quinta-feira, 25 de maio de 2017

Por um cenário de quadrinhos (ou artes plásticas) no Piauí



(Este texto foi publicado, originalmente, na revista Acrobata, em 2015)

Quero falar sobre a produção de histórias em quadrinhos (HQs) no Piauí, sob a perspectiva de um cenário cultural. Quer dizer, isso existe por aqui? Evidente que há desenhistas, escritores, quadrinistas, por assim dizer. Existem também eventos, desde alguns focados mais nos animês e mangás, que acontecem quase todos os meses em Teresina, e em algumas cidades do interior, em Piripiri e Parnaíba, por exemplo, como também a Feira HQ, evento “anual” desde 1999 e que teve sua 13ª edição em 2013.
Talvez eu não seja a pessoa mais indicada para escrever isso, já que estou intimamente próximo do tema, entretanto, me considero intimado. Meu objetivo não é fazer um recorte ou um panorama totalizante. Afinal, é como uma lista cheia de subjetividades. Alguns nomes estão incluídos, outros esquecidos ou, simplesmente, não foram citados.
Pra começo de conversa, entendo que pensar em “cenário” envolve uma série de elementos interligados, e um deles é a sensação de pertencimento, de entender que esse cenário é como um grande grupo do qual fazemos parte. Acredito também que sentimentos como esse são estimulados, entre outras coisas, pela construção de uma história em comum. Se entendermos as pinturas rupestres como HQs, então temos uma longa pesquisa pra fazer, já que o Piauí possui alguns dos maiores sítios arqueológicos com esse tipo de inscrição no mundo. Se considerarmos que os quadrinhos modernos nasceram junto com o desenvolvimento da imprensa, com as charges no século XIX, falta-nos também uma pesquisa apurada sobre quem eram os ilustradores dos primeiros periódicos jornalísticos do Piauí. Houveram ilustradores no século XIX ou início do século XX? Eles fizeram quadrinhos? Isso ainda é uma incógnita pra mim e desconheço pesquisas desse gênero, mas certa vez fiz uma entrevista com Albert Piauhy, reconhecido cartunista à frete do Salão de Humor do Piauí por quase 30 anos, e ele disse-me que o “Arnaldo Albuquerque é o primeiro chargista da história piauiense. De verdade, entendeu? Porque eu entrei lá pra substituir o Arnaldo (...) Na verdade, o Arnaldo fez charge no jornal O Dia, mas o primeiro chargista constante fui eu mesmo. Fui eu que consolidei a charge no jornalismo piauiense. Só que naquela época eu era um cara muito inquieto e o mundo era grande e eu achei de ir embora pro Rio de Janeiro. Então eu fui chargista do Jornal O Dia várias vezes até chegar a vez do Jota A”.
Se estudarmos os jornais da década de 1970 pra cá encontraremos facilmente os nomes citados acima: Albert, Arnaldo, Jota A e outros, como Dodó Macedo, e, mais recentemente, Moisés ou Izânio. Eles ilustraram nossos jornais. Eventualmente, a piadinha do cartum vinha em arte sequencial: em quadrinhos. Alguma coisa se originou com essa geração, afinal entendemos Arnaldo Albuquerque como o autor da primeira revista em quadrinhos do Piauí, a Humor Sangrento, impressa em 1977.
Mas enfim, esses caras que ilustraram os impressos incentivaram a criação de um cenário no Piauí? Vou citar o Albert novamente, ele costuma dizer que por aqui uma geração não cria outra. Não parece existir essa linha contínua (que não precisa ser entendida como linear ou progressista) traçada por sobre essas gerações, interligando-as. Não generalizaria o pensamento do Albert para todas as artes, mas acho que os artistas plásticos no Piauí sofrem sim deste problema: Qual? O de uma geração não alicerçar-se em outra, ou desconstruir a anterior intencionalmente, possibilitando um mínimo que seja de entendimento de plano, de chão, de perspectiva, se é que me faço entender...  É quase crônico! E os quadrinistas não são alheios a isso. Para exemplificar melhor, vamos pensar a questão do humor gráfico. Imaginem que o Piauí possui 30 anos de experiência de um Salão de Humor bem sucedido (apesar das afirmações e evidências em contrário) e qual é a escola de humor que se criou no Piauí? Os cartunistas piauienses que estão nos jornais são os mesmos há quase 3 décadas. Qual a promessa do humor gráfico no Piauí? Quem substituiria Jota A, Moises ou Dino Alves (que ainda terão muitos anos de trabalho, queira Deus!) e que já tem, pelo menos 5 anos de experiência no mercado?
