HOLLANDA.
Heloísa Buarque de. Impressões de Viagem: CPC, Vanguarda e
desbunde. 1960/1970. Rio de Janeiro: Aeroplano. 2004.
Bernardo
Aurélio de Andrade Oliveira
Heloísa Buarque de Hollanda é uma mulher completamente imersa na
vida acadêmica que leva, onde os temas das pesquisas que desenvolve
misturam-se com sua própria vida. Característica essa, inclusive,
denunciada abertamente por ela mesma nas primeiras páginas de sua
tese, Impressões de Viagem, quando diz que “num certo
sentido, a investigação desse debate é a investigação dos
fundamentos do meu próprio percurso intelectual” (2004, pg. 15).
Percurso que ainda estava se desenhando, pois Heloísa tinha a
consciência de que estava tratando de um assunto contemporâneo, que
ainda estava em processo, era uma análise de algo que estava
acontecendo, ainda no calor dos anos 70.
Impressões de uma Viagem, a tese de doutorado de Heloísa,
foi publicado originalmente em 1979 e trata-se de um estudo em torno
da produção cultural brasileira tendo como recorte temporal desde o
governo JK até à implantação do AI 5, durante a ditadura militar.
Por conta disso, Heloísa, na introdução do livro escrita ainda em
dezembro de 78, assume tratar-se de um risco assumido desenvolver um
trabalho de análise de um período tão presente e ainda tão
indeterminado em sua vida e na história política do Brasil. Ela
afirmou “ainda que isso promova dificuldades no sentido da falta de
uma perspectiva histórica mais definida, ou mesmo quanto à
delimitação do objeto de análise, traz, em contrapartida, a
possibilidade tentadora de uma atuação crítica no próprio
desenrolar desse processo” (pg.14). Ela tinha plena consciência de
que ainda estava no meio de um processo político que, de certa
forma, havia se iniciado em 1964, com o golpe militar, e que
pretendia desenvolver seus argumentos ao longo de um momento
histórico que não tinha ainda um recorte final definido.
É interessante colocar que em Breve nota da autora sobre essa
edição, publicada em 2004,
Heloísa conta, com uma certa ironia, que seu livro, na época da
primeira edição, “sofreu os cortes e as revisões de praxe”,
entretanto “esta quarta edição não traz nenhum tipo de
alteração, nem mesmo as correções que claramente se faziam
necessárias. Achei importante manter a perspectiva fortemente
conjuntural que dita o tom e sua atualidade enquanto testemunho da
época” (pg. 08). Ou seja, o livro não teve nenhuma alteração
em seu conteúdo comparado com sua edição original, publicada 25
anos antes, nos apresentando um verdadeiro relato do calor do momento
dos anos de chumbo brasileiro. Isso torna-se mais interessante ainda
para a prática da história nos dias de hoje quando damos cada vez
mais valor às características narrativas de um historiador.
Heloísa, no final de sua introdução, escrita em 1978, diz que seu
texto é mais próximo de um relato narrativo, “a opção pela
'distensão' da forma de relato, mais própria ao narrador do que ao
analista” (pg.15). Quer dizer, existe mais uma narrativa do
período, proporcionada pela pesquisa de levantamento de campo, bem
como pela proximidade com os objetos de pesquisa, do que uma análise
estritamente histórica conforme as exigências que a prática
historiográfica dita. A respeito disso, o texto de Zuenir Ventura,
presente nas orelhas do livro desde a segunda edição, nos informa
que Heloísa “vale principalmente pela audácia do método, que faz
a autora misturar-se com o objeto que analisa, a ponto de abrir o
primeiro capítulo com um indecoroso 'Eu me lembro...' e terminar o
último com um devaneio: 'Fico pensando'...”. A autora, quando
coloca-se enquanto narradora, em primeira pessoa, presente e atuante
na pesquisa, assume um posicionamento ainda problemático e muito
questionável para um historiador de nos dias hoje diante de sua
pesquisa: o quanto devemos manter distância de nossos objetos de
pesquisa? O quanto devemos ser objetivos e procurarmos nos ausentar
enquanto o autor do texto durante nossa escrita? Heloísa sabia
dessas questões, mas não se deixou inibir durante a elaboração de
Impressões de Viagem.
