Essa Merda Toda...
Por que nem tudo é poesia e nem todo texto presta, mas, pelo menos, tem algo a dizer...
01
Deus,
Pai, mãe.
Senhor,
Sei lá...
Alá!
Todos os nomes,
Todos os rostos,
A mesma alma.
A alma do criador,
Aquele que conversa com cada homem, animal, ser...
Aquele de várias faces,
De várias “fés”.
Quando falo, você escuta?
Quando escrevo, você lê?
Quando estou sozinho no banheiro,
Estou sozinho?
Quando o senhor chora?
Eu choro... Imagem e semelhança.
És tão tolo quanto nós?
Ou tem apenas cara de bobo?
02
A estrela brilhou forte
A lua crescente arrastou a chuva passageira,
Abriu caminhos para o céu.
O vento trazia a cura
O farfalhar das folhas acalmava a alma
A magia da noite estrelada
A todos nos envolvia.
Eu crescia dentro de mim.
Animal antigo, coroado com a sabedoria do espírito milenar em comunhão com Deus e com o passado.
03
Como tem coisas este mundo.
Cheio de mistérios invisíveis, de fatos corriqueiros e impossíveis.
Uma só verdade ramificando-se em várias mentiras.
Mentiras recheadas de fé e é só!
Só o que basta.
Completa.
Repleta onde está.
Fé em tudo e em todos.
04
Minha vontade foi de ficar no fundo da rede até...a morte. Limpar meu espírito onde quer que fosse. Voltar noutra vida tentando corrigir tudo com todos que também ainda estariam por aqui. Recomeçar.
Me sinto sujo, impuro, castigado.
Já tinha ouvido falar,
Nunca tinha dados ouvidos.
A vida machuca mesmo,
Ela realmente veio.
Justiça divina,
Erro humano,
Chame do que quiser,
A merda tá feita,
Conviva com ela.
05
Pés enfeitados por sandálias com paetês coloridos. Pequena boca em forma de coração. Pele com maciez e cor de jambo. Seio e jeito de menina, alma de mulher. Linda em cada defeito e perfeição. Dona de si, decidida, que sabe dizer não.
Te amo, te amo.
Estúpido bufão sou eu, perdido, enfeitiçado por uma angústia vazia fantasiada de liberdade, que não passa de solidão.
Quero te ter plenamente, mas odeio imaginar te fazer sofrer.
Beijar sua testa, morder sua orelha, cheirar tua nuca, te ouvir dizer, pois mal sei falar. É contigo que quero estar, por toda minha vida.
06
Tentei dizer em versos...
... Não sou tão poeta assim.
Perguntei pra você se valeu a pena,
Mesmo sabendo que, talvez, não...
07
Preciso desenhar alguém morrendo,
Alguém numa situação podre,
Sem inspiração alguma.
Preciso desenhar uma pessoa que precise mais que tudo no mundo morrer de uma maneira terrivelmente angustiante.
Preciso exorcizar esse querer que me inunda a mente cadavérica, fria, distante, ausente...
08
Eu quero chorar, gritar a dor, enfeitar meu rosto com lágrimas e expressões tristes, cantar o medo, a angústia e a separação, mas cantar bem alto, avisar sem roubar atenção. Alto o suficiente apenas para escutar o aviso.
Soluçar, engasgar, apertar suas cartas contra o peito, sentindo ali o peso do mundo.
Eu não soube dar amor,
Você não aceitou minha incapacidade de demonstrar meu querer.
Nem tudo conseguiu fluir
Nem eu nem ti
Nem o cotidiano chegou a existir
Nem o palco da vida
Nem o caminho trilhado
Nem a nova oportunidade cansada pôde-se discutir.
Só eu sem ti,
Só eu e o por vir.
Só eu, treinado, vivido, mas despreparado e retardado,
Sem saber como sentir.
09
Inconsistente erro humano
Persistente desejo de segurança.
Desejo de segurança que faz perder,
Que faz testar o amor e faz cair.
10
Me permita agora cantar o amor,
Me permita cantar o desconhecido,
Me perder no gesto,
Me encontrar na dúvida.
Me permita ser o centro do mundo
Me permita errar sem culpa
Me jogar na vida
Me calar agora.
...
11
...
O ponto reticente irritava a calma.
...
O ponto reticente enganava a alma.
...
Reticências, eterna dúvida.
...
Bem-aventurado os absolutos.
Bem-aventurado os que sabem.
Não convém duvidar,
Mas se a dúvida há, é bom saber que o risco é inerente à vida.
Conviver na certeza da dúvida pode ser, talvez, a maior certeza da prova.
12
Tou me sentindo mau me sentindo mal me sentindo.
A vontaque que dá é de gozar no olho de qualquer uma, de esporrar a vida na cara, fazer sangrar o ânus. Quero fazer sangrar o ânus! Foder os peitos em espanhola, esconder meu pau entre os peitos.
Me sinto mau minto mal minto.
Quero abdicar de tudo isso. Quero encontar o amor que tive.
Como o criei, onde o perdi?
13
O cigarro entrou nos meus pumões.
Eu não engasguei.
A fumaça saiu pelo nariz.
Minha mão pegava na sua cintura fina.
Eu queria fudê-la, ao menos beijá-la.
Ordinária garota brincalhona dos infernos,
Queria que você explodisse!
14
A noite decepcionante cambaleava para um alvorecer pior.
Maldita vida de vontades inquietas.
Sexo matinal que não vai acontecer,
Afagos abafados enrolados no lençol, perdidos na vontade.
PUTA! VADIA!
Vida vazia preenchida de desejos alheios roubados de qualquer um.
Buceta castigada que não abraça a rola entorpecida por alguma angústia macabra que vem do coração.
Maldita noite desperdiçada comigo mesmo, sem sentido, sem pretexto, reflexo grotesco de um parque de horrores de uma alma desgarrada... Sem sabores.
15
Explode na minha virilha uma dor da alma castigada: crime sem vilão.
16
A gente falava coincidências demais
Unindo o tempo, gastando a gente, proveitosamente.
Sorriso meio calado, contido
Vivendo uma longa noite contigo.
Um, dois encontros apenas.
Procurando entender,
o que os beijos calavam.
Procurando entender,
o desejo crescente, crescente, subindo...
...Meu corpo caiu do alto,
bem fundo na densa relva do encantamento.
Perdido na minha certeza de um próximo passado,
De um futuro reconciliado,
Nem vi a roda girar,
Nem senti a sutileza da flor se abrindo,
Nem senti que sou de novo um novo perdido,
Pedindo apenas o mundo pra nós.
17
Sou uma maldita montanha-russa
Pequena, é verdade, mas cheia de curvas.
Repleta de angustia besta.
Repleta de dúvidas triviais, de soluços, de sussurros, de vontades inquietas.
Sou uma montanha-russa de frases ditas e não-ditas, do que foi afirmado e não se deveria.
Sou um “loop” ininterrupto que dá náuseas e ânsias tristes.
Sou uma pequena montanha-russa, sem direção, de sensações e sentimentos acolhidos ou reprimidos.
Sou um trilho vazio, às vezes repleto, carregando comigo apenas os mais fracos que eu...
18
Só quando gozei, percebi.
Foi só quando do clímax,
Percebi a merda toda.
...Essa merda toda!
Toda vez que não dá pra agüentar.
Toda vez que algo ou alguém,
Às vezes nós mesmos,
Não conseguimos parar,
Algo nos cerca o peito
Alguém nos submete a alma.
Foi só depois que gozei
Que o prazer ficou amargo
Como no fundo da língua...
Intenso dentro do corpo,
do consciente perdido,
querendo sem querer.
No fundo, amingua!
19
Será que está sendo infantil?
De que vala essa vida?
O que vale nessa vida?
Fazer o que realmente te importa te sustentará?
De quantas tentativas faz-se o amor?
De quantos “sins” constrói-se felicidade?
Quantos “nãos”, quantas ausências são necessárias?
Quando dizer sim, quando não, quando simplesmente gritar?
Aquele que escreve é apenas aquele atormentado por um sentimento ou sensação.
O que tu sente?
De onde vem tua péssima inspiração?
20
O brilho incesante do olho úmido recortado pela pálpebra cansada, enxergava na penumbra desfocada do pôr-do-sol a silhueta desenhada no laranja do céu.
O aceno de mão seguido do virar de costas confirma ao olho: o fim, revolto em lágrimas contidas, repetidas.
21
Até quando eu devo cair?
Até onde eu devo ir?
Porque eu sinto que aprendi,
Porque eu sinto a lição em mim.
Quero dizer que não estou pronto,
Mas quem está?
Peque esta trilha,
não acredite que sabe o caminho.
Porque você não sabe,
Não sabe, meu amor,
Ninguém sabe...
Desejo tanto que você tivesse
toda a razão do mundo,
Para que eu pudesse pedir rastejando,
Mas sinto que não é assim.
Quero viver toda a vida
Preciso dividí-la com alguém.
Porque ela só cabe em dois,
De dois em dois.
De dois em dois
Até escurecer,
Porque de nada vale o dia se não tivermos nosso “Boa noite”.
Mais que o dia-a-dia,
eu quero a noite para mim,
A noite toda para poder dividir.
Seu lugar ao lado do meu,
Seu lugar amargo ou doce,
Porque é seu lugar e a vida é assim.
Até onde nós chegamos,
Não quero passar de novo com ninguém,
Quero ir mais fundo do que o nosso fim.
22
Continuo eu mesmo: diferente a cada dia.
Diferente e igual, como o mar.
Como a noite e a sua brisa,
Como o bêbado de volta ao bar.
Continuo eu mesmo,
Só o que não muda é essa fraqueza que me prende os braços, que me cala a linguá, que me paralisa as pernas...
23
Quando acordei,o amargo já não era de todo mal.
Talvez eu tenha me encontrado ou perdido, finalmente.
Percebo que o mundo gira, mas não sinto o tempo passar.
Quando acordei, o amargo sou eu e me sinto bem.
Talvez eu tenha me encontrado na perdição.
Percebo que o mundo tem cores, mas todas elas são opacas, sem sabores.
Tenho medo de minha vida ser como ela é, uma obra rodrigueana.
Ao tempo que me perco numa liberdade solitária desacredito mais num romantismo parnasiano.
Não enxergo nem sinto mais os avisos líricos do simbolismo, me vejo frio como o carbono D’augusto dos anjos.
Minha poética é pouca para comparações, só sei que ela não tem mais a alegria que tem o cordel e seus bordões.
24
Essa semana teorizamos sobre a impermanência,
Essa ciência precisa na sua insegurança.