Agora entenda que, à exceção do salão de artes plásticas organizado pela fundação municipal de cultura de Teresina, e do próprio Salão de Humor do Piauí, não temos nenhum outro evento significativo envolvendo artes plásticas no estado. Talvez a Feira HQ, que teve 13 edições, mas a modéstia e o bom senso me impedem de citar. Só para reforçar essa ideia, fiz uma entrevista com Sônia Terra, que foi presidente da Fundação Cultural do Piauí por oito anos (de 2003 a 2010) e lhe perguntei sobre essa ausência de ações no âmbito das políticas culturais para as artes plásticas e ela disse que “se você for olhar, nós não temos sequer no Piauí um equipamento cultural digno pra receber grandes exposições: nós não temos uma galeria de artes plásticas. Pra quê mais grave do que isso? Hoje a galeria do Clube dos Diários é mínima e insuficiente. A gente não recebe aqui grandes exposições porque nós não temos espaço. Estou falando institucionalmente, governamentalmente. Isso significa que nós temos um déficit enorme com esse segmento, assim como teve com outros segmentos. E isso é um desafio. Nós passamos oito anos e não conseguimos, fizemos questões pontuais que não representam a demanda que está aí reprimida, nem o mínimo a gente conseguiu realmente atender. É fato. E não digo isso com alegria não, digo com muita tristeza”. Preciso dizer que, durante minha entrevista, Sônia Terra colocou, reiteradamente, que a ausência de políticas públicas mais eficientes para as artes plásticas é também reflexo de uma classe mal organizada, articulada ou participativa e citou o Salão do Livro do Piauí como um sucesso exatamente por se apresentar de forma oposta à maneira como a classe dos artistas plásticos se apresentam diante do poder público.
Para além disso, o que quero dizer é que somos carentes de espaços: o estado não realiza um salão de artes plásticas, não temos uma galeria e não temos uma escola pública para artes plásticas (a não ser que você queira cursar arte educação!). Isso, de certa forma, nos torna órfãos de muita coisa. É claro que, eventualmente, você descobre a obra de um Afrânio Pessoa ou Jô Oliveira e percebe que pessoas como eles fizeram gerações de artistas por aqui. Mas quem Arnaldo Albuquerque criou? Quem o Amaral, autor do premiado quadrinho Hipocampo, fez? Não falo de “fazer escola” ou instituir um estilo. Pergunto como classe. Se Arnaldo Albuquerque é pioneiro, quem são os outros quadrinista significativos que surgiram no cenário aberto por ele?
Não podemos ignorar que existe um problema de mercado. Músicos piauienses como Assis Bezerra eram também bons quadrinistas, mas que deixaram as pranchetas pela guitarra. Era necessário escolher uma arte ou mesmo tentar tirar um sustento dela. Então, o que parece existir, constantemente, são desenhistas insistentes que realizam seus quadrinhos no intervalo que o cotidiano lhes permite. Inclua nessa conta os inúmeros alunos dos cursos de Arte da UFPI, ou mesmo técnicos do IFPI, que queriam ser quadrinista e saem de lá professor de “educação artística” nos fundamentais do ensino público.
Para realizar este texto, fiz um roteiro de seis perguntas e enviei para 6 desenhistas que considero importantes na atual produção de quadrinhos local. Disse que estava escrevendo um artigo sobre o cenário de quadrinhos no Piauí, do qual eles devem fazer parte. Todos visualizaram as perguntas, cinco confirmaram que iriam enviar, um ignorou o aviso não comentando nada e apenas 2 enviaram as respostas dentro do prazo que pedi (8 dias). Não escrevo isso com tom de denúncia contra nenhum deles. Só achei um dado significativo para a discussão que estou fazendo. Afinal, os seis tinham consciência que eu os havia selecionado, mas será que eles se percebem como um grupo independentemente de suas ligações interpessoais? Eles poderiam se perceber como um recorte significativo de um cenário? E será que se importam com isso?
Os dois artistas que responderam foram Thiago Melo e Joniel Santos, ambos quadrinistas premiados na Feira HQ. Joniel, inclusive, já tem algumas coisas publicadas por aí. A primeira pergunta que fiz foi: “Existe um cenário de quadrinhos no Piauí? Existem referências de autores ou trabalhos locais?” Joniel disse: “Creio que existe gente querendo fazer quadrinhos e alguns fazendo. Espero que assim possa existir um cenário propriamente dito como em outros estados. E quanto a referências, sim, temos referências de autores locais que estão conseguindo visibilidade nacional e internacional.” Thiago Melo citou exemplos: “Sim, mas é muito tímido - infelizmente. Algumas referências locais podem ser destacadas, como os trabalhos do Leno Carvalho, do Caio Oliveira e do Bernardo Aurélio que, em cenário local, talvez sejam os artistas de maior destaque nessa área”. Os dois não são muito otimistas com relação ao “cenário” local, apesar de existir algumas pessoas que começam a aparecer como referências nacionais, ou mesmo internacionais.
