sexta-feira, 28 de outubro de 2016

O cinema de Dalson Carvalho

 Por Bernardo Aurélio

Dalson Carvalho, em 2007, quando dirigia o filme Corpos Humanos. Foto: Bernardo Aurélio.

Corria o final da década de 1990, acho que em 1998, dois amigos brincalhões e fãs de cinema tiveram uma enorme câmera filmadora nas mãos. Dessas que você posiciona no ombro como se fosse uma bazuca e municia com uma VHS. Esses dois éramos Dalson Carvalho e eu. Tínhamos assistido ao Bruxa de Blair há pouco tempo e pensamos em fazer uma sátira, filmando-o durante as férias em nossa cidade natal, Piripiri. Chamamos ao tosco filme de “Babante”. Hoje essa fita encontra-se meio que, intencionalmente, perdida. Não é algo do qual nos orgulhamos. Mas é claro que cada um de nós seguiu o caminho de sua arte preferida: eu segui pelos quadrinhos e Dalson continuou pelo cinema (dentre outras).

Enquanto eu começava a escrever minhas histórias em quadrinhos, Dalson seguiu produzindo vídeos e tudo era uma grande brincadeira. Por vezes, haviam intercessões, porque eu sempre namorei com cinema, e contribui vez ou outra, seja em vídeos cômicos do Dalson, como o famigerado Potó e Potó 2 (outras sátiras ao terror), seja em pequenos impressos, o Fancine, onde escrevíamos sobre aqueles filmes dos quais gostávamos.

As coisas começaram a se definir quando Dalson filmou “Sem Sentir”. Foi sua primeira experiência com uma temática e proposta séria, levada, pela primeira vez também, a uma ilha de edição (antes, era feita em casa com dois videocassetes, algo impensável para as mentes digitais dos dias de hoje). Repleto de cortes bruscos e flerte com a música eletrônica. Crítica social, a hipocrisia e a cidade aparecem na tela. Mas era só o começo. Não muito depois disso, Dalson decidiu partir para estudar cinema na Academia Internacional de Cinema – AIC, que concluiu em São Paulo, mas teve suas primeiras aulas em Curitiba, onde havia uma sede da escola.

A jornada do jovem apaixonado em busca de aulas de cinema, por si só, daria um filme inspirador: com muita coragem, o rapaz partiu sem nenhuma segurança de como se manteria naquelas distantes cidades, partiu com esperança de estudar e trabalhar na própria AIC para custear sua vida e estudo naquelas cidades desconhecidas. Essa coragem sempre motivou Dalson e foi tudo de que precisou para conquistar o que queria. Durante todo o curso na AIC, trabalhou na instituição e chegou a passar algumas noites dormindo na própria escola.

A Conquista do Espaço

De sua experiência na AIC, dois filmes destacam-se: 1) o curta A Conquista do Espaço, escrito e dirigido por ele. Coincidentemente, eu estava visitando-o em Sampa quando as filmagens começaram e vi toda a pré-produção do dia anterior ao início das gravações. Até registrei algumas fotos e auxiliei o staff (fui junto com outro amigo até cidade vizinha pegar parte do figurino além de buscar uma garrafa de sangue cênico que havia ficado esquecido na geladeira do apartamento. Kkk. No cinema, há todo tipo de serviço!). O filme foi praticamente todo feito em estúdio, o que proporciona um grande controle da iluminação, possuía atores profissionais e alunos da própria AIC e era uma grande ficção fantástica com um clima meio noir-cyber-punk e revelava a preocupação do diretor com o tema do controle da humanidade, encaixotados e sufocados. 


Marisol Ribeiro, capa do filme Depois de Nós

2) Depois de Nós foi seu primeiro longa-metragem e, pode-se dizer, o teste final sobre o que havia aprendido na AIC, pois foi rodado logo após sua graduação na escola, junto com pequena equipe de colegas e amigos mais próximos que formou ao longo daquele anos. Decidiu pelo preto e branco, estética indie na música e figurino além de grandes tomadas de câmera parada. Aprendeu que a câmera parada aproxima o cinema da pintura e permite ao expectador uma relação mais íntima com o filme, pois ele teria mais poder de decisão sobre para onde olhar, evitando ao máximo sua submissão aos cortes e edição do cinema. Dalson é dono do filme, quer dizer, é autor do roteiro, da direção, da câmera e da edição. Contou com a ajuda de amigos atuando e inclusive de atores com grande experiência no teatro e na televisão (como Marisol Ribeiro, de novelas como América e Os 10 Mandamentos, e Eduardo Semerjian, que interpretou André Matarazzo na série Maysa, da Globo). O filme fala sobre a monotonia da vida na cidade grande, da relação entre amigos e família e sobre como aprender a se divertir.


Elenco principal do filme Depois de Nós

A conclusão dos estudos e o eventual retorno ao Piauí poderia ser problemático. E foi sim. O ritmo aprendido na graduação, as equipes de produção e a escala de produção de um filme com a qual aprendeu a trabalhar na academia é uma distante realidade do que encontraria no mercado de trabalha até mesmo para uma metrópole como São Paulo, imagine em Teresina. Infelizmente, o caminho não poderia ser outro, ou corria para produzir de forma independente ou trabalhava com programas de TV e publicidade. E foi tudo isso que ele fez. Desde filmes para programas de TV, como do Detran para canais público, até campanhas publicitárias e de políticos, Dalson submeteu-se. Mas não ficou por isso. Nessa altura, eu me intrometi um pouco.

Talita do Monte atuando no filme Corpos Humanos. Foto de Bernardo Aurélio

Naquele meado dos anos 2000 tanto eu quanto Dalson fomos sócios fundadores da Academia Brasileira de Documentaristas -Piauí (ABD-PI) e aquela instituição havia ganho espaço e certo recursos. Por conta disso, pude produzir, juntamente com a ABD-PI e com Dalson, um curso de cinema. Foram duas turmas e dezenas de alunos.  Uma proposta inédita no Piauí, com quase um semestre de duração e aulas práticas que produziram talvez uma dúzia ou mais de curtas dos alunos. E o produto final dos cursos teve dois filmes especiais, os quais foram dirigidos por Dalson Carvalho, que teve nos alunos sua equipe de produção: o primeiro foi Corpos Humanos, o qual tenho orgulho de ser o que poderíamos chamar de produtor executivo (arrumei locação, cenário, alimentação, transporte etc) e fiz até umas fotos still (esses registros dos bastidores). Aqui, Dalson sobressaiu-se em sua direção de atores, exigindo deles entrega total, inclusive para cenas de nus frontais femininos e masculinos, imagine! Um tabu! O filme versava novamente sobre a relação entre as pessoas, seus desejos mais íntimos e o que escondem do próximo.

Dalson filmando cena final do filme Corpos Humanos. O filme foi realizado dentro das dependências da antiga FUNDAC, hoje SECULT. Foto de Bernardo Aurélio.

Foto que foi pra capa do DVD do filme corpos humanos. Foto de Bernardo Aurélio.

O segundo, mais para um média-metragem, foi o Quem São os Mestres?, também uma crítica sobre o controle que sofremos, sobre o consumismo e o fato de parecermos estrangeiros em nosso próprio mundo. O filme namora com poesia, com a intuição dos atores, com o gesto natural daqueles que se permitiram filmar e do próprio movimento da câmera. Este deve ser, de fato, o primeiro filme que Dalson leva pra rua, com um grande número de atores, inclusive alguns experientes do teatro piauiense, como Lorena Campelo, permitindo-se enamorar-se pela primeira vez com o cinema local. Nesse filme, novamente aborda o nu em tela, sendo ele próprio protagonista de uma cena inesperada: desesperado e correndo nu, pelos corredores de um supermercado.

 Dalson filmando Quem São os Mestres. Ao fundo, Alan Sampaio e Lorena Campelo. Foto de Bernardo Aurélio.
Filmando Kilito em frente à Igreja São Benedito. Foto de Bernardo Aurélio.

Nesse período também começam a aparecer em seus canais de vídeo, seja no Youtube, seja no vimeo, alguns curtas íntimos, que começou a fazer sozinho. Pequenos recortes de ângulos, sentimentos, de poesia. Alguns, me confessou certa vez, que nunca tornou público. São seus e só seus. Outros, vira e mexe, disponibilizados na internet, ou excluídos da rede, numa demonstração clara de sua difícil relação com o propósito da sua arte. Um desses filmes, que produziu apenas com a ajuda de outro amigo, chamado “TV Comer” (acho q era isso, pois trata-se de um desses que talvez tenha deletado, erroneamente, da web). É um curta que, de novo, dialoga sobre o controle que sofremos, tema realmente recorrente no artista, onde ele próprio atua e transa com uma televisão. Isso mesmo! Transa com uma televisão, sem falar da participação de um guarda-chuva nesse estranho ménage à trois.