Concluímos que tudo passa, os coletivos passam, os indivíduos passam, as idéias passam...
Pra onde vai tudo isso?
Onde é que cabe essa merda toda que criamos, que somos?, que sonhos vão?, quais ficam um pouquinho mais?
Quem passam juntos, se é isso que importa na impermanência?
Quem passam juntos, diariamente na inconsistência?
25
A ocasião foi tão assim,
Tão decidida, tão certa do fim
Que não sobrou, na hora da partida,
Tempo ou querer suficiente,
Para um último beijo de despedida.
26
Você diz que conseguiu se libertar e que deseja o mesmo para mim. Eu não queria precisar acreditar que tudo aquilo para nós chegou ao fim.
Meu sentimento à pouco era de perpetuar, de manter a coragem e a luta. Mas pra quê lutar a derrota? Pelo romantismo de folhetim?
Quero minha vida de volta. Você acredita que conquistou a sua para si, com outra vida, com Outro caminho.
Vou lutar, mas não por uma derrota heróica.
Te dei de presente de despedida uma promessa de Tróia, uma porta que estaria aberta para o futuro.
Vou gritar como Mel Gibson em Coração Valente: uma morte pela liberdade, sem esperar nada, nem reviver nos mesmos ou em outros braços.
27
De repente, percebi que entrei na caça ao rato.
De repente não sei se sou o roedor ou o gato.
Serpenteando na espiral da vida, preparado para dar o bote.
Mergulho mais fundo no mundo da falta de certezas.
Perdi a inocência de acreditar e o romantismo barato do fundo da lata do meu corpo.
Acho que perdi até a amargura dos últimos dias.
Sem esperanças,
Sem expectativas.
Apenas um alvo no peito.
Que atire a próxima flecha
todas as pecadoras.
Azar de quem acertar...
28
Deus da Inspiração, uma última poesia, por favor!
Uma última tentativa de superar essa dor.
Uma boa inspiração que não me obrigue a sofrer na rima.
Um último angustiante lamento para entrar na vida, nas ondas...
Uma última poesia para exorcizar,
Uma última poesia para abandonar,
Para acreditar na próxima chance.
Uma última poesia que me permita não odiar, que me permita não adiar. Não adiar o cotidiano bom, de novo.
Uma iluminação que me encha, que me lance, que me rogue na experiência de que tudo valeu a pena.
Uma última poesia para todas as crianças bobas como eu, que precisam escrevê-la.
Uma última poesia para que alguém leia e acredite que após uma, virá outra cena...
Amém!
terça-feira, 11 de novembro de 2008
Por Dentro da Máscara de Ferro Parte 3
PARTE III
POR DENTRO DA MÁSCARA-DE-FERRO
Não posso explicar o que estou fazendo sem parecer ridículo. Me encontrei meio perdido, sem saber o que fazer. Só o que vinha à minha cabeça era raiva e fornicação. Raiva e fornicação. Às vezes, uma coisa impedia a outra, mas sentia que algo estava muito errado.
De repente, encontrei a fraqueza dentro de mim mesmo e por um bom tempo, eu gostei. Depois, percebi, realmente, que estava tudo muito errado, mas não consegui mudar. A noite escura me envolvia e eu corri de ré, olhando pra trás, sem sonhos...
Não quero nem preciso explicar essa merda toda. Só quero acertar a cabeça de alguém e encontrar uma desculpa bonita que justifique isso como heroísmo. Afinal de contas, eu sou um herói, ou preciso ser. Herói e vilão de mim mesmo. Procuro uma motivação aqui dentro e só enxergo egoísmo: preciso me salvar...
Não tenho grandes talentos na vida, mas sei que preciso aprender melhor a distinguir o que é certo do errado, aprender a superar conflitos e me sobressair como um vencedor na luta que todos nós travamos. Se existe uma moral nisto tudo, talvez seja apenas isso, e esta noite vou começar a aprender melhor sobre superar a própria vida...
Já estou acostumado a usar a máscara. Ela cai bem em meu rosto, principalmente depois de alguns retoques. O visor não é nenhum quartzo de rubi, mas também não atrapalha minha visão. Também respiro sem problema. Não sou nenhum Darth Vader. Ela serve para proteger e esconder meu rosto. É o suficiente.
Nunca havia parado para pensar como eu tenho coisas aqui que podem me ajudar. Em poucos minutos eu monto um cinto de utilidades com um pequeno maçarico, umas chaves de boca, de roda, outras inglesas, um martelo, pregos e polcas. Ao lado da Nancy estava, inerte, um cano. A arma do crime. Ele caiu muito bem em minhas mãos. Posso carregar tudo isso comigo, e ainda tenho a Kombi. Nela, vai o mais pesado: o antigo 38 do meu velho pai. Para as grandes emergências.
Lembro das longas discussões com Joaquim, tentando me provar que a grande maioria dos super-heróis são loucos. Penso no Rorshach. Penso no próprio Batman. Será que temos de ser loucos para sermos heróis? Será que todos não usamos máscaras? Será que todos não somos loucos? Será que todos não podemos ser heróis? Será que quando ponho esta máscara agora não sou apenas mais verdadeiro que os outros que fingem que estar tudo bem?
Começa a chover lá fora. Já me disseram que a chuva simboliza renascimento. Há dias ameaça chover. Porque esperaram até esta noite?
Abro a porta da garagem. Acendo os faróis do carro. Alguém parece me olhar do outro lado da rua. Sorte dele. Isto é inédito. A origem. A primeira aparição do super-herói. Uma edição raríssima.
Deixo o carro numa esquina próxima. Maldita Theresina com seus prédios sem escadas de incêndio. Acho que não fomos criados mesmo para a cultura dos super-heróis. Para chegar até o teto tenho de subir pelas escadas nos corredores do prédio. Nada heróico. Mal começo.
Mesmo com a máscara eu podia sentir a noite fria e molhada. A lua, desfocada pelas nuvens, ainda conseguia brilhar forte no céu. Eu podia ver meu perfil recortado sob a luz azul da lua e a água da chuva como num desenho de Frank Miller ou Mike Mignola. Eu podia sentir a energia das mãos de um deus criador em cima de mim.
Lembrei de Grant Morrison. Lembrei do Coitote. Eu sou o Coiote e esta noite quero acertar umas contas com a vida. Entender um pouquinho mais a eterna caça violenta que somos obrigados a viver. Entender os caprichos de um Deus.
Como deveria funcionar? Ficar de tocaia, observando, no ponto mais alto do lugar mais perigoso da cidade? Acho que isso era suficiente... Era assim que realmente funcionava. Eu só precisava contar agora com a natureza humana.
Duas horas depois eu descubro o quanto isso é chato. Mais uma hora e meia de espera e eu calculo que só pegaria uma gripe, até que o sereno da madrugada toma outras proporções e anuncia que tudo está apenas começando.
O coração soca o peito com força quando vejo, do outro lado da rua, no prédio residencial mais baixo, as luzes de uma briga. Droga! Marido e mulher, de novo. Mas a situação estava bem pior. Era uma covardia. Muita agressão física desnecessária. Lembrei dos filmes policiais onde os vizinhos ligam denunciando essas situações e algum oficial barrigudo e bigodudo entra na sua viatura reclamando, enquanto derrama seu café e enfia goela abaixo o donnut’s de morango ou chocolate. Afinal, era apenas uma crise domiciliar.
Penso em descer as escadas, atravessar a rua, subir as escadas do prédio vizinho e bater na porta do apartamento, mas acho que não seria muito heróico. Pena que não há clarabóias por aqui, então conto as janelas para não errar.
Quando olho para o abismo entre os prédios, tenho a impressão de que o lixão lá no fundo está olhando para dentro de mim.
Era esse o momento: o início de uma lenda ou o fim, pouco depois de começar...
Antes de correr para saltar eu lembrei do Neo no primeiro Matrix e percebi o quanto minha cabeça está cheia de cultura pop enlatada e, por um instante, pude me orgulhar disso sem me sentir culpado por alguma coisa existencial. Quando começo a correr lembro que o Neo caiu de cara no chão quando tentou algo parecido pela primeira vez. Oh-ou! Nada bom...
Eu salto.
Nada me prende ou segura no ar.
Magia.
O vidro estilhaça ao contato com minha bota. Agradeço a carga dramática pela janela ter vidro. Entro na sala do apartamento. O impulso da queda me faz rolar.
Paro como uma aranha. Faço uma pausa teatral antes de levantar calmamente a máscara.
Cacos de vidro escorrem do meu ombro. A cena é impressionante... Pena, porque só agora percebo, olhando para a garotinha à minha frente, que errei a merda da janela.
“Aaaaaah!”.
A garotinha grita. Eu não sabia se tapava sua boca com as mãos ou se saia correndo. Como não apareceu ninguém, achei melhor fingir que não era comigo. “Desculpe, desculpe...”, e fui saindo pela porta. “Aaaaaah!”, ela continuava numa única e assustadora nota interminável.
Erro de cálculo. Tudo bem. Azar de principiante. Uma janela acima ou à baixo. Tento na de cima. Ao subir os vinte e cinco lances da escada com um único salto, pude ouvir o barulho das mobílias sendo destruídas por trás da porta à minha frente. Eles nem se importavam com o grito da criança histérica.
Ok! Segunda chance de uma grande entrada. Pulo contra a porta. O ombro contra a madeira. “BUMP!” Meu corpo contra o chão do corredor. Tenho de me segurar no corrimão para não cair escada abaixo... Tudo isso só parece retardar o fim do terrível sofrimento da vítima dentro do apartamento.
─ O que você tá fazendo nesta porta?, gritou uma voz rouca de mulher.
─ Mas querida, você não ouviu baterem?, respondeu a voz do baixinho.
─ Você tá querendo escapar da conversa, seu vagabundo?, uma palma enorme atinge o ouvido dele, e eu até pude ouvir um zumbido no ar. A criaturinha minúscula tropeçou nos próprios pés e cambaleou pelo corredor, tentando equilibrar-se com os braços estendidos como uma vara de equilibrista. ─ Deve ser um desses seus amigos vagabundos que aparecem por aqui pra ti salvar o pescoço. Olhe, mas você se cuide, neguinho, se cuide!
“BAM!”. Fecha a porta.
─ Cara, tu tá lascado, disse.
─ Nah! Bobagem...
O carinha levava na esportiva. Com uma mão coçando o ouvido e a outra tentando subir as calças derreadas abaixo dos quadris, ele até esboçava um sorriso.
─ De qualquer forma, muito obrigado, agradeceu.