Francisco Alvim, que faz o prefácio na primeira edição, já nos
dizia que Heloísa fala “com a inteligência das coisas bem
vividas, do tempo em que viveu e vive. E, nem por isso, sua percepção
é limitadoramente realista” (pg.10), reforçando a ideia de que a
narrativa da Heloísa representa bem o momento que vivia, pois, para
Francisco, o propósito da autora é “recuperar a narração
testemunha, voz que quase não se ouve mais nos dias de hoje (por
obra do medo e dos tiranos)” (pg. 11). Podemos passar a entender,
então, a obra de Heloísa como uma narrativa testemunhal dos fatos
que, mesmo com a liberdade estilística do “eu” no texto, não
diminui sua prática e nem sua significação na representação
histórica do momento retratado, pois sua postura é sempre embasada
em referências, citações e rastros da história, procurando
dialogar com os discursos do momento, seja os dos poetas analisados,
seja os de teóricos como Theodor Adorno ou Walter Benjamim. Mas
passemos ao que trata, de fato, o livro.
O título completo é Impressões de Viagem: CPC, Vanguarda e
desbunde. 1960/1970. As impressões no título nos remete à
característica do relato testemunhal de Heloísa que já abordamos
aqui. O recorte temporal do livro também está ali, claro. A pista
que nos resta perceber ainda no título são os outros três
elementos presentes: CPC, vanguarda e desbunde que
representam, de fato os três momentos da história cultural
analisados pela autora e que também dividem o livro em três
capítulos principais, respectivamente: A participação engajada
no calor dos anos 60; O susto tropicalista na virada da década; O
espanto com a biotônica vitalidade dos 70. Vele lembrar que boa
parte do volume que compõe o livro, em verdade a metade dele, são
anexos importantes para compreendermos os objetos analisados pela
autora, como por exemplo O anteprojeto do manifesto do Centro
Popular de Cultura, escrito em março de 1962. Manifesto esse com
as diretrizes culturais que os agentes revolucionários do CPC
deveriam absorver no processo de criação de sua arte engajada
militarmente.
“Em nosso país e em nossa época, fora da arte política não há
arte popular” (pg.21) cita Heloísa uma frase do manifesto do CPC.
Naqueles anos pré-golpe de 64, a força esquerdista era muito
presente, a esquerda cada vez mais próxima de chegar ao poder e os
protagonistas do CPC afirmavam que faziam uma arte popular
revolucionária para lutar contra um inimigo muito claro.
Influenciados por ideais marxistas, os cepecistas defendiam
que só poderia haver três tipos de artistas: os conformados
(alienados), os inconformados (mas não engajados) ou os
representantes do exército do front cultural. Para
representar esse momento, a autora cita poemas de pessoas como Oscar
Niemeyer, que critica a posição dos arquitetos que apenas projetam
mansões para os ricos e conclama os representantes de sua classe
para trabalhar para o povo, “ponha a prancheta de lado e venha
colaborar. O pobre cansou da fome que o dólar vem aumentar. E vai
sair pra luta que Cuba soube ensinar” (NIEMEYER apud HOLLANDA. pg.
29).
Arnaldo Jabor também é lembrado por Heloísa, em um texto onde ele
faz uma reavaliação do que era o movimento cepecista no qual
participou: “A gente pensava que a fome era um caso de falta de
informação: se o povo fosse bem informado, aconteceria a revolução”
(JABOR apud HOLLANDA. pg. 30). Os cepecistas acreditavam nesse poder
transformador, numa arte coletiva, do povo e para o povo. Mais tarde,
Jabor diria que o que ficou registrado em sua memória desse
movimento todo, da importância que teve “foi esta inédita,
incrível, infantil, generosa, gentilmente ridícula crença nos
poderes transformadores da arte. Nunca se acreditou tanto na arte
como força política, no mundo! (…) Nessa doideira paternalista,
nesta tentativa de enfiar Engels por dentro da goela do Pavão
Misterioso, se redescobriu (ainda muito bobamente) nossa paisagem
social” (pg. 33). Heloísa parece concordar com Jabor com relação
a essas críticas, em certos momentos ela deixa transparecer que a
poesia cepecista é inferior e um retrocesso à qualidade literária
atingida pela geração pós-45 (pag.30). A autora afirma que não é
o discurso da obra que importa, mas a função e a técnica literária
que dá “acesso à análise dos produtos literários em seus
contextos e é através dele que se poderá dizer a função política
dessa produção” (pg.32). Diz ainda que a tentativa dos CPCs de
criar uma arte clara, de fácil comunicação com o povo, é inútil,
pois a “doutrina que se defende exige a linguagem do intelectual”
que “travestida em povo trai-se pelos signos do exagero e pela
regressão estilizada a formas de expressão provinciais ou arcaicas”
(ADORNO apud HOLLANDA, pg. 23 – 24). Ou seja, o discurso do
manifesto do CPC seria falho, pois defende a mentira de que o
discurso ali implementado pela arte seria do povo, quando na verdade
trata-se de um discurso de uma elite intelectual.
