo começa quando o carro onde está sofre um acidente e ele “morre”. Mas não é uma morte discreta. Sua cabeça saca e ele torna-se um corpo sem cabeça fugindo do necrotério. Na tentativa de recomeçar nova vida, Betts regenera-se (sim! Nasce nova cabeça!) e procura outra identidade, mas tudo é atrapalhado, tanto pela investigação dos agentes quanto pela sua ex-parceira da ambulância.

O episódio consegue mesclar muito bem o humor cínico de Mulder, a descrença de Scully e cenas nojentas, envolvendo tumores, cistos e lixo orgânico cancerígeno hospitalar.

Conclusão!
Se você tem uma memória fraca como a minha, sempre poderá se divertir pescando qualquer episódio entre as nove temporadas anteriores, principalmente se escolher da quinta temporada para trás, anteriores ao primeiro filme, que mudou consideravelmente a estética da série.

Obs: Os episódios estão na sequência da caixa no DVD, ou seja, o disco 3 reúne do nono ao décimo segundo episódio, seguindo as datas de exibição originais na TV americana (de dezembro de 1996 a janeiro de 1997). Mas se você for procurar o código de produção os episódios serão, respectivamente, 4x10, 4x08, 4x11 e 4x14.

sábado, 10 de março de 2018

Arquivo X – 11ª Temporada







Em 2016, voltaram a ser produzidos episódios inéditos de Arquivos X, após um hiato de 15 anos. Muitos não conhecem, mas a série foi uma das mais populares do mundo na década de 1990, só comparável, em número de público, com Friends e Sopranos.
Acontece que aquela retomada, 10ª temporada, não agradou a maioria dos fãs, apesar de ter atingido grandes picos de audiência, alguns maiores que os grandes sucessos na televisão atualmente, como Game of Thrones, provando que o amor dos “exers” (como são chamados os amantes de Arquivo X, semelhante aos “trekkers” de Star Trek) é grande, o que deu fôlego para que uma nova temporada fosse lançada em 2018.
Vamos analisar toda a temporada.
Resultado de imagem para imagens arquivo X 11º temporada

1. My Struggle III (nota 2 de 5)

O primeiro episódio é escrito e dirigido pelo criador da série, Chris Carter, mas é um pouco confuso, com muitos cortes, que procura uma dinâmica que mais incomoda do que parece inteligente. Aqui nós somos introduzidos à ideia de que o último episódio da 10ª temporada deve ser entendido como uma visão premonitória da agente Scully, de um futuro próximo que ela deve evitar e somos apresentados a uma ideia que parece ter sido imaginada por Carter ainda em 2000, na sétima temporada, que envolve o filho da protagonista, que foi entregue para adoção ainda bebê como forma de resguardá-lo dos perigos da conspiração que envolve a vida dos agentes do FBI, o que faz os fãs correrem atrás de um episódio específico de 18 anos atrás para relembrar o que está acontecendo de novo aqui. Esses tornam-se o mote desta nova temporada.
O episódio falha como começo de nova temporada, apresentando todos os defeitos dos episódios “mitológicos” da temporada anterior (os episódios 1 e 6 da 10ª temporada): personagens malconduzidos, cortes frenéticos, muita informação e pouco tempo para digerir. Simplesmente, o episódio não te dá tempo para refletir e até mesmo Mulder, narrando o episódio, torna-se desnecessário e fraca lembrança do que são as reflexões do personagem quando ele realmente aparecia em off em episódios anteriores.

2. This (nota 2,5 de 5)

É escrito e dirigido por Glen Morgan, que também é cadeira cativa na série. O episódio acerta na nostalgia dos fãs trazendo de volta um dos personagens mais carismáticos de toda a série, o pistoleiro solitário Langly. Aqui nós temos Arquivo X flertando com as novas tecnologias. Os desavisados podem imaginar que é uma tentativa de dialogar com os espectadores de Black Mirror, mas não se enganem. Arquivo X sempre teve episódios trabalhando o uso de tecnologias de ponta, como as ameaças da Inteligência Artificial.
O ponto alto deste episódio é revelar que os criadores desta nova temporada estão empenhados em aproveitar bem o pouco espaço de tempo que possuem (são 10 episódios, o que parece muito para os dias de hoje, mas Arquivo X já teve 25 episódios em uma única temporada) construindo uma teia onde, mesmo os episódios aparentemente fora do que chamamos de “mitologia”, ainda apresentam elementos que constroem uma grande narrativa que deve conectar toda a temporada.