─ Não há de quê...
─ A propósito, por que tu tá com essa máscara de solda na cabeça?
─ Pra proteger meu rosto e minha identidade.
─ Pra quê?
─ Super-herói...
─ Ãh... Fantasia de carnaval?
─ Não! Super-herói, mesmo...
Só agora noto que o grito hiper-sônico da garotinha parou... A tempo apenas de perceber o que aconteceria depois.
─ Foi isto aqui, filhinha?
─ Fôôôi, pai!
Dengosa maldita.
Engrenagens de carne com cinco pontos de pressão fecharam sobre minha gola. Queria saber ao certo quantos malditos degraus haviam naquela escada. Minhas costas ainda doem. Não sabia mais onde começavam minhas pernas. Ele era um verdadeiro troll, um golen, um gárgula, um orc, uma criatura tolkieniana... E estava só de toalha, ensaboado. Quando saltou lá de cima, apontando seu joelho para meu estômago, eu pude comprovar que ele estava, realmente, só de toalha.
Meu umbigo nunca mais foi o mesmo. Instantaneamente, o ácido do meu estômago, misturado ao cuscuz, espirrou pela minha garganta num jato forte, mas não encontrou escape fácil, tendo de escorrer pela máscara.
“Ooouuurg...”, implorei.
Caminhar até o carro foi a parte mais difícil. Havia sido minha primeira noite como super-herói e eu sabia, acreditava que nem só em vitórias vive-se o cotidiano, por isso voltei feliz até o carro, pensando nos pontos positivos que conseguia enxergar. Primeiro, impedi aquela mulher infernal de continuar abusando de seu pacato marido. Segundo, havia finalmente começado. Eu era o Máscara-de-Ferro.
Na manhã seguinte:
─ Tu tá um caco! Que houve contigo, cara?
─ Nada, não..., respondi.
Faz parte do dia-a-dia dos mascarados esconder dos amigos sua identidade secreta.
─ Olha aqui, Joaquim...
─ O quê?
─ O que você está vendo?
─ Tu? Tua máscara de solda?, perguntou sem entender.
─ Eu sou o Máscara-de-Ferro...
Falei com um sussurro, como Michael Keaton no primeiro Batman de Tim Burton. Não pude manter o segredo.
─ Tu quê?
─ Sou o Máscara-de-Ferro. Máscara-de-Ferro! Não tá vendo?
─ Tou? É...?
Era difícil, mas eu esperava que o Joaquim entendesse. Ele foi forjado no mesmo fogo que eu, apesar ter se desviado do caminho e começado a apreciar quadrinhos afeminados, sentimentalistas e chorões, eu sabia que podia contar com o apoio dele.
─ Eu sou um super-herói.
─ Como é que é?
─ Ontem a noite eu sai. Estava chovendo forte. Eu saltei de um prédio para outro. Entrei no apartamento de alguém pela janela e impedi que uma psicopata assassinasse um pobre coitado.
Propositalmente, omiti algumas coisas e exagerei outras.
─ Você tá brincando?
─ Nunca falei tão sério em minha vida.
─ Você se mascarou e saiu por aí, como um vigilante?
─ Isso.
─ Como assim? Com qual sentido?
─ Mas eu já te falei. Eu gosto de ajudar...
─ Hã?
─ E-eu gosto de ajudar as pessoas. Me sinto mais útil que aqui, nesta oficina, onde só ganho dinheiro. Estou fazendo algo realmente prazeroso...
─ Mas isso é loucura. É ficção! Quantas pessoas você conhece que fazem isso?
─ Dezenas, centenas de super-heróis...
─ Pessoas, Cleiton. Estou falando de pessoas como a gente... Não gente de papel, bidimensional, sem profundidade.
─ Que decepção!
─ Como assim?
─ Pensei que você entenderia...
─ Mas não tem sentido.
─ Quer saber, não há o que entender. Escolhi fazer isso como alguém escolhe ajudar um cego a atravessar a rua, ou uma dondoca rica que começa a fazer sopões aos pobres, tentando achar um lugar no céu... Eu escolhi.
─ Tu quer um lugar no céu? Só isso?
Preferi não responder.
─ Tu não tem grandes poderes nem responsabilidades, teus pais não foram assassinados. Tu só perdeu a namorada. Coisa de adolescente. Isso acontece e passa. Simplesmente, não tem sentido. Sem lógica. Mal escrito.
─ Alguma vez, da altura desses teus vinte e poucos anos, tu já sentiu alguma maldita certeza de que queria fazer alguma coisa na vida e que só o que te impedia era tu mesmo? Alguma vez tu sentiu que poderia viver com isso por que a vida te dava todas as possibilidades pra isso acontecer? Sair por aí, como se alguma coisa tivesse te escolhido e que você não se sente nem um pouco usado em si dividir com isso, como se tivesse nascido e sido preparado para isso? Cúmplice.
─ PORRA! TU É UM MECÂNICO!
─ QUE MERDA! Qual o sentido em fazer uma viagem pelo Piauí num carro vermelho? Me diz! Qual o sentido? Sentir o vento no cabelo? Se furar o pneu, remendar? E depois, voltar pra casa? Qual o sentido nessa merda toda? Em passar os dias consertando os carros dos outros?
Acho que pisei em ferida aberta. Ele olhou para o chão. Riscou um círculo na areia com a ponta do pé. É estranho. Todo esse silêncio depois duma gritaria... Então, ele perguntou:
─ E essa Kombi? Vai precisar de uns reparos se quiser se comparar ao Batmovel...
Era tudo que eu precisava ouvir.
Os dias em Theresina são tão quentes, que quando amanhecem como os dias de janeiro, úmidos e nublados, com cheiro de molhado, depois de uma madrugada chorona, quando o céu amanhece cinza e não azul, quando o sol surge opaco e não inclemente, raras vezes no ano, nós agradecemos. Hoje foi um dia assim. Onze da manhã parecia seis e meia. Eu estava soldando uma placa de aço na lateral da Kombi. Um reforço para o serviço noturno. Uma Kombi blindada.
Era janeiro. Normalmente é período de férias. Mas eram os últimos dias. Período especial, sei lá, por isso não me surpreendi tanto quando vi estudantes descendo do ônibus. Eles foram migrando, devagar. Eu sabia que devia continuar olhando. Ela não estava parada, mas caminhava bem devagar, distanciando-se lentamente dos outros, como se estivesse boiando na correnteza.
Eu estava com a máscara. Ela, do outro lado da rua. Olhando e fingindo não olhar. Não olhando, querendo encarar, mas eu estava com a máscara e, mesmo com ela, eu podia ver bem seu rosto. Depois de sete anos, eu via seu rosto limpo e não a enxergava. Depois de sete anos ela era uma nova estranha. Eu via uma máscara. Vi que não a conheci profundamente e, mesmo sabendo o sabor do seu sorvete preferido, como ela gostava de se vestir quando ia arrumar a casa ou cozinhar, mesmo sabendo como ficava seu rosto quando ela sorria ou quando estava zangada, mesmo sabendo que o brilho dos seus olhos já foram intensos por mim e como a fazia infeliz por não saber acompanhar a dança da sua música, mesmo sabendo o gosto de cada centímetro de seu corpo, até como ficavam seus dedos enrolados no lençol e sua boca úmida quando ia dormir, eu sabia que não a conhecia e que nunca a conheceria profundamente o suficiente para que esta impressão da máscara em seu rosto sumisse. Eu olho para os outros ao seu redor, penso no Joaquim, nos meus velhos pais, em mim mesmo, e sinto a mesma coisa.
Mesmo com a máscara, ela sabia que era eu, mas não podia ver meu rosto. Não poderia ser enganada por ele, pelo meu rosto. Ele era de ferro. Ela não fazia a menor idéia de como eu estava por dentro, por dentro da máscara de ferro.
Era a primeira vez que a via desde uns três ou quatro meses. Um sentimento forte apossou-se de mim. Consumiu-me. Devorou-me. Eu levantei. Deixei a solda de oxigênio no chão. Ela estava do outro lado da rua. Pensei em tudo pelo que havia passado nos últimos seis meses. Levantei a mão. Acenei.
─ Feliz ano novo! Muito boa sorte.
Ela não fazia a menor idéia de como eu estava por dentro, por dentro da máscara de ferro, mas agora ela podia imaginar que eu estava sorrindo, porque eu estava. Mas ela não via meu rosto. Não via as curvas do meu rosto desejando, com sinceridade, que ela fosse feliz. Nunca vai conseguir ver por trás da máscara que eu agora só tenho a esperança que todo o tempo que passamos juntos funcione como uma experiência incrível da jornada de nossas vidas e que, pensar nisso, dessa forma, faz tudo valer a pena.
Ela sorriu.
FIM
POR DENTRO DA MÁSCARA-DE-FERRO
Não posso explicar o que estou fazendo sem parecer ridículo. Me encontrei meio perdido, sem saber o que fazer. Só o que vinha à minha cabeça era raiva e fornicação. Raiva e fornicação. Às vezes, uma coisa impedia a outra, mas sentia que algo estava muito errado.
De repente, encontrei a fraqueza dentro de mim mesmo e por um bom tempo, eu gostei. Depois, percebi, realmente, que estava tudo muito errado, mas não consegui mudar. A noite escura me envolvia e eu corri de ré, olhando pra trás, sem sonhos...
Não quero nem preciso explicar essa merda toda. Só quero acertar a cabeça de alguém e encontrar uma desculpa bonita que justifique isso como heroísmo. Afinal de contas, eu sou um herói, ou preciso ser. Herói e vilão de mim mesmo. Procuro uma motivação aqui dentro e só enxergo egoísmo: preciso me salvar...
Não tenho grandes talentos na vida, mas sei que preciso aprender melhor a distinguir o que é certo do errado, aprender a superar conflitos e me sobressair como um vencedor na luta que todos nós travamos. Se existe uma moral nisto tudo, talvez seja apenas isso, e esta noite vou começar a aprender melhor sobre superar a própria vida...
Já estou acostumado a usar a máscara. Ela cai bem em meu rosto, principalmente depois de alguns retoques. O visor não é nenhum quartzo de rubi, mas também não atrapalha minha visão. Também respiro sem problema. Não sou nenhum Darth Vader. Ela serve para proteger e esconder meu rosto. É o suficiente.