A autora ainda afirma que os cepecistas produziram “uma poesia
metaforicamente pobre, codificada e esquemática” (pg. 30).
Entretanto, mesmo com essas críticas, Heloísa vai tratar da arte de
vanguarda, produzida desde a década de 50 com os concretistas, que
buscavam a simplicidade do texto e a valorização da forma e do som
no poema, e vai traçar um importante paralelo com o movimento dos
CPCs. Tanto a poesia concretista, quanto as publicações dos Violões
de Rua (revistas vinculada à militância cepecista em 1962), e em
seguida o poema-processo (a partir de 1967), seriam todas linguagens
de vanguarda. Segunda ela, hoje lhe “parece que talvez tenha sido
exatamente do casamento entre CPC e as vanguardas, que sugere uma
aparente incompatibilidade de gênios, que a produção cultural
brasileira pôde aprofundar suas questões mais graves” (pg. 42),
porque a maioria dos vanguardistas, apesar de não serem militantes
engajados no front da batalha cultural do período militar,
também tinham um posicionamento revolucionário, muitas vezes
ligados aos movimentos de esquerda e que mantinham um discurso de
militante e, inclusive, sofriam repressão policial.
Para Heloísa, esses movimentos de vanguarda buscavam uma certa
sincronização com os elementos fundantes da modernidade, desde a
Semana de Arte de 1922, e a maioria de seus representantes possuíam
uma certa tendência esquerdizante. Entretanto, somente no final da
década de 60, com o surgimento dos tropicalistas, um grupo de
pessoas desconfiados “dos mitos nacionalistas e do discurso
militante do populismo, percebendo os impasses do processo cultural
brasileiro e recebendo informações dos movimentos culturais e
políticos da juventude que explodiam nos EUA e na Europa – os
hippies, o cinema de Godard, os Beatles” (pg. 61), foi que
essas características da semana de '22 se concretizaram numa
ideologia de irreverência e de busca de uma identidade popular,
legitimamente moderna e brasileira, mas que recusava o discurso
populista, desconfiava dos projetos de tomada de poder e valorizava a
ocupação dos canais massa. Na Tropicália não há proposta, nem
promessa, mas inclusive uma crítica à intelligentzia de
esquerda (pg. 63). Por conta dessa características coloridas,
desmilitarizada, os tropicalistas foram inicialmente negados por
todos os lados. “Quando estourou o tropicalismo os estudantes de
esquerda reagiram contra a gente e o poder também. Eu rebolava e os
pais de família chiavam” (VELOSO apud HOLLANDA, pg. 63), afirmou
Caetano Veloso. Eram homens de cabelos longos, roupas coloridas e
atitudes inesperadas que passam a ter uma dimensão de recusa aos
padrões de bom comportamento da época (pg.63).
O livro de Heloísa estende-se até o movimento do desbunde,
caracterizado pela entrada do pensamento de contracultura no Brasil,
com a divulgação da literatura beat, do rock, do pensamento
underground, através de fanzines e mimeógrafos, e até mesmo
do desenvolvimento da psicanálise. Para esse momento, praticamente
contemporâneo à tropicália, “não existe a possibilidade de uma
revolução ou transformação sociais sem que haja uma revolução
ou transformação individuais” (pg. 74). Começa a se desenvolver
a linha do pensamento das particularidades pensadas a partir das
necessidades do indivíduo e de suas representações em grupos de
minorias: os homossexuais, os negros... Para esse pessoal, até mesmo
ser marxista seria algo “careta”.
Um dos nomes mais importantes desse movimento que é colocado por
Heloísa foi o de Torquato Neto. No período de sua morte, com a
publicação de Últimos dias de Paupéria, seus escritos
teriam se tornado uma espécie de bíblia pra toda uma geração de
seguidores (pg 78).
Impressões de Viagem consolida-se então como um grande relato, mas
também como uma muito eficiente análise de seu momento, sempre
indispensável para quem estudo as questões político-culturais dos
ano 60 e 70.