3. Plus One (3,5 de 5)
Plus One é escrito por Carter e começa a mostrar, de verdade, porque Arquivo X merece novas temporadas.
Mortes improváveis estão acontecendo na cidade, cometidos pelas próprias vítimas, por seus duplos! Os agentes vão até lá resolver e a coisa ganha outros contornos: um pouco de thriller, pouco de humor, pouco de romance, tudo misturado com paranormalidade e aquele famoso joguinho da forca que brincávamos quando éramos crianças, onde ou a gente acerta o nome da pessoa, ou o bonequinho morre enforcado.
O ponto alto é a relação entre os protagonistas, que cresce de forma muito natural e, para nós que passamos ANOS esperando por um beijo entre eles, vê-los às confidências e carinhos atenciosos no quarto de hotel, mostra que eles amadureceram muito, coisas que apenas séries com 11 temporadas podem proporcionar ao telespectador.
4. The Lost Art of Forehead Sweat (nota 5 de 5)
Escrito e dirigido por Darin Morgan é o ponto alto da temporada até agora. Darin é autor de alguns dos episódios mais cômicos de Arquivo X, como “Mulder and Scully meet the were-monster” (de 2016, na minha opinião, o melhor da temporada anterior, onde um monstro é mordido por um humano e é amaldiçoado a viver como gente toda manhã), Clyde Bruckman’s Final Repose (da terceira temporada, sobre um vidente que ajuda a dupla a resolver crimes) e “José Chung’s From Outer Space” (sobre um autor de pulps ruins que entrevista os agentes procurando inspiração para escrever um livro sobre abdução alienígena) entre outros.
Neste novo episódio, Darin nos apresenta o “Sr. Ele”. Sabem quem é “Ele”? É aquele que conhece toda a verdade. Ele! A terceira pessoa que tudo vê e tudo sabe! De forma bem-humorada, como sempre fez, Darin nos prova porque as conspirações de arquivo X hoje, no mundo da fake news e da pós-verdade, não causam mais tanto impacto. A verdade já foi tão escancarada e apresentada de todas as formas, que as pessoas não conseguem mais discernir entre o que é verdade encoberta de mentira descarada. Nós vivemos no mundo da pós-conspiração. Um tapa na cara de todos que acreditam que Arquivo X é uma série datada e que não deveria continuar a ser produzida.

5. Ghouli (nota 3,5 de 5)
Este episódio, escrito e dirigido pelo também veterano da série James Wong, começa, aparentemente, como um “monstro da semana”, como chamamos os típicos episódios que sempre aparecem em todas as temporadas de Arquivo X, mas aquela mitologia que venho falando aqui vai sendo amarrada e somos apresentados ao bizarro William, o filho de Dana Scully, que tínhamos visto apenas como bebê na oitava temporada (de 2001), que agora é um adolescente problemático e muito mais estranho do que o Mulder poderia sonhar em ser.
Aqui, entendemos porque Gillian Anderson, que interpreta a Scully, é a grande atriz dramática que sustenta toda a série.


Neste episódio, vimos afundar a relação de Mulder com Skinner, o diretor do FBI a quem os agentes sempre reportaram ou recorreram, que vinha problemática desde My Struggle III, o que deixa a ponta para ser amarrada no episódio seguinte.

6. Kitten (nota 3 de 5)

Este episódio tem uma curiosidade: o ator Haley Joel Osmen, famoso por sua participação no filme O Sexto Sentido, é um dos protagonistas deste episódio. Ele interpreta dois personagens: um veterano de guerra do Vietnã e seu filho nos dias de hoje. O personagem de Haley lutou na guerra ao lado do diretor Skinner e o episódio busca mostrar um pouco do passado deste personagem que é quase o terceiro protagonista da série, mas que nunca teve apresentada sua vida pregressa ao FBI. A própria Scully fala no episódio que não conhecemos o Skinner.
Kitten, ao tempo que mostra uma paranoia envolvendo veteranos de guerra, estresses pós-traumáticos e gás de uso militar para controle emocional da população civil (adoro!), tenta nos revelar o lado humano de Skinner e traçar uma reaproximação de confiança mútua entre o diretor e os agentes. Digo “tenta” porque deixa um pouco a desejar. Skinner é um grande personagem e merecia um episódio melhor trabalhado, pois falha na forma como é conduzido, mas consegue construir uma cena final com um bom e bem escrito diálogo entre os protagonistas.
A temporada revela-se bem melhor que a anterior e ainda temos mais 3 até ela acabar. Não sabemos que futuro nos aguarda, fãs de Arquivo X, só nos resta sonhar com um episódio final melhor que o último da nona temporada.