Nunca havia parado para pensar como eu tenho coisas aqui que podem me ajudar. Em poucos minutos eu monto um cinto de utilidades com um pequeno maçarico, umas chaves de boca, de roda, outras inglesas, um martelo, pregos e polcas. Ao lado da Nancy estava, inerte, um cano. A arma do crime. Ele caiu muito bem em minhas mãos. Posso carregar tudo isso comigo, e ainda tenho a Kombi. Nela, vai o mais pesado: o antigo 38 do meu velho pai. Para as grandes emergências.
Lembro das longas discussões com Joaquim, tentando me provar que a grande maioria dos super-heróis são loucos. Penso no Rorshach. Penso no próprio Batman. Será que temos de ser loucos para sermos heróis? Será que todos não usamos máscaras? Será que todos não somos loucos? Será que todos não podemos ser heróis? Será que quando ponho esta máscara agora não sou apenas mais verdadeiro que os outros que fingem que estar tudo bem?
Começa a chover lá fora. Já me disseram que a chuva simboliza renascimento. Há dias ameaça chover. Porque esperaram até esta noite?
Abro a porta da garagem. Acendo os faróis do carro. Alguém parece me olhar do outro lado da rua. Sorte dele. Isto é inédito. A origem. A primeira aparição do super-herói. Uma edição raríssima.
Deixo o carro numa esquina próxima. Maldita Theresina com seus prédios sem escadas de incêndio. Acho que não fomos criados mesmo para a cultura dos super-heróis. Para chegar até o teto tenho de subir pelas escadas nos corredores do prédio. Nada heróico. Mal começo.
Mesmo com a máscara eu podia sentir a noite fria e molhada. A lua, desfocada pelas nuvens, ainda conseguia brilhar forte no céu. Eu podia ver meu perfil recortado sob a luz azul da lua e a água da chuva como num desenho de Frank Miller ou Mike Mignola. Eu podia sentir a energia das mãos de um deus criador em cima de mim.
Lembrei de Grant Morrison. Lembrei do Coitote. Eu sou o Coiote e esta noite quero acertar umas contas com a vida. Entender um pouquinho mais a eterna caça violenta que somos obrigados a viver. Entender os caprichos de um Deus.
Como deveria funcionar? Ficar de tocaia, observando, no ponto mais alto do lugar mais perigoso da cidade? Acho que isso era suficiente... Era assim que realmente funcionava. Eu só precisava contar agora com a natureza humana.
Duas horas depois eu descubro o quanto isso é chato. Mais uma hora e meia de espera e eu calculo que só pegaria uma gripe, até que o sereno da madrugada toma outras proporções e anuncia que tudo está apenas começando.
O coração soca o peito com força quando vejo, do outro lado da rua, no prédio residencial mais baixo, as luzes de uma briga. Droga! Marido e mulher, de novo. Mas a situação estava bem pior. Era uma covardia. Muita agressão física desnecessária. Lembrei dos filmes policiais onde os vizinhos ligam denunciando essas situações e algum oficial barrigudo e bigodudo entra na sua viatura reclamando, enquanto derrama seu café e enfia goela abaixo o donnut’s de morango ou chocolate. Afinal, era apenas uma crise domiciliar.
Penso em descer as escadas, atravessar a rua, subir as escadas do prédio vizinho e bater na porta do apartamento, mas acho que não seria muito heróico. Pena que não há clarabóias por aqui, então conto as janelas para não errar.
Quando olho para o abismo entre os prédios, tenho a impressão de que o lixão lá no fundo está olhando para dentro de mim.
Era esse o momento: o início de uma lenda ou o fim, pouco depois de começar...
Antes de correr para saltar eu lembrei do Neo no primeiro Matrix e percebi o quanto minha cabeça está cheia de cultura pop enlatada e, por um instante, pude me orgulhar disso sem me sentir culpado por alguma coisa existencial. Quando começo a correr lembro que o Neo caiu de cara no chão quando tentou algo parecido pela primeira vez. Oh-ou! Nada bom...
Eu salto.
Nada me prende ou segura no ar.
Magia.
O vidro estilhaça ao contato com minha bota. Agradeço a carga dramática pela janela ter vidro. Entro na sala do apartamento. O impulso da queda me faz rolar.
Paro como uma aranha. Faço uma pausa teatral antes de levantar calmamente a máscara.
Cacos de vidro escorrem do meu ombro. A cena é impressionante... Pena, porque só agora percebo, olhando para a garotinha à minha frente, que errei a merda da janela.
“Aaaaaah!”.
A garotinha grita. Eu não sabia se tapava sua boca com as mãos ou se saia correndo. Como não apareceu ninguém, achei melhor fingir que não era comigo. “Desculpe, desculpe...”, e fui saindo pela porta. “Aaaaaah!”, ela continuava numa única e assustadora nota interminável.
Erro de cálculo. Tudo bem. Azar de principiante. Uma janela acima ou à baixo. Tento na de cima. Ao subir os vinte e cinco lances da escada com um único salto, pude ouvir o barulho das mobílias sendo destruídas por trás da porta à minha frente. Eles nem se importavam com o grito da criança histérica.
Ok! Segunda chance de uma grande entrada. Pulo contra a porta. O ombro contra a madeira. “BUMP!” Meu corpo contra o chão do corredor. Tenho de me segurar no corrimão para não cair escada abaixo... Tudo isso só parece retardar o fim do terrível sofrimento da vítima dentro do apartamento.
─ O que você tá fazendo nesta porta?, gritou uma voz rouca de mulher.
─ Mas querida, você não ouviu baterem?, respondeu a voz do baixinho.
─ Você tá querendo escapar da conversa, seu vagabundo?, uma palma enorme atinge o ouvido dele, e eu até pude ouvir um zumbido no ar. A criaturinha minúscula tropeçou nos próprios pés e cambaleou pelo corredor, tentando equilibrar-se com os braços estendidos como uma vara de equilibrista. ─ Deve ser um desses seus amigos vagabundos que aparecem por aqui pra ti salvar o pescoço. Olhe, mas você se cuide, neguinho, se cuide!
“BAM!”. Fecha a porta.
─ Cara, tu tá lascado, disse.
─ Nah! Bobagem...
O carinha levava na esportiva. Com uma mão coçando o ouvido e a outra tentando subir as calças derreadas abaixo dos quadris, ele até esboçava um sorriso.
─ De qualquer forma, muito obrigado, agradeceu.
─ Não há de quê...
─ A propósito, por que tu tá com essa máscara de solda na cabeça?
─ Pra proteger meu rosto e minha identidade.
─ Pra quê?
─ Super-herói...
─ Ãh... Fantasia de carnaval?
─ Não! Super-herói, mesmo...
Só agora noto que o grito hiper-sônico da garotinha parou... A tempo apenas de perceber o que aconteceria depois.
─ Foi isto aqui, filhinha?
─ Fôôôi, pai!
Dengosa maldita.
Engrenagens de carne com cinco pontos de pressão fecharam sobre minha gola. Queria saber ao certo quantos malditos degraus haviam naquela escada. Minhas costas ainda doem. Não sabia mais onde começavam minhas pernas. Ele era um verdadeiro troll, um golen, um gárgula, um orc, uma criatura tolkieniana... E estava só de toalha, ensaboado. Quando saltou lá de cima, apontando seu joelho para meu estômago, eu pude comprovar que ele estava, realmente, só de toalha.
Meu umbigo nunca mais foi o mesmo. Instantaneamente, o ácido do meu estômago, misturado ao cuscuz, espirrou pela minha garganta num jato forte, mas não encontrou escape fácil, tendo de escorrer pela máscara.
“Ooouuurg...”, implorei.
Caminhar até o carro foi a parte mais difícil. Havia sido minha primeira noite como super-herói e eu sabia, acreditava que nem só em vitórias vive-se o cotidiano, por isso voltei feliz até o carro, pensando nos pontos positivos que conseguia enxergar. Primeiro, impedi aquela mulher infernal de continuar abusando de seu pacato marido. Segundo, havia finalmente começado. Eu era o Máscara-de-Ferro.
Na manhã seguinte:
─ Tu tá um caco! Que houve contigo, cara?
─ Nada, não..., respondi.
Faz parte do dia-a-dia dos mascarados esconder dos amigos sua identidade secreta.
─ Olha aqui, Joaquim...
─ O quê?
─ O que você está vendo?
─ Tu? Tua máscara de solda?, perguntou sem entender.
─ Eu sou o Máscara-de-Ferro...
Falei com um sussurro, como Michael Keaton no primeiro Batman de Tim Burton. Não pude manter o segredo.
─ Tu quê?
─ Sou o Máscara-de-Ferro. Máscara-de-Ferro! Não tá vendo?
─ Tou? É...?
Era difícil, mas eu esperava que o Joaquim entendesse. Ele foi forjado no mesmo fogo que eu, apesar ter se desviado do caminho e começado a apreciar quadrinhos afeminados, sentimentalistas e chorões, eu sabia que podia contar com o apoio dele.
─ Eu sou um super-herói.
─ Como é que é?
─ Ontem a noite eu sai. Estava chovendo forte. Eu saltei de um prédio para outro. Entrei no apartamento de alguém pela janela e impedi que uma psicopata assassinasse um pobre coitado.
Propositalmente, omiti algumas coisas e exagerei outras.
─ Você tá brincando?
─ Nunca falei tão sério em minha vida.
─ Você se mascarou e saiu por aí, como um vigilante?
─ Isso.
─ Como assim? Com qual sentido?
─ Mas eu já te falei. Eu gosto de ajudar...
─ Hã?
─ E-eu gosto de ajudar as pessoas. Me sinto mais útil que aqui, nesta oficina, onde só ganho dinheiro. Estou fazendo algo realmente prazeroso...
─ Mas isso é loucura. É ficção! Quantas pessoas você conhece que fazem isso?
─ Dezenas, centenas de super-heróis...
─ Pessoas, Cleiton. Estou falando de pessoas como a gente... Não gente de papel, bidimensional, sem profundidade.
─ Que decepção!
─ Como assim?
─ Pensei que você entenderia...
─ Mas não tem sentido.
─ Quer saber, não há o que entender. Escolhi fazer isso como alguém escolhe ajudar um cego a atravessar a rua, ou uma dondoca rica que começa a fazer sopões aos pobres, tentando achar um lugar no céu... Eu escolhi.
─ Tu quer um lugar no céu? Só isso?
Preferi não responder.
─ Tu não tem grandes poderes nem responsabilidades, teus pais não foram assassinados. Tu só perdeu a namorada. Coisa de adolescente. Isso acontece e passa. Simplesmente, não tem sentido. Sem lógica. Mal escrito.