Da minha parte, quais os quadrinistas profissionais que considero por aqui? Sendo otimista, citaria três: Leno Carvalho, Caio Oliveira e Will Walber Jr. Esses autores, de estilos completamente diferentes, treinados nas escolas de suas próprias subjetividades, moldados por suas leituras, vendem seu trabalho para o mercado nacional e internacional. Existem vários outros que fazem quadrinhos, claro, mas autores como esses três poderiam ser considerados referência para quaisquer quadrinista de primeira viagem que queiram tentar a sorte nesse mundo de artes sequenciais, entretanto, não são! Isso porque falta maior conhecimento sobre a obra desses artistas que conseguem algum destaque no cenário local ou nacional. Parte dessa falta é culpa pessoal de cada um, entretanto existe uma ausência maior que deveria cumprir esse papel divulgador, de contar nossa história e apresentar os exemplos, acima disso, de lhes representar. O Núcleo de Quadrinhos do Piauí (NQ) foi criado para isso, entretanto, eu seria ingênuo se acreditasse que o NQ cumpre com seus objetivos.
No começo do texto disse que eu não era a pessoa indicada para escrever este texto e um dos motivos é porque sou um dos sócios fundadores do NQ, presidente por 4 anos e conselheiro por mais 2 anos, além da minha luta nos outros 8 anos anteriores, quando o grupo atuava antes de sua regulamentação formal. O que posso dizer é que dos cerca de 30 sócios oficialmente registrados em ata e dos mais de 1000 membros do grupo virtual no facebook, o NQ resume-se a meia dúzia de pessoas, às vezes 9 ou 10 se considerarmos o que rege o estatuto, incluindo diretoria e conselho. Deste pequeno ciclo, um ou dois são quadrinistas. Para não me alongar em uma discussão que não é a proposta, o NQ é uma instituição aberta, sem fins lucrativos e disposta a trabalhar com todos que se apresentarem. Foi assim, com a ajuda de vários amigos e assistentes que fizemos 13 edições da Feira HQ e alguns projetos de publicação de quadrinhos, como a Revista Feira HQ nº 1, 2 e 3, reimpressão de 30 anos de Humor Sangrento, Foices e Facões, Cabeça de Cuia, O Imortal e Por dentro do Máscara de Ferro.
Para exemplificar melhor o papel do NQ, faço uso do que disse os artistas convidados. Para Joniel Santos “o Núcleo e a realização da Feira durante todos esses anos foi de importância fundamental pra o quadrinho no Piauí. A oportunidade dada aos iniciantes, como ocorreu comigo, a visibilidade dos trabalhos que são avaliados por profissionais e as premiações que sempre estimularam a produção no nosso estado e em outros. Sou suspeito pra falar da Feira HQ já que devo o início da minha carreira à exposição das minhas obras neste evento e pelos contatos que fiz através dela”. Thiago Melo afirmou que “para os quadrinistas locais, a Feira é um dos poucos espaços de visibilidade e troca de experiências no nosso Estado. Acredito que se a Feira um dia acabar, leva junto boa parte disto que se constitui como um ‘cenário local de quadrinhos’”.
Acredito que a opinião dos dois é bastante significativa, falando por si mesmas. Talvez, um ou outro dos quatro que não responderam minhas perguntas apresentasse opinião contrária. De fato, a Feira HQ ou o NQ não contribuíram de forma verdadeiramente efetiva para construir um cenário ou desenvolver um mercado de quadrinhos local, característica essa de vital importância quando se pensa em qualquer cenário cultural em qualquer região. Entretanto, pessimismos à parte,  NQ contribuiu para que esse cenário tivesse algum rosto, nome ou alguma história, e como já disse, esse é um dos elementos fundamentais para construirmos uma ideia de cenário.
Lembro-me de conversa que tive certa vez com Chagas Vale, grande músico e ator de teatro de bonecos. Sim! Ator de teatro de bonecos. Pois não são apenas os bonecos que encenam numa peça de mamulengo, também atua o dono da mão escondido por trás do palco. E o que estou dizendo aqui não é incoerente: lembro do Chagas porque ele disse para mim que os quadrinistas são como atores de teatro de boneco: o grande público sempre nos considera uma arte menor. Teatro de Boneco < Teatro. Quadrinhos < Artes plásticas (ou artes visuais). Cito isso, neste momento, para que você considere que, no Piauí, onde os grandes artistas plásticos de caras pinturas a óleo que ostentam salas e gabinetes não possuem, sequer, uma galeria digna, fruto, eventualmente, de mal organização e articulação de uma classe sem representatividades. Agora imagine que os quadrinistas fazem “apenas teatro de boneco” diante das grandes obras de arte e tente configurar o cenário de nossa expressão artística.