7. Rm9sbG93ZXJz (nota 3 de 5)

O título do episódio é escrito no sistema Base64, que corrijam-me os melhores informados, são geralmente usados quando há a necessidade de codificar informações binárias que precisam ser armazenadas e transferidas e permaneçam inalterados. Procurei um site que faz a transcodificação e descobri que “Rm9sbG93ZXJz” significa “Followers” (seguidores).
O episódio já pode entrar na lista dos mais “incomuns” de Arquivo X, pois não te dá praticamente nenhum background de porque a história começa naquela situação e não se preocupa em explicar o que está acontecendo.
(Foto: FOX)

Pela segunda vez na temporada, assim como em This, a trama envolve as novas tecnologias e o mote é “o que nós ensinamos para nossas inteligências artificiais”, que tipo de monstro estamos criando…
Os agentes experimentam todos os assustadores transtornos que a indiferença tecnológica pode nos oferecer, desde um pedido em um restaurante que é servido errado, até o incômodo de sentir-se extremamente vigiado em todos seus passos, passando por carros pilotados sem motoristas que andam em alta velocidade.
O episódio é quase todo mudo, com pouquíssimos diálogos, o que pode ser entendido como uma sacada de ironia para os dias de hoje, mas o que torna-o um pouco sacal e de pouco ritmo. Mas o incômodo da narrativa e o humor de algumas cenas nos leva até a cena final e descobrimos o porquê de Mulder e Scully serem o melhor casal da tv americana, numa simples troca de olhares ou toque de mãos.

8. Familiar (nota 4 de 5)

“Familiar” destaca-se na temporada como um excelente triller. A primeira impressão que temos quando vemos o riso do mascarado Mr. Chuckleteeth na floresta é que talvez estejamos diante de uma releitura de Jogos Mortais, ou de mais um assassino mascarado que conhecemos bem de filmes como Sexta-Feira 13. Ainda bem que as primeiras impressões podem estar completamente enganadas...

O título do episódio cai bem, pois “Familiar” nos leva a uma história que pode facilmente ser comparado aos clássicos “monstros da semana” de Arquivo X. É um típico episódio da série que não requer conhecimento prévio sobre os personagens e sua mitologia, mas que pode ser apresentado a qualquer novo espectador e ele provará o gostinho e poderá entender porque Arquivo X não são apenas "homenzinhos verdes" e teorias da conspiração. Ponto alto!


"Familiar" nos leva para uma intricada confusão que envolve problemas familiares, injustiças em cidades pequenas, folclores locais e toda a selvageria e paranoia que uma caça às bruxas nos dias de hoje pode desencadear.

9. Nothing lasts Forever (nota 3.5 de 5)


Arquivo X sempre teve aquele tipo de episódio onde encontramos seitas estranhas fazendo coisas bizarras. Nothing Lasts Forever é um deles. O episódio procura incomodar, tanto pelas cenas nojentas quanto pela própria natureza dos personagens, que parecem uma versão macabra de um programa de matinê da TV setentista norte-americana.



Questionamos, como é comum em Arquivo X, os limites da ciência em um episódio cheio de cenas religiosas, no melhor estilo que já estamos acostumados a presenciar ao lado da agente Scully.




Infelizmente, o penúltimo episódio desta temporada tenta equilibrar uma história de clima freak ao tempo que procura desenvolver o relacionamento dos protagonistas e acaba se atrapalhando um pouco, onde uma parte da história não dialoga com a outra. Enquanto os agentes do FBI tentam resolver seu crime da semana, a série precisa arrumar a casa para o season finale no episódio seguinte e temos um episódio com dois pesos e duas medidas, dois pedaços que não formam um todo e, de novo, somos forçados a nos agarrar à simpatia dos atores e no mistério que o fim da temporada nos trará.



10. My Struggle IV (nota 2,5 de 5)


O último episódio nos chega e deixa muitas dúvidas. A principal delas é saber se a série realmente vai ter uma 12ª temporada ou se tivemos um series finale com uma reticência maior do que normalmente estamos acostumados em Arquivo X.