─ Alguma vez, da altura desses teus vinte e poucos anos, tu já sentiu alguma maldita certeza de que queria fazer alguma coisa na vida e que só o que te impedia era tu mesmo? Alguma vez tu sentiu que poderia viver com isso por que a vida te dava todas as possibilidades pra isso acontecer? Sair por aí, como se alguma coisa tivesse te escolhido e que você não se sente nem um pouco usado em si dividir com isso, como se tivesse nascido e sido preparado para isso? Cúmplice.
─ PORRA! TU É UM MECÂNICO!
─ QUE MERDA! Qual o sentido em fazer uma viagem pelo Piauí num carro vermelho? Me diz! Qual o sentido? Sentir o vento no cabelo? Se furar o pneu, remendar? E depois, voltar pra casa? Qual o sentido nessa merda toda? Em passar os dias consertando os carros dos outros?
Acho que pisei em ferida aberta. Ele olhou para o chão. Riscou um círculo na areia com a ponta do pé. É estranho. Todo esse silêncio depois duma gritaria... Então, ele perguntou:
─ E essa Kombi? Vai precisar de uns reparos se quiser se comparar ao Batmovel...
Era tudo que eu precisava ouvir.
Os dias em Theresina são tão quentes, que quando amanhecem como os dias de janeiro, úmidos e nublados, com cheiro de molhado, depois de uma madrugada chorona, quando o céu amanhece cinza e não azul, quando o sol surge opaco e não inclemente, raras vezes no ano, nós agradecemos. Hoje foi um dia assim. Onze da manhã parecia seis e meia. Eu estava soldando uma placa de aço na lateral da Kombi. Um reforço para o serviço noturno. Uma Kombi blindada.
Era janeiro. Normalmente é período de férias. Mas eram os últimos dias. Período especial, sei lá, por isso não me surpreendi tanto quando vi estudantes descendo do ônibus. Eles foram migrando, devagar. Eu sabia que devia continuar olhando. Ela não estava parada, mas caminhava bem devagar, distanciando-se lentamente dos outros, como se estivesse boiando na correnteza.
Eu estava com a máscara. Ela, do outro lado da rua. Olhando e fingindo não olhar. Não olhando, querendo encarar, mas eu estava com a máscara e, mesmo com ela, eu podia ver bem seu rosto. Depois de sete anos, eu via seu rosto limpo e não a enxergava. Depois de sete anos ela era uma nova estranha. Eu via uma máscara. Vi que não a conheci profundamente e, mesmo sabendo o sabor do seu sorvete preferido, como ela gostava de se vestir quando ia arrumar a casa ou cozinhar, mesmo sabendo como ficava seu rosto quando ela sorria ou quando estava zangada, mesmo sabendo que o brilho dos seus olhos já foram intensos por mim e como a fazia infeliz por não saber acompanhar a dança da sua música, mesmo sabendo o gosto de cada centímetro de seu corpo, até como ficavam seus dedos enrolados no lençol e sua boca úmida quando ia dormir, eu sabia que não a conhecia e que nunca a conheceria profundamente o suficiente para que esta impressão da máscara em seu rosto sumisse. Eu olho para os outros ao seu redor, penso no Joaquim, nos meus velhos pais, em mim mesmo, e sinto a mesma coisa.
Mesmo com a máscara, ela sabia que era eu, mas não podia ver meu rosto. Não poderia ser enganada por ele, pelo meu rosto. Ele era de ferro. Ela não fazia a menor idéia de como eu estava por dentro, por dentro da máscara de ferro.
Era a primeira vez que a via desde uns três ou quatro meses. Um sentimento forte apossou-se de mim. Consumiu-me. Devorou-me. Eu levantei. Deixei a solda de oxigênio no chão. Ela estava do outro lado da rua. Pensei em tudo pelo que havia passado nos últimos seis meses. Levantei a mão. Acenei.
─ Feliz ano novo! Muito boa sorte.
Ela não fazia a menor idéia de como eu estava por dentro, por dentro da máscara de ferro, mas agora ela podia imaginar que eu estava sorrindo, porque eu estava. Mas ela não via meu rosto. Não via as curvas do meu rosto desejando, com sinceridade, que ela fosse feliz. Nunca vai conseguir ver por trás da máscara que eu agora só tenho a esperança que todo o tempo que passamos juntos funcione como uma experiência incrível da jornada de nossas vidas e que, pensar nisso, dessa forma, faz tudo valer a pena.
Ela sorriu.
FIM
Por Dentro da Máscara de Ferro Parte 2
PARTE II
NOVOS SONHOS OU A AUSÊNCIA DELES
Quando aconteceu haviam passados alguns meses após o término do namoro. Precisava entender o que estava acontecendo. Não queria se enganar de novo nem enganar ninguém.
Por que toda garota nos primeiros encontros quer saber dos relacionamentos anteriores, do outro? Por que ele tinha de ser tão sincero se ela era tudo o que ele queria naquele momento: conforto? Talvez porque ele acreditasse que havia mais além do conforto que ele não podia acreditar que estava acontecendo. Assim, tão cedo?
Ele contou tudo que podia, tudo que queria ter contado daquela vez que tentou convencê-la a voltar. No fim, parecia a si mesmo que tentava exorcizar o querer e dar uma nova chance às ondas do mar o levarem...
...Mas não poderia arriscar-se a ser um náufrago e nem um pirata pretenso e faminto a ancorar na primeira ilha vistosa. E o pior é que ela sabia disto. Essa gaiata era muito esperta.
Divertiram-se enquanto puderam. Mesmo ele cedendo e pedindo, ela era esperta. Ficaram sem marcar compromissos. Estava bom assim. Sem expectativas ou esperanças...
─ Vai precisar rebocar.
─ Rebocar?!?
─ Éh...O estrago aqui foi feio. Preciso abrir o motor.
─ Não dá pra trazer as ferramentas aqui?
─ Cê sabe que o bairro aqui é perigoso, tá anoitecendo...e...Não dá mesmo!
─ Certo, certo...
A Kombi não era o carro certo para o serviço, mas era o que Cleiton tinha. Duas voltas da corda puxavam a velha parati. Não demoraram chegar. A oficina ainda estava um chiqueiro de porco. O cliente torceu o nariz: era demais, mesmo para uma oficina de esquina.
─ Que merda, heim?
─ Com toda certeza, patrão. Diga um negócio: o senhor tem tempo para esperar aqui pelo serviço ou volta daqui uma semana?
Estava de volta ao trabalho.
Algo ainda corroia-lhe a alma. Sentia-se envenenado. Achava que, apesar das cobranças dela para que ele estivesse mais presente, de si reclamar sentindo-se sozinha, achava que estavam progredindo. Os sonhos só aumentavam: morar juntos, escolher a mobília nova, onde ficariam suas coisas velhas, uma pequena reforma na casa, as conversas sérias com os pais da garota, tudo desembocava num futuro breve e unido. Ela esperou demais para terminar. Esperou demais até a semente germinar, a raiz enraizar... Mas o solo não parecia fértil para ela. A raiz arrancou, mas a cicatriz foi profunda.
Na verdade, apesar dos avisos, o sonho ruiu de uma frase para outra: um instante. Ela só precisava entender que ele precisava dela para dizer adeus também. Só precisava que ela entendesse e aceitasse aquele presente de despedidas, aquele cavalo de Tróia que ela não suportou. Se ela fosse forte o suficiente o aceitaria e faria o que quisesse com ele. Por que ela não aceitou aquele presente? “Fraca!”. Por que ela o fez acreditar em sonhos perdidos? “Falsa!”. Ele não queria, mas odiá-la era a saída mais fácil e ele sempre tendeu para o lado da fraqueza humana.
“Tém! Tém!”.
Marteladas no ar.
A oficina, depois do furacão de destruição das últimas semanas, encontrava-se, pelo menos, desarrumada como antigamente. A maior diferença que chamava a atenção de todos que costumavam passar por ali no último ano era a destruição e o desprezo pelo maverick vermelho num canto da oficina. Durante todo esse tempo ele fora o xodó do local. Os clientes mais próximos apostavam se o carro voltaria a andar, se o mecânico era bom o suficiente. Hoje, não havia mais o que discutir. Apostas encerradas. Quem ganhou, ganhou. Cleiton desistiu...
Mais de seis meses haviam se passado. Sem o carro para consertar, Joaquim ausentara-se durante um tempo considerável. Cada um esteve em seu canto, contando pedras...
─ Como estamos?
─ Estamos bem, Joaquim, respondeu a voz de dentro de um quarto com a porta entreaberta, durante o intervalo das marteladas, como se o tivesse visto ontem.
“Tém! Tém!”
─ O que está fazendo?
─ Serviço rotineiro..., enquanto saia da sala, esfregando as mãos no jeans da calça.
─ Voltou a trabalhar?
─ É preciso... Mas ultimamente tenho pensado em tentar coisa nova...
─ Como assim? Largar a oficina? Tu sabe fazer outra coisa da vida?, Joaquim sentou-se no capô amassado da falida Nancy.
─ Largar, largar mesmo, eu não queria. Preciso do dinheiro...
─ É uma merda, né?
─ O quê?
─ Precisar do dinheiro...
─ Nem fale, Joaquim... Mas ‘tou revendo meu tempo, sabe? Deixar as mulheres da minha vida ─ pôs a mão no carro e continuou depois de um suspiro ─ ...me deu um buracão. Ano novo e eu nunca estive tão perdido, sem perspectiva...
─ Caindo no buraco...
─ Pois é.
─ Mas e aí?
─ O problema é esse: não sei o que eu quero. Só sei que preciso sair dessa oficina vez ou outra, arrumar um outro trampo completamente diferente, trabalhar meio expediente...
─ Ou meio-meio expediente, caramba! Tu é teu patrão!
─ Pelo menos isso.
─ Um novo sonho?
─ ...Ou a ausência dele...
─ É, talvez seja apenas isso: a falta de expectativas gera o fim das decepções que pode levar à felicidade constante...
─ É, mas vâmo parar por aqui? Deixar de frescura?
Ela costumava passar diariamente por ali. Quando ia assistir suas aulas. Os ônibus velhos passavam, ela poderia estar ali. Grupos de alunos desciam andando em coletivos, ela poderia estar ali, passando, diariamente em frente à oficina.
As mãos nos bolsos. Um andar descompromissado. Uma noite de janeiro, de nuvens grossas, clareadas por uma lua escondida em degradê no escuro do céu e na densidade do ar que ameaçava uma forte precipitação.
O invisível em frente aos olhos, guiando. O inesperado em cada esquina. O silêncio dos sons noturnos da natureza. A calmaria, tão conhecida, que precede a tempestade.