Houve um tempo em que tentamos fazer novamente algo juntos, um filme chamado O Messias e o Narrador. Na verdade, tratava-se de uma pretensa adaptação de um romance meu, que teve o texto adaptado pelo próprio Dalson. O roteiro ficou muito bacana, com alguns pontos melhor que o original (confesso!). Corremos atrás, procuramos editais utilizando a ABD-PI como proponente, chegamos a falar com Dirceu Andrade e Amaury Jucá, que leram o texto e que estavam dispostos a protagonizar o filme. Teria sido muito bom! Infelizmente, o máximo que conseguimos foi fazer uma reunião com os atores-humoristas e registrar numa foto.

Dirceu, Amauri, Bernardo e Dalson conversando sobre o Messias e o Narrador. Eles confessaram adorar a ideia de fazer um filme conosco.

Como Teresina não foi um lugar muito promissor para seguir criando, decidiu, novamente, partir em busca de outras cidades, repetindo o mal que assola muitos artistas locais que não encontram o que precisam na “provinciana” Teresina. Escolheu o Rio de Janeiro. Lá produziu inúmeras peças publicitárias de grandes empresas (como a de Eike Batista e Petrobrás) ao tempo que se apaixonou perdidamente pelo Rio, mais precisamente pelo aterro do Flamengo, onde realizou inúmeras capturas que ilustraram várias de suas poesias. Poesias que, por sinal, fazem parte de toda sua arte.

Permitam um parênteses aqui: Nesse período que morou no Rio de Janeiro, Dalson editou o filme Flor de Abril, do cineasta Cícero Filho, famoso no Piauí e Maranhão pela comédia Ai Que vida!. Confesso que não vi Flor de Abril, mas acredito que a edição nele deve ser um ponto muito significativo.

Atualmente, Dalson desenvolve aquela ideia das vídeo-poesias e, para isso, namora cada vez mais acaloradamente com a música, e a relação de Dalson com essa arte talvez tenha começado a se fortalecer quando iniciou a filmagem de clipes para bandas locais. Talvez a primeira tenha sido a música Bota Fé, da Gramophone. Um detalhe, que a modéstia não me impede de calar (porque tenho grande admiração pela arte do cara), é que novamente eu estava ali. Na época, Dalson mantinha a parceria com a ABD-PI, de onde tinha à disposição todo o equipamento para gravar e, assim como em Corpos Humanos, eu ajudei a produzir o clipe, conseguindo inclusive a locação, no 22º andar de um prédio em construção (o que é quase impossível em Sampa, segundo Dalson me confessou na ocasião), cedendo meu quarto para as primeiras cenas além de conseguir apoio da PM para nos dar segurança durante as filmagens à noite, nas ruas escuras de Teresina, carregando equipamento tão caro!

Outra música que despertou tanto sua atenção para com o Super-8 piauiense quanto a atenção do público em geral para sua arte foi a música I Feel so Sad This Evening, interpretada pela banda Valeduaté. Acontece que a letra é do Torquato Neto e para realizar o filme, como que em uma homenagem, Dalson simulou a linguagem do Super-8 em uma belíssima montagem.

Dalson, em verdade, é um poeta, que escreve roteiros para cinema, que filma, que constrói longos romances ainda inéditos (na verdade, um deles está disponível à vendo no site amazon. Sobre a Juventude, aqui) e que agora aprende a compor música. A verdade é que o verdadeiro cineasta precisa de sensibilidade para tudo isso, pois é de sua natureza enamorar-se dessas narrativas, dessas linguagens, e é o que faz com paixão, mesmo quando precisa filmar uma campanha publicitária de biquínis ou de uma empresa de energia, como a Endesa Brasil, inclusive foi para uma trabalho encomendado por essa última que Dalson ganhou prata em Cannes, por sua edição no filme Pandeiro (veja o filme aqui ), em 2013. Sim! Cannes!


Neste dia 5 de novembro, às 17h, no Clube dos Diários, vá assistir a uma mostra da produção do artista, selecionada por ele mesmo. Algo inédito, que deveria ter feito há muito tempo. Aproveite!

Aqui está o link para o canal dele no youtube.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Nova hq do Máscara de Ferro


Se você não conhecia, o Máscara é um personagem meu e já existe há um bom tempo.
Infelizmente não sou muito produtivo e sai uma nova a cada eternidade.
Essa é uma Hq dele lutando novamente contra zumbis. Não viu o primeiro encontro dele contra esses monstros sentimentais? Leia no link, é a edição 2.
Para baixar as imagens da HQ abaixo (caso ler aqui seja um problema), clique no link e faça um download dos arquivos em alta resolução aqui
Caso tenha gostado e não seja um incômodo, clique nos anúncios do meu blog e me dê alguns centavos de dólar. Obg! 














terça-feira, 10 de maio de 2016

Nise da Silveira O coração da loucura



Recentemente assisti ao Nise: O Coração da Loucura, com Glória Pires.

Confesso que não seria minha primeira opção se fosse ao cinema hoje. Principalmente porque estão em cartaz filmes como Capitão América Guerra Civil e Batman v Superman, e eu gosto muito do gênero, o que não deve ser nenhuma surpresa. Também está em cartaz Mogli, que chamou muito minha atenção desde o primeiro trailer. Mas eu já tinha visto esses três.

Entretanto, existe um outro filme nacional em cartaz, chamado Em nome da Lei, que tem a Paola Oliveira. Ok! Julguem-me! A Paola chama mais minha atenção que a Glória, mas, para minha sorte, minha mulher queria ver Nise.

Existe o fato de minha esposa ser psicóloga, o que a coloca, de certa forma, como público alvo desta "película" (ainda se usa esse termo?). Nise trabalhou no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II, no Engenho de Dentro, Rio De Janeiro, a partir de 1944, que é quando começa o filme.

Diferente de minha mulher, eu era completamente alheio à história dessa personagem, então ela me adiantou que se tratava de alguém que foi contra as torturas e tratamentos típicos das clínicas psiquiátricas, como eletrochoque e lobotomia. Pra ser sincero, eu não estava muito empolgado para ver um drama denso e pesado sobre manicômios e tudo, como o ótimo Bicho de Sete Cabeças, mas minha esposa viu todos os filmes de super-herói que estrearam nos últimos anos junto comigo, então seria bom assistir com ela um sobre essa "super-heroína" real.

Entretanto, havia mais um detalhe importante na sinopse do filme que minha mulher havia me contato: Nise trabalhou com arte para tratar seus clientes. E é bem aqui que a coisa toda funciona.

Glória Pires começa como uma mulher meio dura, a primeira cena é quase militar, rígida em seus "bom dia, fulana", mas tudo se transforma com a atenção reforçada que Nise dá tanto aos seus clientes (ela se recusa a chamar de pacientes) quanto aos seus colegas de profissão.

Então, o longa metragem mostra uma ou outra cena de tortura, apenas porque era necessário para entendermos contra o que Nise lutava e ao descobrir a arte como terapia ocupacional, aquele manicômio e todo o filme ganham um leve frescor de brisa à beira de um rio, sob enormes árvores verdes entrecortado pela luz do sol. Sim! o filme possui cenas delicadas e sensíveis e nos dá grande esperança no sentido humano de lidar com as pessoas.

Recomendo muito! Todo psicólogo, terapeuta, pedagogo e artista deve ver! Não perca tempo, vá hoje ao cinema, porque deve sair de cartaz logo-logo. Haviam apenas 6 pessoas na sessão. Uma pena.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Mito, jornada do herói e Batman Ano Um

Por Bernardo Aurélio


Parte 1: mito, herói e super-herói

Certa vez fui convidado a pensar sobre isso: o que é si tornar um herói e como essa jornada pode ser compreendida em um personagem como o Batman? Para focar os argumentos em um recorte específico, a escolha mais óbvia me pareceu Batman Ano Um, escrita por Frank Miller e desenhada por David Mazzucchelli[1], obra originalmente publicada em 1986 e que narra, justamente, os primeiros passos do multibilionário Bruce Wayne rumo ao mundo encapuzado os super-heróis.

A princípio, vamos falar de termos. Existe um motivo para a distinção entre “herói” e “super-herói” e a mera superlativação não se justifica plenamente. De acordo com artigo escrito por Jeph Loeb e Tom Morris, somos apresentados a conceitos antigos do que significa ser herói: “homem com qualidades magnânimas; semideus”, “homem extraordinário por seus feitos guerreiros” ou ainda “homem admirável por feitos e qualidades nobres” (2005, p.24-25).

Pode-se perceber que algumas dessas representações são construídas para dialogar com conceitos de narrativas épicas da antiguidade, com uma era mítica de aventuras atemporais, como os feitos de Hércules ou Prometeu, afinal, o conceito de herói era aplicado a esses autores de grandes façanhas e seus atos serviam de referência para o homem comum, ordinários, que se influenciavam nesses heróis em busca de se tornarem pessoas mais magnânimas, melhores guerreiros ou, simplesmente, mais nobres.