Obrigado.


quinta-feira, 11 de maio de 2017

A doce arte/vida de Felipe Portugal

Na verdade eu não conheço o Felipe Portugal o suficiente para escrever um texto com esse título, mas dane-se! Cá estou eu escrevendo e você está lendo, então funcionou!

Já faz um bom tempo que o Portugal lançou um gibi chamado Espiga e alguns pares de gente que se importaram ficaram curiosos para saber o que de "real" estava ali no meio daquelas páginas. Lembro que me identifiquei um pouco com aquele gibi porque certo tempo antes eu tinha feito meu "Por dentro do Máscara de Ferro" e, aparentemente, nossos protagonistas haviam encontrados uma ou outra curva parecida em suas histórias, apesar das semelhanças se resumirem a detalhes.

O fato é que Espiga foi bem elogiado quando saiu em 2015. Se procurar, o título aparece entre os melhores lançamentos do FIQ daquele ano, gente comparando a estética do seu trabalho com um tal de Asterios Polyp (de David Mazzucchelli. Não conhece? Devia conhecer). O gibi, entre outras coisas, é uma viagem pela rotina de um quadrinista sem inspiração no meio de uma série de problemas pessoais, daí os questionamentos "autobiográficos" sobre Espiga.

Se não me engano, pouco depois de Espiga, no começo de 2016, Portugal começou uma série de tirinhas chamada "O Eremita". Entre as questões abordadas estava, novamente, a metalinguagem do artista que tem dúvidas sobre seu ofício além de assuntos mais importantes, como o da tirinha abaixo:


Não é apenas sobre ser quadrinista. É sobre "ser" alguma coisa.

O que me motivou a escrever esse texto é que Portugal, nos últimos meses, parece ter encontrado a veia certa, de onde tem tirado suas últimas tiras. Vejam essas que eu selecionei:






Não quero aqui fazer elucubrações sobre seus novos textos/tirinhas. Quero apenas dizer que isso é bom e quero que você conheça! Siga-o no instagram ou em seu face pessoal
ou na página quadrinhos insones, que divide com outro cara super legal, chamado Diego Sanchez.

Por hoje é só, pessoal.