─ Me solta, seu estúpido!, exigia a mulher.
Não estava muito longe. Pôde ouvir muito bem, o pedido. Achou comum, que não deveria se importar...
─ Eu disse: me solta, porra!, agora mais alto.
─ Te aqueta, égua!
O estralo de um tapa com a mão aberta no rosto de alguém, seguido do cair surdo de um corpo grande no chão.
Agora ele pôde ver, da esquina, ainda com as mãos nos bolsos. Ela, no chão. Uma mulher corpulenta, de seios cheios, bochecha corada pelo tapa. Ele, o outro cara: um perfeito estúpido mesmo.
─ O que tá olhando? É minha mulher..., falou como que se justificando.
Baixou a cabeça e continuou com os mesmos passos sem direção. Cruzou com os dois. “SLAP”! Outro tapa.
─ Levanta!
─ ...O-o senhor, n-não deveria. Não deveria...
─ O que foi, rapah? Quer ser heroizinho hoje, é?
─ E-eu acho que, simplesmente, o senhor...hã...Não de-deveria...
A mulher no chão esboçou um sorriso. Cleiton percebeu. Ela estava rindo dele. Ele não conseguiu não demonstrar indignação com isso. Ela percebeu. Piorou. Começou a gargalhar. O Estúpido olhou para a mulher e começou a sorrir também. Ele, o próprio Cleiton, não se conteve: viu graça, no início contida, depois explodiu como a mulher, num riso muito gostoso. Afinal, que idiotice! O que ele esperava conseguir?
─ Ontem aconteceu algo estranho, Joaquim.
─ O quê?
─ Eu quis me meter numa briga de casal, de marido e mulher...
─ Como?
─ Assim: ela tava lá, apanhando, eu, passando por ali, vi tudo e disse pra ele que não deveria fazer aquilo...
─ E aí?
─ Bom, todo mundo começou a rir. Eu tava com cara de panaca.
─ E ele parou?
─ Enquanto eu tava lá, sim...
─ Então, funcionou?
─ O importante é que eu gostei disso, entende?
─ O quê? Meter a colher?
─ Nããão! Quer dizer: sim! Gostei de ajudar. Gosto de ajudar as pessoas...
─ Iih...Sei não...
─ É sério! Acho que eu poderia ser policial...
─ Mas com essa cara de panaca? Qual é que seria? Tu ia fazer todos os mala sorrirem até tu conseguir algemá-los?
─ Porra! É sério, heim? Falar contigo é foda!
Ela poderia passar por lá todos os dias. É verdade que ele estava sempre ocupado atendendo alguém ou, muitas vezes, não estava por lá, indo trabalhar na casa dos clientes. Muitas vezes, na maioria delas, a atenção dele estava com a Nancy. Mas ela poderia passar por ali, estar por ali, ficar por ali, com igual ou maior freqüência que ele dispunha dentro da casa dela. Faria toda a diferença. Mas a questão não era apenas física. Ela queria com ele sua própria Nancy e não enxergava dedicação suficiente. Ela não enxergava, mas ele já acreditava com força nos sonhos que ela oferecia pra ele, acordada.
Transformação. Reinício. Justificar a alteração da alma numa chuva de janeiro. Mascarar o rosto frágil. Erguer-se com força no anonimato. Provar a si mesmo que é superior ao ódio. Submeter o ódio ao exercício de sublimar. Acreditar nas pessoas. Achar um novo caminho na ausência das coisas. Transformar a experiência em energia positiva, sem esperar nada em troca, a não ser superar a si próprio.
Era uma noite como a anterior. Céus densos e sem brilho de estrelas. Raios e trovões completavam o cenário. Começou com chuvisco raquítico que prometia molhar até as primeiras horas da manhã do dia seguinte.
A oficina estava às portas fechadas. O clarão dos relâmpagos iluminava as fachadas rachadas das paredes do quarteirão. Lá dentro, a luz trêmula das luzes incandescentes revelavam o processo de criação.
CA-BUUM!
Retumbavam graves, os trovões.
A garagem abre. Dois faróis acendem, ofuscando os olhos do narrador, por um instante. A Kombi ganha a rua. Dentro dela, pela primeira vez, a alma de um aventureiro encontra um botão de adrenalina escondido, que lhe injeta batidas fortes em seu peito.
É a primeira noite do Máscara-de-Ferro.
NOVOS SONHOS OU A AUSÊNCIA DELES
Quando aconteceu haviam passados alguns meses após o término do namoro. Precisava entender o que estava acontecendo. Não queria se enganar de novo nem enganar ninguém.
Por que toda garota nos primeiros encontros quer saber dos relacionamentos anteriores, do outro? Por que ele tinha de ser tão sincero se ela era tudo o que ele queria naquele momento: conforto? Talvez porque ele acreditasse que havia mais além do conforto que ele não podia acreditar que estava acontecendo. Assim, tão cedo?
Ele contou tudo que podia, tudo que queria ter contado daquela vez que tentou convencê-la a voltar. No fim, parecia a si mesmo que tentava exorcizar o querer e dar uma nova chance às ondas do mar o levarem...
...Mas não poderia arriscar-se a ser um náufrago e nem um pirata pretenso e faminto a ancorar na primeira ilha vistosa. E o pior é que ela sabia disto. Essa gaiata era muito esperta.
Divertiram-se enquanto puderam. Mesmo ele cedendo e pedindo, ela era esperta. Ficaram sem marcar compromissos. Estava bom assim. Sem expectativas ou esperanças...
─ Vai precisar rebocar.
─ Rebocar?!?
─ Éh...O estrago aqui foi feio. Preciso abrir o motor.
─ Não dá pra trazer as ferramentas aqui?
─ Cê sabe que o bairro aqui é perigoso, tá anoitecendo...e...Não dá mesmo!
─ Certo, certo...
A Kombi não era o carro certo para o serviço, mas era o que Cleiton tinha. Duas voltas da corda puxavam a velha parati. Não demoraram chegar. A oficina ainda estava um chiqueiro de porco. O cliente torceu o nariz: era demais, mesmo para uma oficina de esquina.
─ Que merda, heim?
─ Com toda certeza, patrão. Diga um negócio: o senhor tem tempo para esperar aqui pelo serviço ou volta daqui uma semana?
Estava de volta ao trabalho.
Algo ainda corroia-lhe a alma. Sentia-se envenenado. Achava que, apesar das cobranças dela para que ele estivesse mais presente, de si reclamar sentindo-se sozinha, achava que estavam progredindo. Os sonhos só aumentavam: morar juntos, escolher a mobília nova, onde ficariam suas coisas velhas, uma pequena reforma na casa, as conversas sérias com os pais da garota, tudo desembocava num futuro breve e unido. Ela esperou demais para terminar. Esperou demais até a semente germinar, a raiz enraizar... Mas o solo não parecia fértil para ela. A raiz arrancou, mas a cicatriz foi profunda.
Na verdade, apesar dos avisos, o sonho ruiu de uma frase para outra: um instante. Ela só precisava entender que ele precisava dela para dizer adeus também. Só precisava que ela entendesse e aceitasse aquele presente de despedidas, aquele cavalo de Tróia que ela não suportou. Se ela fosse forte o suficiente o aceitaria e faria o que quisesse com ele. Por que ela não aceitou aquele presente? “Fraca!”. Por que ela o fez acreditar em sonhos perdidos? “Falsa!”. Ele não queria, mas odiá-la era a saída mais fácil e ele sempre tendeu para o lado da fraqueza humana.
“Tém! Tém!”.
Marteladas no ar.
A oficina, depois do furacão de destruição das últimas semanas, encontrava-se, pelo menos, desarrumada como antigamente. A maior diferença que chamava a atenção de todos que costumavam passar por ali no último ano era a destruição e o desprezo pelo maverick vermelho num canto da oficina. Durante todo esse tempo ele fora o xodó do local. Os clientes mais próximos apostavam se o carro voltaria a andar, se o mecânico era bom o suficiente. Hoje, não havia mais o que discutir. Apostas encerradas. Quem ganhou, ganhou. Cleiton desistiu...
Mais de seis meses haviam se passado. Sem o carro para consertar, Joaquim ausentara-se durante um tempo considerável. Cada um esteve em seu canto, contando pedras...
─ Como estamos?
─ Estamos bem, Joaquim, respondeu a voz de dentro de um quarto com a porta entreaberta, durante o intervalo das marteladas, como se o tivesse visto ontem.
“Tém! Tém!”
─ O que está fazendo?
─ Serviço rotineiro..., enquanto saia da sala, esfregando as mãos no jeans da calça.
─ Voltou a trabalhar?
─ É preciso... Mas ultimamente tenho pensado em tentar coisa nova...
─ Como assim? Largar a oficina? Tu sabe fazer outra coisa da vida?, Joaquim sentou-se no capô amassado da falida Nancy.
─ Largar, largar mesmo, eu não queria. Preciso do dinheiro...
─ É uma merda, né?
─ O quê?
─ Precisar do dinheiro...
─ Nem fale, Joaquim... Mas ‘tou revendo meu tempo, sabe? Deixar as mulheres da minha vida ─ pôs a mão no carro e continuou depois de um suspiro ─ ...me deu um buracão. Ano novo e eu nunca estive tão perdido, sem perspectiva...
─ Caindo no buraco...
─ Pois é.
─ Mas e aí?
─ O problema é esse: não sei o que eu quero. Só sei que preciso sair dessa oficina vez ou outra, arrumar um outro trampo completamente diferente, trabalhar meio expediente...
─ Ou meio-meio expediente, caramba! Tu é teu patrão!
─ Pelo menos isso.
─ Um novo sonho?
─ ...Ou a ausência dele...
─ É, talvez seja apenas isso: a falta de expectativas gera o fim das decepções que pode levar à felicidade constante...
─ É, mas vâmo parar por aqui? Deixar de frescura?
Ela costumava passar diariamente por ali. Quando ia assistir suas aulas. Os ônibus velhos passavam, ela poderia estar ali. Grupos de alunos desciam andando em coletivos, ela poderia estar ali, passando, diariamente em frente à oficina.
As mãos nos bolsos. Um andar descompromissado. Uma noite de janeiro, de nuvens grossas, clareadas por uma lua escondida em degradê no escuro do céu e na densidade do ar que ameaçava uma forte precipitação.
O invisível em frente aos olhos, guiando. O inesperado em cada esquina. O silêncio dos sons noturnos da natureza. A calmaria, tão conhecida, que precede a tempestade.
─ Me solta, seu estúpido!, exigia a mulher.