De acordo com M.I. Finley, em seu “Uso e Abuso da História”, a era mítica tratava-se de uma forma artística para se narrar os grandes feitos da humanidade, ou de semideuses, para um público curioso e afeito às suas crenças:


Édipo, Agamenon e Teseu eram mais reais para os atenienses do século V que qualquer figura histórica anterior a esse século salvo Solon, e este foi elevado à categoria daqueles ao ser transformado em figura mítica. As tragédias e odes corais apresentadas anualmente nas grandes festividades religiosas faziam ressurgir os heróis míticos, e estes, recuando pelas gerações de homens até chegarem aos deuses, recriavam a trama contínua da vida para o público, pois os heróis do passado, e mesmo muitos heróis do presente, tinham ascendência divina. Tudo isso era sério e verdadeiro, literalmente verdadeiro (...) Os gregos, todavia, amavam os épicos e as tragédias não só porque precisavam ser lembrados das origens de seus ritos, embora essa função fosse muito importante para o indivíduo – e ainda mais para a comunidade, que era arraigada a seus padroeiros e ancestrais divinos. O mito era o grande mestre dos gregos em todas as questões de espírito. Com ele, aprendiam moralidade e conduta (FINLEY, 1989, p. 5 - 6).

            Os épicos, as poesias, o teatro eram a forma dos antigos de rememorar seu passado e preservar sua história e seus valores. Essas narrativas eram protagonizadas por grandes personagens, heróis, que, de tão espetaculares, tornavam-se verdadeiras lendas, mitos. É necessário falar disso agora, porque, inevitavelmente, o personagem Batman (como muitos outros super-heróis dos quadrinhos) é carregado de ares míticos, quer dizer, ele pode representar modelos de moralidade e conduta tanto quanto os modelos antigos.

É importante, entretanto, pautar uma diferença entre os mitos antigos e os que permeiam os quadrinhos hoje. Em Batman, mesmo em algumas histórias em quadrinhos, existe certa dúvida sobre sua existência e ele é tratado como um mito urbano. Quer dizer, na antiguidade, os mitos eram reais na crença das pessoas, interpretados até mesmo como personagens históricos, permeando suas narrativas épicas, como Aquiles na guerra de Tróia. Entretanto, quando, dentro ou fora do universo da ficção, diz-se que o Batman é um mito, se fala sobre o modo como ele pode ter sido “inventado”, que não condiz à realidade, uma lenda simbólica, que não é “literalmente verdadeiro”, para usar as palavras de Finley. Para entendermos melhor a diferença entre mito e realidade, Mircea Eliade nos é bastante útil:

Há mais de meio século, os especialistas ocidentais situaram o estudo do mito numa perspectiva que contrastava sensivelmente com a do século XIX. Em vez de, como os seus antecessores, tratarem o mito na acepção usual do termo, ou seja, enquanto "fábula", "invenção", "ficção", aceitaram-no tal como ele era entendido nas sociedades arcaicas, nas quais, pelo contrário, o mito designa uma "história verdadeira" e, sobretudo, altamente preciosa, porque sagrada, exemplar e significativa. Mas este novo valor semântico atribuído à palavra "mito" torna o seu emprego na linguagem corrente bastante equívoco. Com efeito, este termo é hoje utilizado tanto no sentido de "ficção" ou de "ilusão" como no sentido, familiar sobretudo para os etnólogos, sociólogos e historiadores das religiões, de "tradição sagrada, revelação primordial, modelo exemplar" (ELIADE. 1989. p. 9).

Hoje, podemos compreender que “o épico não era história (...) Ele podia conter inclusive algumas sementes encobertas do fato histórico – mas não era história. Como todo mito, era atemporal” (FINLEY. 1989. p. 7) e trazia uma narrativa que falava de questões universais, respondendo aos mais variados anseios e curiosidades humanas e, entendendo o que Mircea Eliade nos acrescenta, o mito traz a característica fundamental de uma revelação primordial, de um modelo exemplar. Portanto, cientes de que os mitos dos quadrinhos sejam “ilusão”, e que sequer possuem a pretensão mitológica de misturarem-se aos fatos históricos como proposta de verdade, como Aquiles em Tróia, eles não deixam de falar diretamente a todos nós, de serem universais e atemporais.

            Entretanto, mesmo sendo ilusão, o mito só fala daquilo que aconteceu, que acontece e que nos é reconhecível:

É sempre, portanto, a narração de uma "criação": descreve-se como uma coisa foi produzida, como começou a existir. O mito só fala daquilo que realmente aconteceu, daquilo que se manifestou plenamente (...) O mito cosmológico é "verdadeiro" porque a existência do mundo está aí para o provar; o mito da origem da morte é também "verdadeiro" porque a mortalidade do homem prova-o, e assim por diante (ELIADE. 1989. p. 13).

Portanto, o mito do Batman é verdadeiro porque, evidentemente, crimes acontecem na cidade, porque pais são assassinados, porque o sistema é corrupto e falho e porque, eventualmente, vítimas desse tipo de cenário acabam tomando a justiça pelas próprias mãos e procuram corrigi-las em busca, não apenas de satisfação pessoal, mas procurando fazer o que consideram o certo: estou falando de milícias que se formam para caçar bandidos, de civis que espancam e prendem elementos que praticam furto ou assassinato e os acorrentam em postes, de pessoas que procuram corrigir falhas no sistema e punir pessoas que, provavelmente, merecem mas que não haviam sido devidamente corrigidas por ele. É isso que heróis como Batman fazem, e muitas vezes são chamados de fascistas, da mesma forma como são chamados os homens que cometem ações como essas no mundo real, fora das histórias em quadrinhos.

Entre o que é verdade e o que é verdadeiro existe sensível diferença. E apenas o que é verdadeiro pode falar e tocar diretamente a nós, ouvintes, leitores. Mitos são verdadeiros. Ainda sobre esta questão, história e mito misturam-se na antiguidade e os povos daquela época eram enamorados por sua poesia, escolhendo-a como principal recurso narrativo, em detrimento à outras formas de escrita. De acordo com Aristóteles, a poesia era:

“(...) mais filosófica e séria do que a história, pois aquela fala principalmente do universal e a história do particular. Por ‘universal’ entendo que determinado indivíduo dirá ou fará determinadas coisas segundo a verossimilhança ou a necessidade; esse é o propósito da poesia, acrescentar os devidos nomes às suas personagens. Por ‘particular’ refiro-me ao que Alcebíades fez e pelo que passou” (apud FINLEY, 1989, p.3).

  Na antiguidade, a disciplina história não existia ou era reconhecida como é hoje. Ao longo do seu texto, Finley aborda questões sobre as possíveis verdades envolvendo as poesias épicas como a Odisseia, de Homero, ou até que ponto a Guerra de Troia pode ter assumido todos aqueles contornos. O que nos importa aqui, entretanto, não é buscar a verdade por trás dos feitos do herói mítico Aquiles, nem mesmo cogitar a existência real de Bruce Wayne e sua luta contra o crime, não se trata “de saber se essa poesia era ou não historicamente confiável, mas sim entender a questão mais profunda da universalidade” (FINLEY, 1989, p.5), quer dizer, até que ponto essas narrativas podem falar a cada um de nós indistinta e universalmente.

Sim, de fato, uma característica dos mitos é justamente abstrair-se de um recorte temporal e poder guardar seu significado ao longo das eras, de maneira que essas narrativas dos heróis antigos eram entendidas como fatos que aconteceram muito tempo atrás, numa data indefinida e, praticamente impossível de ser inserida numa cronologia lógica pelos historiadores da época, mas que ganhava significado porque estava constantemente presente e vívida.

Mas não vamos nos demorar nisto, afinal não é nosso objetivo a distinção da verdade, o que nos importa é saber da função universal do mito e que a era heroica da antiguidade era costurada por esses personagens que falavam diretamente com seus interlocutores por meio de suas ações bravas e nobres.

Este era o herói antigo: um semideus capaz de atos sobre-humanos. Entretanto, talvez pela própria apropriação histórica enquanto ciência que narra os fatos ao longo dos séculos, subjugando a poesia épica como principal meio narrativo, os heróis míticos foram relegados à sua posição fictícia[2] e o conceito de herói tornou-se cada vez mais humano e hoje são atribuídos àqueles “que vivem e trabalham à nossa volta todos os dias [que] incluem bombeiros, policiais, médicos enfermeiros e professores” (LOEB, MORRIS, 2005, p.25). Evidentemente, a profissão não faz o herói, mas a qualidade de seus atos é o que o define, e são essas as mesmas qualidades que definiam os antigos: a nobreza. E entre os atos nobres destaca-se o altruísmo, ou seja, ajudar sem esperar nada em troca.