Chris Carter escreve e dirige o décimo episódio que consegue ser um pouco melhor que o primeiro desta temporada. O episódio tem crateras no roteiro capaz de deixar qualquer fã à beira de um precipício. Rápido e insensível, este final nos faz querer rever a nona temporada e entender que, enfim, aquilo não foi tão ruim assim.

De novo, Chris Carter, já reconhecidamente um novo George Lucas que odiamos amar, perdeu, pela terceira vez, a chance de construir um final digno para os personagens. Não falo de um final que agrade todos os fãs, falo apenas de um final de respeite os personagens que ele criou.


Se você ainda não viu, informo que, a partir de agora, teremos os SPOILLERS.

Primeiro você tem apenas 10 episódios onde o foco é saber o que aconteceu com o filho da Scully, o William, e ele aparece em apenas 2. Apesar de ser um bom personagem, afinal, Carter sabe criar bons personagens, a temporada deveria ter se focado mais nele, mostrando  melhor sua vida ao invés de apenas um resumão sobre sua adolescência traumática nas cenas antes da abertura de My Struggle IV.

A relação de distância entre William e Scully é ótima, afinal, ele nunca se relacionou com ela de fato. O inverso não é verdade. Scully gestou, criou nos primeiros meses, amamentou, sentiu a dor de ter de se separar do bebê além de toda a distância desses longos 17 anos de separação. É ridícula a cena em que ela diz para o Mulder que ela não é a mãe e ele não é o pai da criança, que ele é apenas um “experimento”. E que agora, milagrosamente (de novo) ela terá um novo filho e isso acalenta os dois, como se um filho substituísse o outro. Isso é cuspir na cara dos fãs e no sentimento de maternidade. É assim que vejo.


Todos amamos o Canceroso, mas sabemos que ele nem deveria estar nestas duas últimas temporadas. O homem sobreviveu a dois mísseis lançado por um helicóptero. Não me surpreenderia se ele voltasse numa possível 12ª temporada, afinal, levou apenas alguns tirinhos. Mas uma pergunta me incomoda: seu plano de destruir a humanidade se resumia a ele com um único frasquinho? Quer dizer, agora que ele morreu, o que aconteceu com seu plano? Com seu frasquinho?

A impressão que dá é que Carter pensou na forma mais fácil de terminar a série: vou matar todo mundo! Então, o canceroso morre, Monica Reyes morre de maneira ridícula sem o mínimo esforço de tentar justificar a mudança de sua personagem. Graças a deus não colocaram John Doggett nesta temporada! Prefiro a ausência à destruição da personagem. E o que foi aquilo que aconteceu com Skinner? Ele morreu debaixo daquele atropelamento? Se não tivermos uma 12ª temporada, já pensou o quanto é triste e insignificante o fim que ele teve? Algumas vezes você não pode deixar a reticências ou a interrogação.

E a morte de todos os membros do Sindicato de Colonização Alienígena? Uns com a cabeça explodindo, outros por um raivoso Mulder que invade sua base de uma maneira inexplicável (um tiro é ouvido do lado de fora, os seguranças vão atrás e o Mulder, que estava sozinho e que deve ter atirado, mas não estava lá fora, já estava dentro da base). Tudo muito fácil como varrer a sujeira para debaixo do tapete.

E a Scully ligando para aquele programa sensacionalista da internet para divulgar fake News? Isso é tão irracional e foge tanto da personagem! E sem necessidade! Inclusive, esse apresentador, o Tad O’Malley, que deveria ser importante nessa nova mitologia, foi completamente mal aproveitado em toda essa temporada. Tad era importante (não era como aqueles dois agentes mequetrefes cópia carbono dos protagonistas que surgiram na décima e que foram, graciosamente, silenciados nesse temporada)! Foi Tad quem, bem ou mal, reintroduziu Mulder e reiniciou a série! E ele não fez nada significativo nesses 10 últimos episódios. Ignorado, quando poderia ser um novo tipo de Garganta Profunda ou Agente X para o show.

No mais, aguardando ansioso para assistir uma 12ª temporada para continuar amando e odiando a série, ou um spin off de William, já que estamos esperando a ausência de Gillian Anderson que prometeu não voltar.



Nota média da temporada: 3,25 de 5