Não estava muito longe. Pôde ouvir muito bem, o pedido. Achou comum, que não deveria se importar...
─ Eu disse: me solta, porra!, agora mais alto.
─ Te aqueta, égua!
O estralo de um tapa com a mão aberta no rosto de alguém, seguido do cair surdo de um corpo grande no chão.
Agora ele pôde ver, da esquina, ainda com as mãos nos bolsos. Ela, no chão. Uma mulher corpulenta, de seios cheios, bochecha corada pelo tapa. Ele, o outro cara: um perfeito estúpido mesmo.
─ O que tá olhando? É minha mulher..., falou como que se justificando.
Baixou a cabeça e continuou com os mesmos passos sem direção. Cruzou com os dois. “SLAP”! Outro tapa.
─ Levanta!
─ ...O-o senhor, n-não deveria. Não deveria...
─ O que foi, rapah? Quer ser heroizinho hoje, é?
─ E-eu acho que, simplesmente, o senhor...hã...Não de-deveria...
A mulher no chão esboçou um sorriso. Cleiton percebeu. Ela estava rindo dele. Ele não conseguiu não demonstrar indignação com isso. Ela percebeu. Piorou. Começou a gargalhar. O Estúpido olhou para a mulher e começou a sorrir também. Ele, o próprio Cleiton, não se conteve: viu graça, no início contida, depois explodiu como a mulher, num riso muito gostoso. Afinal, que idiotice! O que ele esperava conseguir?
─ Ontem aconteceu algo estranho, Joaquim.
─ O quê?
─ Eu quis me meter numa briga de casal, de marido e mulher...
─ Como?
─ Assim: ela tava lá, apanhando, eu, passando por ali, vi tudo e disse pra ele que não deveria fazer aquilo...
─ E aí?
─ Bom, todo mundo começou a rir. Eu tava com cara de panaca.
─ E ele parou?
─ Enquanto eu tava lá, sim...
─ Então, funcionou?
─ O importante é que eu gostei disso, entende?
─ O quê? Meter a colher?
─ Nããão! Quer dizer: sim! Gostei de ajudar. Gosto de ajudar as pessoas...
─ Iih...Sei não...
─ É sério! Acho que eu poderia ser policial...
─ Mas com essa cara de panaca? Qual é que seria? Tu ia fazer todos os mala sorrirem até tu conseguir algemá-los?
─ Porra! É sério, heim? Falar contigo é foda!
Ela poderia passar por lá todos os dias. É verdade que ele estava sempre ocupado atendendo alguém ou, muitas vezes, não estava por lá, indo trabalhar na casa dos clientes. Muitas vezes, na maioria delas, a atenção dele estava com a Nancy. Mas ela poderia passar por ali, estar por ali, ficar por ali, com igual ou maior freqüência que ele dispunha dentro da casa dela. Faria toda a diferença. Mas a questão não era apenas física. Ela queria com ele sua própria Nancy e não enxergava dedicação suficiente. Ela não enxergava, mas ele já acreditava com força nos sonhos que ela oferecia pra ele, acordada.
Transformação. Reinício. Justificar a alteração da alma numa chuva de janeiro. Mascarar o rosto frágil. Erguer-se com força no anonimato. Provar a si mesmo que é superior ao ódio. Submeter o ódio ao exercício de sublimar. Acreditar nas pessoas. Achar um novo caminho na ausência das coisas. Transformar a experiência em energia positiva, sem esperar nada em troca, a não ser superar a si próprio.
Era uma noite como a anterior. Céus densos e sem brilho de estrelas. Raios e trovões completavam o cenário. Começou com chuvisco raquítico que prometia molhar até as primeiras horas da manhã do dia seguinte.
A oficina estava às portas fechadas. O clarão dos relâmpagos iluminava as fachadas rachadas das paredes do quarteirão. Lá dentro, a luz trêmula das luzes incandescentes revelavam o processo de criação.
CA-BUUM!
Retumbavam graves, os trovões.
A garagem abre. Dois faróis acendem, ofuscando os olhos do narrador, por um instante. A Kombi ganha a rua. Dentro dela, pela primeira vez, a alma de um aventureiro encontra um botão de adrenalina escondido, que lhe injeta batidas fortes em seu peito.
É a primeira noite do Máscara-de-Ferro.
Por Dentro da Máscara de Ferro Parte 1
Dedico às primeiras namoradas,
Às boas garotas depois disso,
Aos grandes e melhores amigos
E a todos os sonhos perdidos.
PARTE I
ACELERANDO EM MARCHA RÉ...
O rapaz puxa uma pesada corrente através das roldanas, levantando o incrível motor do velho maverick ferido à sua frente. Era apaixonante o olhar carinhoso que ele transmitia para aquela peça. O motor sangrava seu óleo negro e algumas peças soltas caíam pelo chão enquanto, habilmente, era orquestrado de um lado para o outro pelas mãos do maestro, dono da oficina.
Tudo ali era sua cara. Era uma oficina suja, cheia de graxa, como devem parecer as boas oficinas. Peças, bigornas, maçaricos, pneus, correias, calhas de bicicletas impinduradas pelo teto, câmeras de ar, remendos espalhados por aí... O que diferenciava aquela das outras oficinas eram os calendários: não haviam fotografias de mulheres seminuas em estúdio artificiais, com coqueiros e folhas de plástico. Ele gostava muito de personagens coloridos de histórias em quadrinhos. Poderiam ser reconhecidos naquelas paredes, um ou outro ícone pop das artes seqüências norte-americanas. Desenhos de heróis e heroínas com corpos perfeitos revestidos em colantes que acentuavam mais ainda as curvas de seus músculos.
Como um médico legista sobre uma mesa de autópsia, seu olhar meticuloso olhava curioso, procurando excluir todas as possibilidades que não explicassem aquele falecimento. A diferença era que aquela peça fria sobre a mesa poderia ser consertada, poderia voltar a respirar, explodir, esquentar... Bastava para ele, tempo suficiente, e aquele coração voltaria a bombear. A noite seria longa.
Ela chorava em seu quarto. A noite fria obrigava-a a curvar-se sobre o próprio corpo. Ela só queria que ele estivesse ali. Quantas vezes durante todos aqueles anos de namoro foi só o que ela pediu: mais atenção, mais demonstrações de carinho.
O colchão ficava estirado sobre o piso, cheio de livros, revistas e roupas sujas ao redor. Alguns cd’s românticos.
Mas nada disso importa, dessa descrição física. Apenas, ela chorava...
Quando se encontraram no outro dia, o motor ainda estava sobre a mesa. Ele sorriu. “Não vou desistir desta beleza”, disse enquanto dava um tapinha no coração de aço.
─ Cleiton, Cleiton... Se conseguirmos fazer este carro voltar a andar eu... Eu nem sei cara!
─ Nada que mais um pouco de paciência não resolva... Novidades?
─ Te trouxe uma raridade: O Evangelho do Coiote! Conhece?
“Fala sério!”, Cleiton agarrou a edição ensebada das mãos do amigo. DC 2000, nº 07. A capa, brilhantemente ilustrada por Brian Bolland, apresentava um cara loiro, de óculos estranhos, deitado no chão, de braços estendidos como se crucificado numa encruzilhada no meio do deserto. Metalingüisticamente, uma mão externa, de um artista criador, retocava as últimas cores do uniforme amarelo da criatura, o herói. Na parte inferior havia a frase: “Homem-Animal e os caprichos de um Deus”. A edição ainda vinha recheada de uma estória escrita por Grant Morrison, e tratava sobre a revolta frustrante contra o desespero e angústia do cotidiano violento na vida de um coiote, que passa todos seus dias numa caça interminável e infrutífera contra um papa-léguas. “Cara, como tu conseguiu isso?”, continuou.
─ A gente consegue de tudo no mercado negro. Espero que isso não atrase o conserto do potente aí...
─ Mas nem se preocupe.
Joaquim era um amigo de antigamente. Conheceram-se chafurdando em sebos de antiguidades do centro velho de Theresina, nestes lugares onde se encontra de tudo que não vale nada e até algumas coisas curiosas. Descobriram que dividiam uma paixão em comum: histórias em quadrinhos, com o seguinte diferencial: Joaquim era um exímio operador de lápis e nanquim, produzindo pranchetas incrivelmente belas, contando histórias absurdamente surreais, autênticas e autorias. Enquanto Cleiton, não passava de um degustador e crítico, mais ligado à fase de colantes, capas e cuecas sobre as calças. Apesar da distante diferença de gostos, davam-se muito bem, principalmente quando travavam disputas titânicas sobre os gêneros, não chegando a lugar nenhum a respeito de qual deles estava mais correto, mas era essa toda a diversão...
“Vamos trabalhar?”, disse Joaquim, fazendo que arregaçava as mangas compridas imaginárias de sua camisa. “Ainda há muito que fazer pra esse bicho voltar a andar”. Já estavam nessa labuta desde o ano passado, completariam oito meses dali a uma semana, e tudo o que pareciam ter conseguido era espalhar peças de um lado para o outro. Mas tudo estava meticulosamente planejado, apesar das aparências dizerem o contrário. Todo aquele galpão parecia ser apenas para o maverick vermelho. Cada palmo do carro era revistado, procurando-se detalhar minuciosamente o que poderia estar faltando ali. Deixaram o motor para o final: a parte mais delicada. Todos os sucatões da cidade foram visitados em busca das peças certas. A busca de se construir a alma correta para aquele corpo passava não apenas pelo esforço de se realizar a restauração do carro, mas em se escolher desde o retrovisor correto, os pneus perfeitos até a mínima polca escondida sob a lataria escarlate.
Era uma paixão. Completar aquele carro era um sonho. Fazê-lo trilhar pelas rodovias do Piauí, era um outro sonho. Mantê-lo sempre assim seria o maior de todos os sonhos. Estavam decididos a entrar o ano novo numa fantástica viagem inaugural na nau robusta que apelidavam carinhosamente de Nancy, “a miúda e magricela Nancy, ela crescerá, encorpará”, recitava Joaquim, parafraseando com certa liberdade um texto que lera há muito tempo, numa dessas histórias em quadrinhos de que tanto gostava.
Seus estudos nunca lhe foram tão prejudiciais. Estudar nunca fora tão sufocante. Mas não era o estudo em si, era toda a dificuldade de conseguir estudar, de conseguir se concentrar, de conviver com os colegas de sala e com os professores.
A distância só piorava as coisas.
Não conseguia encontrar muito sentido naquelas palavras que os volumosos livros apresentavam à sua frente. A angústia do futuro incerto corroia-lhe a alma.
A distância só piorava as coisas.