E aqui entra novamente o termo “super-herói”. Porque Batman é um super-herói e não um “herói”? Ele não é exatamente um herói como eram os da antiguidade, não se trata de um semideus, nem tem as qualidades físicas do Superman. Mas o Batman também não é um herói comum como os rotineiros do cotidiano de hoje. Para responder essa pergunta é necessário entender que o prefixo “super” é justamente para elevar a qualidade destes personagens, coloca-los em um patamar acima destes heróis comuns, como o bombeiro ou a mãe-dona-de-casa. Mas, como disse antes, não é a simples superlativação do termo. Explico: não é raro encontrarmos autores que situam os super-heróis de hoje como os mitos modernos, porque, de fato, eles são:

As personagens dos comic strips (bandas desenhadas) apresentam a versão moderna dos heróis mitológicos ou folclóricos. Encarnam a tal ponto o ideal de uma grande parte da sociedade, que eventuais correções ao seu comportamento ou, pior ainda, a sua morte, provocam verdadeiras crises entre os leitores (...) Superman vive na Terra sob a modesta aparência de um jornalista, Clark Kent; mostra-se tímido, apagado, dominado pela colega Lois Lane. Esta camuflagem humilhante de um herói cujos poderes são literalmente ilimitados retoma um tema mítico bem conhecido. Se aprofundarmos a questão, o mito do Super-homem satisfaz as nostalgias secretas do homem moderno que, sabendo-se condenado e limitado, sonha revelar-se um dia como uma "personagem excepcional", um "herói" (ELIADE. 1989. p. 154).

Mircea Eliade é um desses autores, assim como Humberto Eco, que pode ser citado entre os que afirmam que os super-heróis são os mitos modernos. A citação, autoexplicativa, exemplifica o caso do Superman. Mas estávamos tratando de porquê usar o prefixo “super”, se os mitos antes eram tidos apenas como “herói”.  A necessidade se justifica justamente para qualificar lhes como capazes de fazer atos sobre humanos, é o termo necessário que lhes devolve um poder superior como os antigos possuíam, é o retorno dos semideuses, dos grandes feitos, do mítico sendo popularmente narrado através das histórias em quadrinhos e do cinema, como antes fora feito pela poesia e pelo teatro, porém, sem diminuir os heróis comuns. Os super-heróis são míticos e falam para nós de forma universal, abordando os mais diversos e profundos desejos e ambições humanas há quase um século.

Entretanto, você pode afirmar que o Batman, como disse antes, não tem super-força, não é o Superman, ele é um homem comum usando uma fantasia! É verdade, porém, os valorosos grandes feitos de hoje em dia permanecem os mesmos de antigamente, ou seja, Bruce Wayne pode não ter super força, mas é tão nobre e altruísta quanto qualquer outro mítico herói. Talvez, o fato de ser mais vulnerável aos perigos dos seus atos o torne ainda mais heroico que os demais.

Outra justificativa para o termo “super-herói” que deve ser levado em consideração pode ser encontrada dentro dos conceitos dos gêneros narrativos. “Super-herói” como um gênero surgiu a partir de uma variação dos quadrinhos Pulps, que normalmente tratavam-se de aventuras de investigação, de polícia contra bandido, muito populares na década de 1930, nos Estados Unidos. O Superman, que originou o termo em 1938, e o Batman, criado no ano seguinte, são personagens que lutavam contra o mau, assim como os policiais que impediam assaltos à banco. O que os definiu como gênero dos outros quadrinhos da época eram detalhes: no Superman, uma origem fantástica e extraterrestre que lhe conferia superpoderes; em Batman, o uniforme e os meios para lutar[3], seus “bat-trecos”.

Pode parecer bobo, mas o simples uso de capa, máscara, de usar um uniforme com um símbolo que represente sua luta, ou a preservação de sua identidade, tudo são elementos que reforçam o conceito do super-herói e o diferenciam de outros heróis. A capa, artigo em desuso tanto na sociedade de hoje quanto há décadas atrás, quando esses personagens foram criados, lhes confere ares magnânimos, reforçando o significado da mensagem que o personagem quer transmitir. A máscara esconde a identidade do super-herói e isto está intrinsicamente ligado à sua luta altruísta pelo bem maior sem buscar privilégios oriundos de seus atos. Quase sempre, no uniforme está presente um símbolo, como o “S” do Superman, ou o raio do Flash, ou a aranha do Homem-Aranha que reforça um poder, por vezes totêmico, do elemento que o define e isso aproxima-o de uma interpretação mais mítica de suas ações, pois o mito é repleto de símbolos.

Máscara, capa e símbolo podem não estar presentes em todos os personagens. Não é uma regra inviolável. Não é segredo, por exemplo, que a identidade do Homem de Ferro é Tony Stark ou que o Homem Aranha não use capa. Entretanto, os elementos readaptam-se e procuram criar certa unidade, afinal, Tony Stark não possui uma identidade secreta, mas não se pode negar que o gerador Ark em seu peito simboliza sua genialidade criativa e reafirma sua superioridade intelectual em relação aos homens comuns e, mesmo possuindo suas fraquezas, como grande ego ou problemas com alcoolismo, o Homem de Ferro não deixa de ser uma fonte de inspiração quando se avalia suas atitudes.

No caso do Batman, a máscara esconde sua identidade e a capa e o morcego no peito contribuem com a aura teatral e toda a carga dramática que o personagem deseja passar. Mas não vamos nos adiantar, tudo será melhor entendido quando nos debruçarmos sobre a jornada do herói e na leitura da HQ Batman Ano Um.

Parte 2 – Jornada do Herói
Antes de qualquer abordagem de Batman Ano Um, faz-se necessário uma introdução ao poder do mito e do que significa a jornada do herói, de que nos fala tão bem o autor Joseph Campbell.

Os mitos e os heróis são conceitos intimamente próximos, desde tempos imemoriais. Aquiles, Prometeu, Ulisses e tantos outros protagonistas de grandes feitos da era heroica, todos representam mitos. Joseph Campbell diz que o Herói de Mil Faces[4] “é, em essência, um único gesto feito por muitas pessoas diferentes”[5], quer dizer, de certa maneira, todos os heróis passam por um mesmo processo, agem de maneira similar, mesmo protagonizando ações em eras e cenários diferentes. É como se todos dividissem um mesmo tipo de arquétipo narrativo, nem por isso suas histórias são menos dramáticas e envolventes, muito pelo contrário. Joseph Campbell afirma que os mitos falam diretamente a língua universal “porque é sobre isso que vale à pena escrever”. Diz ainda que o tema de todos os mitos é:

(...) a maturação do indivíduo, o caminho gradual e pedagógico a seguir, desde a dependência até a vida adulta, a maturidade e depois até a saída, e como fazer isso. Então, como se relacionar com esta sociedade e como relacionar esta sociedade com o mundo da natureza e do cosmos. É disso que falam todos os mitos (CAMPBELL, 1987).

E que caminho gradual seria este? Estamos falando justamente da jornada do herói, onde o protagonista precisa “abandonar uma condição, encontrar a fonte da vida e chegar a uma condição diferente, mais rica ou mais madura” (CAMPBELL, 1987), em síntese, é apenas isso. As histórias, as narrativas artísticas ou mesmo nossa vida cotidiana pode ser escrita desta forma, em vários ciclos de jornadas diferentes, o que também podem ser observadas em todos os mitos.

Mas em que consiste, exatamente, esta jornada do herói? Para Campbell (1987) “existe uma certa sequência de ações heroicas, típica, que pode ser detectada em histórias provenientes de todas as partes do mundo, de vários períodos da história”. Trata-se de uma linha narrativa que pode ser seguida à risca em todas as suas etapas, ou não, mas que normalmente começa em determinado ponto comum, ordinário, onde o herói (ou ainda, simplesmente, nosso provável protagonista) encontra-se vivendo normalmente. A jornada pode ser dividida em 12 etapas:

1) mundo comum; 2) chamado à aventura (incidente provocador); 3) recusa do chamado; 4) encontro com o mentor; 5) travessia do primeiro limiar; 6) provas, aliados e inimigos; 7) aproximação da caverna secreta; 8) provação central (ponto central, morte e renascimento); 9) recompensa; 10) o caminho de volta; 11) ressurreição (clímax) e 12) retorno com o elixir (desfecho) (VOGLER, p. 46).

Como estávamos descrevendo, existe um “mudo comum”, em seguida, alguma coisa acontece que interrompe este cenário e o personagem se vê diante de um dilema, de um problema ou de um novo cenário, numa situação que incomoda aquilo que deveria ser sua zona de conforto. O personagem encontra-se diante do chamamento para a aventura. Ele pode recusá-la e viver conforme este novo cenário que se apresentou, mas se fizer isto, não seria o nosso protagonista, muito menos nosso herói, pois não aceitaria o convite para os desafios da aventura que irão transformá-lo indefinidamente.

Quando o personagem aceita o convite, ele parte para a aventura. Estre momento é muito marcante na narrativa. Às vezes, a recusa faz parte faz parte da jornada, afinal, aceitar mudar é difícil[6].

Para não nos alongarmos tanto nesta questão, a jornada então significa o processo pelo qual o protagonista passa ao longo da narrativa, enfrentando os problemas, os monstros, os “dragões” (para Joseph Campbell “você tem seus medos, isso é matar o dragão”), se sacrificando porque “o herói propriamente dito é alguém que deu a sua vida por algo maior ou diferente dele mesmo” (CAMPBELL, 1987). Às vezes o sacrifício leva o herói, literalmente, à morte, mas na maioria das vezes essa morte é simbólica. O que acontece é que quando o herói sai de um estágio inicial de luz e vai até a beirada da escuridão, onde encontra o monstro, ele pode cair em fragmentos, ser derrotado, mas depois ele ressuscita (CAMPBELL, 1987). Essa ressureição também pode ser apenas simbólica e representa o retorno do herói, que aprendeu com sua falha revelada quando enfrentara o monstro, anteriormente.

Por vezes, existe a figura de um mentor, um personagem que ensina ao herói onde ele estava errando e o que precisa fazer, recebendo dele elementos que o ajudarão na jornada. Esses elementos podem ser objetos, armas ou, simplesmente, ideias, uma maneira diferente de ver as coisas. Infelizmente, você não recebe nada sem dar algo em troca: “não há recompensa sem renúncia” (CAMPBELL, 1987) e é nesta renúncia onde está o abandono daquilo que é essencial para se derrotar o monstro.

Quando nosso herói derrota o monstro ele precisa voltar ao ponto de partida e viver um novo cotidiano agora sob o ponto de vista alterado, modificado pelo que aprendeu na aventura anterior e está preparado para uma nova jornada, um novo ciclo inevitável pelos acontecimentos da vida que deve se iniciar a partir de um novo chamamento, de outra aventura.

E é neste ciclo de 12 etapas que se estabelece praticamente todo tipo de narrativa, desde os mitos pré-históricos que antecedem à escrita até a história e as artes. A Jornada, entretanto, não é tão simples como parece. Narradores que conhecem bem o caminho, por vezes, esforçam-se para burlá-lo[7] e parecerem, assim, que escreveram uma história menos óbvia.  Entretanto, esses estágios, quando bem escritos, transparecem o frescor de uma nova história, não apenas porque pode parecer inédita, mas importante porque fala ao leitor guardando aquilo que há de mais importante numa história mítica: seu caráter universal e atemporal.

Joseph Campbell, nos adverte, contudo, que “é preciso distinguir entre mitos que têm a ver com a seriedade da vida, vivida em termos da ordem social ou natural, e simples histórias, que lidam com alguns motivos semelhantes, mas se destinam apenas a entreter” (1987. p.151). Muitas histórias do Batman não se preocupam com a “seriedade da vida” e não passam de puro entretenimento. É esperado um tipo de qualidade diferente de histórias quando se tem um personagem publicado mensalmente durante décadas, quase um século. Felizmente, não é o que acontece com Batman Ano Um, verdadeiramente, uma história que pode acrescentar algo substancioso para a vida que não apenas simples entretenimento[8].

Parte 03: Batman Ano Um

A HQ começa com dois personagens chegando à Gotham: Jim Gordon e Bruce Wayne, nesta sequência. É curioso porque Gordon é tão ou mais protagonista nesta história que o próprio Bruce e nós vamos nos estender melhor sobre isso mais adiante.

A princípio, os personagens parecem estar em momentos distintos de suas jornadas pessoais: Gordon foi transferido para Gotham e isso não aconteceu por vontade própria. Bruce Wayne está voltando de uma viagem que durou mais de 10 anos ao redor do mundo, viagem que decidiu fazer. Joseph Campbell nos diz que há dois tipos de herói: 1º) aquele que acidentalmente cai na aventura e 2º) aquele que intencionalmente procura aventurar-se na jornada. Numa primeira análise poderíamos supor que Gordon e Bruce seriam exemplos desses dois tipos diferentes de herói, mas vamos olhar com calma.

Podemos afirmar que Gordon e Bruce são do primeiro tipo. O assassinato dos pais de Bruce foi o chamamento para ele de sua aventura, entretanto, um crime deste tipo não é exatamente um acidente, já que o criminoso sabia o que estava fazendo quando puxou o gatinho naquela fatídica noite, no beco do crime. Porém, ele se torna um herói acidental quando não teve escolha, foi, literalmente, uma vítima da situação que o fez querer lutar contra aquele “monstro” que assassinou sua família. Joseph Campbell, para ilustrar essa situação cita que, “por exemplo, quando você é convocado para o exército, você não queria, mas aconteceu. E está num processo de transformação. Passou por uma morte e uma ressurreição. Vestiu um uniforme e se tornou outra criatura” (1987). Bruce não queria o crime, mas aconteceu e foi o fato que o retirou de uma zona de conforto e o fez partir, de fato, para uma jornada em busca de aperfeiçoamento que o transformaria profundamente, em corpo e espírito, abandonando sua infância e iniciando sua jornada para tornar-se o homem que viria a ser.

Quando Bruce Wayne retorna para Gotham, aparentemente, está completando um ciclo que iniciou quando decidiu deixar Gotham e começar uma jornada de treinamentos, testes, mestres e preparação que duraram anos, dezoito, para ser preciso. Período que a HQ apenas sugere que aconteceu, não mostra. Quando ele volta para sua mansão é como se já tivesse voltado para um novo ponto de partida, mudado, transformado, com uma nova perspectiva. Ele está em Gotham, preparado para o que quer fazer, ou, pelo menos, aparentemente: “Eu não estou pronto. Tenho os meios, a habilidade... Mas não o método. Não. Não é verdade. Eu tenho centenas de métodos. Mas alguma coisa está faltando. Algo não está certo. Tenho de esperar. Tenho de esperar” (MILLER, 2011. p.17). Então, Bruce Wayne precisa esperar por algo novo que faz falta e este “algo” é justamente a prova de que o ciclo de uma jornada maior ainda não foi concluído: ele precisa testar estas novas habilidades, essas novas “recompensas”, ele precisa enfrentar e derrotar o “monstro” de Gotham que matou seus pais. Só assim, a jornada que teve iniciou com a morte de seus pais pode ser considerada completa.

Gordon também não foi para Gotham tornar-se um herói naquela cidade por vontade própria. Foi transferido contra sua vontade, porque cometeu algum erro[9] em sua carreira como policial e sua transferência é quase como uma punição: “Talvez seja isso que eu mereça... passar um tempo no inferno” (MILLER, 2011, p. 12). Então ele está, literalmente, iniciando um novo ciclo, foi jogado nessa aventura, nesse novo cenário para viver uma nova experiência e aprender com ela, para o bem ou para o mau. Observem esse diálogo do tenente Gordon com o, então, comissário de polícia de Gotham, Gillian B. Loeb:

− Bom, eu sei que cometi erros, mas estou grato por esta chance de provar meu...
− Os erros que cometeu você conseguiu esconder da imprensa, tenente. Isso e o que importa. Não é?
− Com uma coisa o senhor não vai ter de se preocupar, comissário... a minha honestidade.
− Isso nem me passou pela cabeça. (MILLER. 2011. p. 14)

Neste diálogo, o roteirista sugere que o comissário está interessado em Gordon justamente porque ele cometeu esses erros e os conseguiu esconder da imprensa. Antes disso, diz ainda que “sua ficha mostra que você tem o que é necessário para trabalhar conosco” (MILLER. 2011. p. 14). Gordon foi chamado para se tornar corrupto em Gotham, uma cidade capaz de revelar o que tem de pior nas pessoas. Ele está no início de uma nova jornada iniciada justamente por seu passado de erros. É um personagem perfeito em busca de redenção, que quer uma chance naquele inferno de cidade para provar seu valor.

É interessante quando Gordon diz que merece estar no inferno. Gotham é o inferno. Uma cidade cheia de tentações. É a descida até o precipício onde você encontra o monstro de que nos fala Joseph Campbell. Gotham é um símbolo da decrepitude das cidades modernas. É Sodoma e Gomorra e a corrupção que pode se manifestar em todos os níveis da administração pública da cidade e mesmo do espírito humano. Gordon e Batman são os heróis que habitam neste cenário e a cidade surge, assim, tão mítica quanto eles, e, podendo ser entendida como um personagem, passa por um longo e contínuo processo de transformação que só esses heróis podem se revelar como mentores e indicar o caminho da redenção.

Joseph Campbell disse que “os mitos e os sonhos vêm do mesmo lugar. Eles vêm de certas percepções que precisam se expressar de uma forma simbólica” (1987). Gotham não é Nova Iorque ou São Paulo, mas poderia ser. O que isso significa? Que Gotham não é um cenário qualquer e que sua simbologia gótica e deturpada é um mito para a cidade moderna: suja, feia e sem esperança.

Até aqui você já deve ter percebido que Batman Ano Um não tem apenas uma jornada do herói: Bruce Wayne e Jim Gordon sabem que precisam lidar com Gotham. Os dois personagens passam por sua jornada, entretanto, eles são heróis ligeiramente diferentes em seus objetivos. Bruce Wayne está iniciando uma batalha para, ao tempo em que se torna um homem espiritualmente melhor, um homem altruísta e mascarado, ajuda a melhorar Gotham. Tornando-se o Batman, ele pode se tornar um símbolo de luz para essa cidade de trevas.

A aparente sutil diferença é que Gordon trava esse embate internamente. Ele precisa provar para si mesmo que é melhor que os erros que o jogaram naquele inferno de cidade. Enquanto Bruce tem sua jornada que inicia dentro dele e irradia para fora, na cidade, lutando contra os monstros e tornando-se um símbolo, Gordon recebe as influências externas e se prova, internamente, buscando tornar-se um homem melhor. Entretanto, a diferença é apenas aparente, porque Gordon, no instante em que salva-se, salva também Gotham:

Mas, ao fazer isso, você salva o mundo. Uma pessoa vitalista sempre traz uma influência vitalizadora, não tenha dúvidas a respeito disso. O mundo sem espírito é uma terra devastada. As pessoas têm a ilusão de salvar o mundo trocando as coisas ao redor, mudando as regras, quem está no comando e assim por diante. Nada disso! Qualquer mundo é um mundo válido se estiver vivo. A coisa a fazer é trazer vida a ele, e a única maneira de fazer isso é descobrir, em você mesmo, onde está a vida e manter-se vivo (CAMPBELL. 1987. P. 164).

            Gordon, da mesma forma que Bruce Wayne, torna-se um herói e um símbolo não só para a cidade, mas para todos aqueles que conhecerem sua jornada: nós, leitores. A história de Gordon em Batman Ano Um é justamente a luta de um homem tentando manter seu espírito vivo e a principal maneira de fazer isso é mantendo valores nobres firmes e acima das provações que enfrentará ao longo da história. Inevitavelmente, isso não será fácil e é algo que mostraremos a seguir, mas antes, é preciso alguns parágrafos sobre uma terceira personagem que também passa por uma jornada em Batman Ano Um e que não se pode deixar de citar: Selina Kyle, mais conhecida como Mulher Gato.

            O surgimento da Mulher Gato está intimamente ligado ao surgimento de Batman. Vejamos: Quando Bruce Wayne retorna a Gotham e percebe que “algo está faltando” (MILLER. 2011. p. 17), é justamente esta falta que o impele a procurar, a se jogar na zona leste de Gotham, o inferno do inferno (MILLER. 2011. p.20). Ali, um local onde a promiscuidade salta aos olhos, ele coloca seu treinamento à teste: arruma um disfarce qualquer, para que as pessoas não reconheçam o bilionário playboy Bruce Wayne e possa enfrentar o primeiro “monstro” de Gotham: um cafetão que coloca uma criança na rua para si prostituir. Bruce enfrenta a figura e o derrota facilmente, entretanto as coisas perdem o controle e as próprias prostitutas começam a enfrenta-lo. Antes de toda essa confusão, Selina Kyle, também uma prostituta, do alto de uma janela, observa Gotham à sua frente e conversa com seu cliente, perguntando a ele: “Sabe porque eu odeio tanto os homens, canalha? Nunca conheci um” (MILLER. 2011. p. 21). Neste momento, ela percebe a movimentação abaixo, iniciada pela luta de Bruce com o cafetão, e, no meio do tumulto, Bruce machuca Holly, a criança que havia se oferecido para ele. Holly havia atacado Bruce com uma faca e, ao desarmá-la, Bruce, desajeitamente, machuca o pulso dela. Este é o chamado para Selina. Ela salta o prédio, dizendo: “Ninguém machuca a Holly” e percebemos que ela é sua protegida. Selina luta contra Bruce. “Está tudo arruinado. Não tem desculpa. Não me controlei” (MILLER. 2011. p. 23), reclama Bruce, maldizendo-se e a situação só complica mais ainda com a chegada da polícia. Mas, antes de continuarmos a jornada de Bruce, vamos nos concentrar um pouco mais em Selina Kyle.

            A verdade é que a jornada da Selina nesta HQ não é bem trabalhada. Trata-se de uma personagem secundária na trama, mas ela justifica sua participação, como veremos a seguir. No capítulo 3 da história, Selina vê o Batman em ação pela primeira vez, não apenas um Bruce Wayne desajeitado, mas, de fato, o Batman. Ele precisava sobreviver estando encurralado no meio de um tiroteio e ainda consegue salvar um inocente gatinho. De alguma forma, isso parece ter afetado Selina, uma mulher apaixonada por esses animais. Em cena, infelizmente, mal aprofundada adiante, ela resolve tirar Holy da vida de prostituição e espanca o mesmo cafetão antes surrado por Bruce e decide dedicar-se a outra vida: a de gatuna. Arruma uma fantasia e decide roubar dos ricos e criminosos[10]. De alguma maneira, Batman foi uma inspiração para ela e uma resposta para o que deveria fazer. Batman foi o primeiro “homem” de verdade que ela conheceu e admirou e isso a faz passar por um processo íntimo de mudança. É para isso que servem os mitos, para nos inspirarmos ou mesmo nos antagonizarmos a eles e esta é a constante história entre Batman e Mulher Gato: amantes e inimigos.

            Após esse breve parênteses que se fazia necessário, vamos voltar àquele teste de Bruce Wayne no “inferno do inferno”, onde Selina o vê pela primeira vez e quando ele machuca Holy. Tudo sai do controle e Bruce se entrega para os policiais, corruptos que são, um deles atira em Bruce. “Pô... O cara tava parado...”, diz um deles ao que o outro responde: “mas queria atacar” (MILLER. 2011. p. 24). Para preservar sua vida e sua identidade, Bruce não consegue evitar de ser atingido por uma bala policial antes de ser preso e tem de causar um acidente de trânsito para escapar da viatura que o estava conduzindo. Ainda arruma tempo para salvar os policiais corruptos da morte eminente que se aproximava pela previsível explosão do carro onde estavam os dois oficiais, desacordados. “Fogo. Em segundos vai alcançar o tanque de gasolina (...) Esses homens... na certa, tem família” (MILLER. 2011. p.25), pensa Bruce. Correndo o risco de explodir junto com eles, Bruce salva seus algozes. “O herói se sacrifica por algo, essa é a moralidade”, diz Campbell. Ele não os salva por si próprios, mas decide salvá-los pela família que eles devem ter e pelo sofrimento que esses terceiros poderiam ter. Essa é uma motivação muito nobre: a família. Algo que Bruce perdeu para um criminoso qualquer.

            Infelizmente, salvar os policiais não foi o suficiente para manter sua autoestima. Bruce fracassou naquele teste. Enfrentou o monstro e foi derrotado por ele. Podemos dizer que esta é a oitava etapa da jornada: a provação central, morte e renascimento. Ele se tornou Jonas na barriga da baleia:

A barriga é o lugar escuro onde acontece a digestão e uma nova energia é criada. A história de Jonas na barriga da baleia é um exemplo de tema mítico praticamente universal: o herói é engolido por um peixe e volta, depois, transformado (...) É uma descida às trevas. Psicologicamente, a baleia representa o poder de vida contido no inconsciente. Metaforicamente, a água é o inconsciente, e a criatura na água é a vida ou energia do inconsciente, que dominou a personalidade consciente e precisa ser desempossada, superada e controlada.
No primeiro estágio dessa espécie de aventura, o herói abandona o ambiente familiar, sobre o qual tem algum controle, e chega a um limiar, a margem de um lago, ou do mar, digamos, onde um monstro do abismo vem ao seu encontro. Aí há duas possibilidades. Numa história do tipo daquela de Jonas, o herói é engolido e levado ao abismo, para depois ressuscitar; é uma variante do tema da morte e ressurreição. A personalidade consciente entra em contato com uma carga de energia inconsciente que ela não é capaz de controlar, precisando então passar por toda uma série de provações e revelações de uma jornada de terror no mar noturno, enquanto aprende a lidar com esse poder sombrio, para finalmente emergir, rumo a uma nova vida (CAMPBELL. 1987. 161).


Bruce perdeu o controle, foi baleado, voltou para sua mansão escura e silenciosa, afundou-se numa poltrona qualquer. Desistiu do que vinha tentando fazer. Decidiu parar de lutar e sangraria até a morte se não encontrasse o que estava faltando. Cansou de esperar. É o herói no fundo do precipício, ou no estomago da baleia, derrotado, simbolicamente morto... Até que um morcego estilhaça a janela da sala onde estava e o fita do alto de um busto de Thomas Wayne. “Já vi essa criatura antes... em algum lugar. Ela me aterrorizou quando criança... me aterrorizou. Sim, pai. Eu me tornarei um morcego” (MILLER. 2011. p. 32). A personalidade consciente de Bruce encontra sua carga de energia inconsciente e ele aprende a lidar com esse poder sombrio da derrota e pode finalmente emergir rumo a uma nova vida: nasce o Batman.

Então, Bruce decide tornar-se um morcego e surge o Batman, com todas aquelas características teatrais necessárias para infligir medo aos criminosos e a capa, a máscara e o símbolo do morcego completam a mensagem. Essa necessidade de infligir medo em seus adversários faz parte do combate, para permitir a ele ter o controle da situação. Depois de vestir o uniforme pela primeira vez, Batman enfrenta um pequeno grupo de ladrões e narra assim sua estreia: “O uniforme funciona melhor do que eu esperava. Eles ficam estarrecidos e me dão todo o tempo do mundo. Eu caio perto do que parece mais forte e rosno para ele” (MILLER. 2011. p.41). O medo causa inércia no adversário. Batman torna-se ele próprio um “monstro”, um “dragão” (em termos de Campbell), um problema a ser superado pelos bandidos que enfrenta, e nessa batalha, torna-se um mito, algo ainda maior do que realmente é, isso fica claro na página 43 da HQ, quando vemos ao fundo do tenente Gordon, imagens de testemunhas que representam a descrição do personagem que a polícia de Gotham começa a caçar: a primeira delas é um morcego gigante, aterrador, o que é corroborado pela descrição de um policial corrupto, o detetive Flass: “Daí, ouvi barulho de asa batendo. Quando olhei pro alto vi o monstro voando pra cima da gente (...) O bicho devia ter uns dez metros e rosnava como... sei lá! Nunca vi nada igual” (MILLER. 2011. p. 44). Outra passagem que demonstra claramente o poder simbólico do terror que o personagem impele é quando invade a casa e o jantar de um grupo de corruptos de Gotham. Batman preocupa-se de organizar tudo, como se arrumando o cenário de um palco. Corta a energia, ajusta a luz correta ligando um holofote, prepara uma nuvem de fumaça e ouvimos um estrondoso estouro de granada que derruba uma parece. Batman entra em cena, com sua silhueta recortada por uma luz delineadora, que tão cuidadosamente havia preparado, escondido na penumbra da fumaça que havia jogado dentro da sala, e nós quase podemos ouvir sua propositada voz grave e cavernosa enquanto seu rosto é levemente preenchido pela luz das chamas do fogo sobre a mesa: “Senhoras e senhores, vocês comeram bem. Comeram a riqueza de Gotham... seu espírito. O banquete acabou. De hoje em diante, nenhum de vocês estará a salvo” (MILLER. 2011. p. 48). Batman interrompe o jantar e ameaça todos eles. Promete devolver o espírito de Gotham, pois ele havia sido devorado, destruído, e como nos lembrou Campbell “o mundo sem espírito é uma terra devastada” e o que se deve fazer é “trazer vida a ele, e a única maneira de fazer isso é descobrir, em você mesmo, onde está a vida e manter-se vivo” (CAMPBELL. 1987. P. 164).



Com essa passagem, o mito da origem de Batman está criado, ele completou um ciclo. Vamos tentar, entretanto, numerar as etapas de acordo com a jornada do herói. 1) mundo comum: seria sua vida de criança, antes da morte dos pais. 2) Chamado à aventura (incidente provocador): é o assassinato dos pais. A aventura é decidir se lutará ou não para mudar o mundo que permitiu tamanha barbárie. 3) Recusa do chamado: a recusa não é mostrada em Batman Ano Um, entretanto, o luto pela morte dos pais, o próprio trauma que isso causou e que nunca superado, poderia ser entendido como uma recusa, uma negação da morte e, consequentemente, uma recusa ao chamado. Entretanto, nem todas as etapas da jornada são fundamentais para ela existir e a recusa é uma das que podem se fazer ausente. 4) O encontro com o mentor é novamente uma etapa que não é mostrada em Batman Ano Um, entretanto, outras HQs mostram que o próprio Alfred faz às vezes de mestre para o Bruce, indicando-o o caminho e proferindo ensinamentos. A HQ sugere que Bruce passou muitos anos preparando-se para se tornar o Batman, que só veio surgir 18 anos após a morte de seus pais e que durante este tempo ele treinou inúmeros estilos de arte marcial. Inevitavelmente, estes mestres foram seus mentores. Outras versões da sua origem, sugerem inclusive que Gordon foi este mentor de Bruce, quando ele ainda era criança, após a morte dos pais, como vimos na série de TV “Gotham” ou no primeiro filme do personagem dirigido por Christopher Nolan.

Acredito que a 5) travessia do primeiro limiar também é uma etapa que encontra-se fora da HQ analisada, sendo justamente a superação da primeira etapa de transformação do personagem, é quando ele cruza o portal do mundo ordinário, de sua zona de conforto, e começa a desbravar um mundo desconhecido. No caso de Bruce Wayne, essa travessia dura praticamente os 18 anos que se seguem após a morte dos pais, quando ele decide preparar-se para enfrentar os “monstros” de Gotham. Em seguida, temos as primeiras 6) provas, aliados e inimigos, que é quando Bruce testa pela primeira vez suas novas habilidades e começa a conhecer seus aliados e inimigos: aqui é, basicamente, onde encontramos Bruce Wayne retornando a Gotham. Ele reencontra Alfred, tem a ajuda do promotor Harvey Dent e conhece o tenente Gordon, entre outros policiais, como o corrupto Flass. Ele precisa compreender quem são seus aliados e inimigos.

Aparentemente, as etapas não aparecem em uma sequência lógica ao lermos Batman Ano Um, isso porque ele só reconhece seus aliados depois que já transformou-se em Batman. Quer dizer, a 7) aproximação da caverna é justamente quando Bruce decide ir ao “inferno do inferno”, à zona leste de Gotham, quando perde todo o controle. Joseph Campbell disse que é na “caverna em que você tem medo de entrar onde está o tesouro que você procura”, quer dizer, é na caverna onde está o monstro, e apenas ao derrota-lo você terá sua recompensa e, na história em questão, inicialmente, é um cafetão que prostitui, inclusive, crianças.

A etapa 8) provação central é aquela quando o personagem morre e renasce, a qual já nos debruçamos antes e sua 9) recompensa é justamente encontrar o que estava buscando: o símbolo do morcego que completaria a figura mitológica que iniciou a construir 18 anos antes; 10) o caminho de volta, às vezes é uma etapa que nem é mostrada, e também não é difícil deduzir do que se trata: é quando o herói decide retornar ao ponto de origem, mas transformado. Em Batman Ano Um, é quando Bruce já se estabeleceu como herói e seu mundo comum já é combater o crime, diariamente. A 11) ressurreição (clímax) é um segundo ponto de tensão para a narrativa, onde o herói enfrenta a morte novamente, desta vez utilizando todos os conhecimentos adquiridos e em nossa história avaliada é quando, curiosamente, Bruce Wayne e não o Batman, precisa salvar o filho do tenente Gordon. Nas últimas páginas da HQ, Bruce Wayne é baleado pelo próprio Gordon, que não sabia se tratar de Bruce, pois estava usando um capacete normal ao aparecer numa moto. Gordon atinge-o pensando que se tratava de um dos sequestradores. Nesta sequência, Bruce corre, escala prédios, salta sobre carros em movimentos e pula de cima de uma ponte, para agarrar o bebê de Gordon que encontraria a morte se não fosse sua intervenção.

O 12) retorno com o elixir, ou o desfecho, é quando Bruce Wayne, escondido pela penumbra da luz de um dia que vai desaparecendo e pela lama do leito do rio, logo após saltar para salvar a filha de Gordon, encontra-se frente à frente com o tenente de polícia que o estava caçando antes, pois Batman era um vigilante fora da lei que utilizava seus próprios meios para enfrentar o crime. O desfecho é justamente aquilo que fica subentendido, a “vista grossa” que Gordon faz para Bruce Wayne e diz: “Sabe... Eu sou praticamente cego sem óculos. Estou ouvindo sirenes. Melhor você ir” (MILLER. 2011. p. 105). Quer dizer, Jim Gordon, sabe que aquele é o homem que veste-se de Batman, o “criminoso” que ele e a polícia estavam caçando, mas por uma questão moral que paira acima da lei, Gordon decide que ele deve partir o quanto antes. A polícia aceita o herói fora da lei. E não apenas isso, na página seguinte, quando, semanas depois e do alto de um prédio, Gordon pensa: “Alguém ameaçou envenenar o reservatório de Gotham. O nome do louco é Coringa. Logo vai chegar aqui um amigo que pode me ajudar”. Batman torna-se um elixir para Gotham, que pode lutar pelo seu espírito, lhe devolver esperança e Gordon é parte fundamental nesta luta, ambos se ajudam mutualmente.

Parte 04: Outra jornada de Jim Gordon

Mas, como já havia mencionado antes, Batman Ano Um não possui apenas a jornada de Bruce Wayne, Gordon também é um personagem que passa por grandes transformações e precisa enfrentar pelo menos dois grandes “monstros”. É importante não deixarmos isso em branco.

Pouco atrás, citamos Campbell falando sobre dois resultados que podem ocorrer quando o herói está na oitava etapa de sua jornada, enfrentando o “monstro”. A primeira opção é a que acontece com Bruce Wayne e o que descremos antes: a derrota e a morte seguida da ressureição.

Outra possibilidade é o herói, ao defrontar-se com o poder das trevas, vencê-lo e matá-lo, como Siegfried e São Jorge fizeram quando enfrentaram o dragão. Mas, como Siegfried aprendeu, é preciso provar o sangue do dragão para incorporar alguma coisa do seu poder.
Quando matou o dragão e provou do seu sangue, Siegfried ouviu a música da natureza. Ele transcendeu sua humanidade e uniu-se novamente aos poderes da natureza, que são os poderes da vida, dos quais somos afastados por nossas mentes (CAMPBELL. 1987. 161).


É o que acontece com Jim Gordon: policial de Chicago que cometeu erros e foi punido com sua ida para Gotham, o tenente precisa provar seu valor, diariamente sob as provações de ter de conviver com policiais corruptos como Flass ou o próprio comissário Gillian B. Loeb. Percebendo que o tenente não se dobraria à corrupção dos colegas de trabalho, Flass e Loeb decidem quebrar Gordon, amedrontando-o ao ameaçar sua mulher e o bebê que ela esperava. Pouco antes disso, Gordon é pego de surpresa e espancado por homens encapuzados. Neste primeiro confronto, ele é pego desprevenido e derrotado. Antes de irem embora, Gordon escuta a risada familiar de Flass. Naquela mesma noite de transformação, Gordon decidiu enfrentar o “monstro” com o qual estava obrigado a conviver. O que vemos a seguir é a continuação daquela luta.  Gordon espreita a casa dos comparsas de Flass durante a madrugada e aguarda sua saída, seguindo-o de carro. Provoca um acidente. Flass sai de seu veículo e recomeçam a luta. Flass é o “monstro”, entretanto, derrotado, é também um “mentor”. “Obrigado, Flass. Você me mostrou o que é preciso pra ser policial em Gotham City”, pensa Gordon, tal qual Siegfried, provando o sangue do dragão e incorporando alguma coisa do seu poder. Essa “coisa” é justamente perceber que é preciso, às vezes, correr à margem da lei e tomar à justiça pelas próprias mãos, já que a própria lei, ou o sistema que é sustentado por ela, é corrupta e falha. Gordon atinge o mesmo nível de percepção de Bruce Wayne e estava agora preparado para a futura aliança que firmaria com Batman.

Mas Gordon passa por uma segunda jornada pessoal em Batman Ano Um. Sua mulher, Bárbara está grávida. “Como deixei isso acontecer? Como pude ser tão irresponsável? Permitir o nascimento de um inocente numa cidade sem esperança?” (MILLER. 2011, p. 40), pensa Gordon. Diante dessa situação, vivendo numa cidade estranha, fazendo um trabalho que odeia, ele não pode parar. Entretanto, Batman surge e as coisas se complicam. Ele fica cada vez menos em casa, cada vez menos dividindo seu tempo com sua esposa, então surge a detetive Essen, uma mulher inteligente e bonita com quem trabalha diariamente e que torna seu cotidiano menos infernal. Ela está sempre presente. “Posso sentir o batom dela no cigarro”, pensa Gordon. Ambos acabam se entregando. Viram amantes. “Outra briga. Bárbara e eu temos brigado demais. Ela me diz que ando muito tempo ausente (...) Estava tomando café com Sarah... Meu Deus! Estou chamando Essen de Sarah. Está tudo errado! E Bárbara está certa como sempre” (MILLER. 2011. p.79).

Gordon chega ao fundo do poço, termina com Essen, faz o certo, o que deveria fazer, mas estava apaixonado e encontra-se com ela mais uma vez antes dela pedir transferência e deixar sua vida. Entretanto, a maior provação ainda precisa ser enfrentada: a verdade. Os policiais corruptos descobrem o caso de Gordon com Essen e ameaçam destruir seu casamento. Antes que isso pudesse acontecer, ele precisa falar com ela. Gordon enfrenta seu medo, revelando o segredo do caso que tivera. Foi homem o bastante para isso. Quando ligam para Bárbara, ela diz: “Sim, eu já sei sobre a sargento Essen. Por favor, não me incomode mais”. Gordon escuta a triste mulher falando ao telefone, do fundo de um quarto escuro. Este é o momento onde a verdade é revelada e nada pode os ferir mais do que já estão feridos e a reconstrução de suas vidas reinicia. Gordon torna-se um herói, o homem que fez o que era preciso para preservar seu casamento, tornou-se um modelo de nobreza, ainda que cheio de rachaduras. Mas Barbara, ela sim, foi mais forte que tudo isso.

O bebê nasce e temos a sequência final que citamos anteriormente, quando o sequestram. Bruce aparece, desmascarado mas escondido nas sombras. Tudo é resolvido. Nada mais pode machucar Gordon e sua família. Tem sua recompensa e ainda ganha um amigo no combate ao crime de Gotham City, uma esperança para salvar o espírito daquela cidade imunda.



[1] Sempre que me referir a obra Batman Ano Um daqui pra frente, utilizarei como referência o autor dos roteiros Frank Miller por uma questão prática. Não pretendo diminuir a importância do desenhista David Mazzucchelli, que também figura como autor da obra, apenas vou limitar minha discussão em torno de um aspecto e não de outro.
[2] Vale lembrar, como aponta Roger Chartier, que o poder da representação fictícia assegura seu parentesco com o relato histórico a partir do princípio da verossimilhança.
[3] É importante lembrar que mesmo antes dos super-heróis criados a partir de 1938, haviam heróis semelhantes a eles, como o Zorro, criado em 1919 pelo escritor norte-americano Johnston McCulley, o Flash Gordon, em 1934 por Alex Raymond, o Fantasma e o Mandrake, em 1936 e 1934, respectivamente, ambos criados por Lee Falk. Zorro, em particular, serviu de inspiração para Bob Kane e Bill Finger criarem seu Batman. Falaremos mais sobre essa inspiração no decorrer deste texto.
[4] Título do livro deste autor que aborda a Jornada do Herói.
[5] Algumas citações de Joseph Campbell neste texto foram tiradas da entrevista cedida por ele a Bill Moyers no especial para tv de apenas 50 minutos chamado “O Poder do Mito” e é facilmente encontrado na internet. Recomendo que os curiosos assistam na íntegra.
[6] Lembram de Bilbo Bolseiro gritado que está partindo para uma aventura e de como foi difícil para os anões conseguirem persuadi-lo para participar da viagem, em O Hobbit? É exatamente isso!
[7] Para exemplificar, sugiro assistir ao filme Adaptação, interpretado por Nicolas Cage, que conta a história de um dramático escritor que sofre em busca da criação de um roteiro original para cinema.
[8] Sem querer desmerecer a importância do puro entretenimento para a vida.
[9] O erro de Gordon que causou sua transferência para Gotham não é explicado na HQ. Fica apenas sugerido que está arrependido e pretende provar seu valor, tentando ser um policial correto em Gotham.
[10] Curiosamente, existe um personagem chamado Romano, um bandido que é atacado por Batman e que tem seu carro roubado por ele e atirado no cais do porto. Romano grita, chamando Batman de Robin Hood. Talvez esse personagem que rouba dos ricos tenha sido uma inspiração para o Batman, talvez tenha, indiretamente, inspirado a própria Mulher Gato. Outro fato curioso é que Robin Hood não é o primeiro personagem mítico citado nesta origem do Batman: é notório o conhecimento de que os pais de Wayne, antes de serem assassinados, estavam assistindo a um filme do “Zorro”. Diogo De La Vega, um homem rico que usa de seus artifícios para lutar contra a injustiça, que possui uma mansão cheia de passagens secretas e se mascara para proteger sua identidade: não dá para negar as semelhanças. Mitos que influenciam mito.