Eles se encontraram numa pracinha.
A coisa foi tão assim. Tão decidida, tão certa do fim, que não sobrou, na hora da partida, tempo ou querer suficiente, para um último beijo de despedida.
Joaquim costumava aparecer sempre. Em alguns dias, vinha mais de uma vez. Ontem não aparecera, o amigo saíra com a namorada. Quando chegou, cedo da noite, preparado para passar uma madrugada de domingo sujando as mãos de graxa, encontrou-o deitado no banco traseiro da Nancy. Percebeu os olhos vermelhos.
─ Hoje não, Joaquim... Não tenho vontade... ─ disse Cleiton.
O amigo sentou na frente.
─ Diz aí!
A noite ainda foi longa, mas estavam trabalhando agora em outro coração que também parecia sangrar.
Ela chorava muito. Tomara uma decisão difícil. Precisava tomar.
Os dias seguiram-se sem muita pressa. Na verdade, muito mais demorado que o costumeiro. A oficina não apresentava motivos para animá-lo. Não dava mais conta da Nancy nem dos outros serviços. Nenhum dos conselhos era suficiente. Acreditou que aquilo logo passaria. Em sete anos, a segunda vez. Tudo poderia voltar. Ela mesma disse.
A princípio, além da falta de força, um profundo sentimento de culpa, mas esperanças. Depois, logo, raiva: brutal. Ódio! Explodir! Cair nas bocas. Fazer o que nunca havia feito...
...Fez.
─ Volta pra mim!, pegou em seu braço, mas sem a força que queria.
─ Não é assim. Não pode ser assim, nem conversamos...
─ Volta pra mim!, repetiu sem a força que precisava para ela acreditar.
─ Você não entende, não conseguiu...
─ Eu quero estar contigo...
─ Você já estava na rua...
─ Sem dona, interrompeu.
─ Não, concluiu.
Tinha vontade de abandonar a Nancy. Faltava-lhe tesão. Não havia inspiração alguma para o trabalho. Mal-humorado além do costume, procurava entreter-se lendo as velhas histórias em quadrinhos do baú. Era para isso suas únicas energias agora.
Um garoto entra na oficina. Trazia uma pequena bicicleta com o quadro quebrado.
─ Remenda?, arriscou o menino, fungando a secreção para dentro do nariz sujo.
De dentro da rede, cogitou, com o olhar, se disponibilizaria um pequeno esforço.
─ ...Deixa aí! Volta amanhã!, aceitando o desafio.
Certo dia, depois de acordar e de se sentar na rede com os pés descalços no frio piso do quarto, ele pôs as mãos em concha sob o queixo e voltou a pensar em assuntos que não conseguia enterrar.
Olhou para o lado e pegou suas sandálias de plástico. Vestiu uma camisa que estava enganchada no canto do armador. Não havia nenhuma imagem nela. Era simplesmente uma camisa azul com três botões.
Seu café era apenas puro, forte e com uma fatia de bolo de goma com manteiga, esquentado na cuscuzeira. Estava duro depois de duas noites dormidas.
Morava só. Os cômodos ficavam atrás da oficina, não passavam de dois: quarto-banheiro e cozinha-sala. A ordem estava no caos da arrumação. Tudo deveria estar onde fora jogado. Assim funcionava.
Ele foi caminhando até a bodega comprar algo para o almoço. Arrumando as prateleiras estava uma garota bonita, baixinha, com o rabo de cavalo muito bem feito. Parecia familiar. Voltando do caixa, ao se cruzarem novamente, ela sorriu e acenou, ele respondeu o gesto com um leve aceno de cabeça e com um sorriso, tentando ser simpático. Agora lembrara: havia estudado com ela alguns anos atrás. Masturbou-se muito pensando nela. Caiu numa paixão juvenil. Hoje, não lembra mais seu nome. Como um espadachim assassino que precisa saber o nome da vítima antes de executá-la, ele sabe que não irá mais se masturbar para ela. Apesar do passado recente, ela é apenas um rosto bonito, mas sem nome, quase esquecida.
Tentou conversar, mas nunca soube como. Sair com Joaquim e abordar umas garotas era diferente. No fim de festa só sobravam eles e elas. Ele tinha certeza do que todos queriam. Apenas se divertirem. Ela era apenas uma garota bonita, desconhecida, arrumando o balcão. Ele não sabe se ela quer se divertir com ele ou se aceita seu dinheiro.
─ Você acha que tem volta?
─ Porque?
─ Vai ficar assim até quando?
─ Quem pode saber?
─ Vamos sair?
─ De novo?
─ Não ajuda?
─ Ajuda?
O “nheeec-nhec” das engrenagens do monociclo espalhava-se pelo deserto. Trêmulo, ele se equilibrava. Distante, no horizonte: uma nuvem de poeira crescia.
À beira do asfalto no deserto, o monociclo aventurava-se.
Um grande veículo trazia a nuvem. Subiu no asfalto, um enorme caminhão truck vermelho. Em alta velocidade, chamou a atenção por que vinha em marcha ré.
Vruuuuum... Cruzou o monociclo.
Olhou para a boléia do caminhão. Viu a si mesmo, divertindo-se como na noite anterior, com as mesmas pessoas: Joaquim, ele e as garotas. Riam tão alto quanto o rancor do motor.
Passou.
“Nheeec-nhec...”.
Acordou.
─ Acelerando... Estou acelerando em marcha ré...
─ Se você não vai consertar a bicicleta, devolve! Eu não quero voltar de novo.
O quadro da bicicleta precisava de uma bela solda. Ele já havia começado duas vezes, mas não conseguia terminar.
─ Chega aqui, baixinho, traz aquela máscara ali...
O garoto alcança uma pesada máscara de solda de cima de uma mesa de madeira maciça, preta de graxa.
─ Sua bicicleta não precisa de muita solda não, tá vendo? São só umas gotas por aqui... Protege teus olhos com isso aí, vai!, vou te mostrar...
Posicionou a mão na frente do rosto, fazendo sombra nos olhos e colocou o bastão de solda sobre a parte quebrada. Algumas vezes, reforçando.
─ Aqui tá pronto, mas eu deixaria a bicicleta aqui por mais um dia... O garfo tá empenado, tá vendo? Tem muita folga no guidão e na corrente, sem falar que está tudo seco, precisando de uma graxa aqui e acolá...
─ Ih, seu moço, num vô ter dinheiro pra tudo isso não...
─ ...Hum... Faz assim, você quer sair daqui com essa bicicleta tinindo?
─ Quero!
─ Então me ajuda com o seu serviço aqui, me traz alguma coisa pra jantar e tamos conversado, feito?
─ Certo! Mas queria pedir mais uma coisa, moço...
─ O quê?
─ Posso ficar usando a máscara-de-ferro?
─ Claro! Nós somos uma dupla: o incrível Borracheiro e seu fiel ajudante mirim, o Máscara-de-Ferro.
─ Você não vai dizer nem “oi”?, disse ela.
─ Não sei se devo, respondeu.
Ela estava no corredor que leva à sala do cinema, conversando com uma conhecida atrás do balcão de bombons.
─ Eu adoro este lugar...
─ Pena que é a última vez que vem à Piripiri, respondeu.
Agora estavam de mão dadas, caminhando numa cidadezinha do interior, onde costumavam passar os feriados...
Ele acordou. Isso o angustiava. Queria parar de sonhar e simplesmente dormir. Apenas dormir, sem sonhar...
Joaquim chegou com o mesmo embrulho que, tão cuidadosamente, Cleiton havia carregado até a casa dela. Um embrulho que cabia no bolso.
─ Ela pediu que devolvesse...
Recebeu a contra-gosto.
─ ...Sequer abriu...
─ Disse que leu o bilhete e imaginou o que havia dentro... Não quis...
─ Ela não entendeu nada... Não era um pedido, era simplesmente um presente de despedida, uma prova de que eu acreditava em suas promessas, de que o ano que entra seria...
Calou-se. Jogou o embrulho dentro de uma caixa de sapato suja debaixo da cama. Voltou para o fundo da rede...
─ Ela ainda disse que tu não devia procurar ela mais, não... Que está dificultando as coisas pros dois...
─ Pros três: eu, ela e o outro cara...
─ Você sabe que isso não teve nada a vê com o fim de vocês, certo?
─ ...
─ Esse outro cara. Nada a ver. Certo, Cleiton?
─ ...Certo.
A madrugada foi cheia de demônios.
Ao amanhecer, a oficina era um caos. O que não fora destruído estava espalhado de um canto a outro. O corpo jogado de costas, encostado ao pneu do maverick, a Nancy. Algumas garrafas espalhadas pelo chão. Parecia o fundo do poço.
─ Sabia que’u não deveria ter te deixado só, disse Joaquim. Quando saí ontem, tudo me dizia para ficar por aqui...
─ Eu não consegui, Joaquim...
─ O quê?
─Destruir a porra deste carro!
Deu um soco na lataria da porta. De fato, era a única coisa intocada no local.
─ Todos os dias e noites que eu estava aqui, com você e o carro... As escolhas que me afastaram dela... Ela nunca se sentiu à vontade aqui, com a gente e nosso sonho, se sentia à parte. Eu não consegui trazê-la conosco, nem ficar com ela...
─ Não dependia só de ti, cara. Ela também não conseguiu chegar... Da minha parte...
Joaquim olhou para um lado e para o outro, encontrou e pegou um pesado cano de aço com um joelho de encanamento para tubulação numa das extremidades, levantou com força e golpeou com brutalidade o capô do carro, sem coração. Cleiton assustou-se e levantou de um salto, incrédulo.
─ Da minha parte, como estava dizendo: me desculpe. Nossos sonhos distantes e incomuns tem parte nisto, nessa merda toda.
Jogou o cano sob seus pés, que rolou, ecoando pela oficina. As mãos de Cleiton pousaram sobre ele. Agarrou-o. Não se tratava de loucura, era ódio puro, canalizado. Coitada da Nancy, nem pôde ver o quê a atingiu...
Às boas garotas depois disso,
Aos grandes e melhores amigos
E a todos os sonhos perdidos.
PARTE I
ACELERANDO EM MARCHA RÉ...
O rapaz puxa uma pesada corrente através das roldanas, levantando o incrível motor do velho maverick ferido à sua frente. Era apaixonante o olhar carinhoso que ele transmitia para aquela peça. O motor sangrava seu óleo negro e algumas peças soltas caíam pelo chão enquanto, habilmente, era orquestrado de um lado para o outro pelas mãos do maestro, dono da oficina.
Tudo ali era sua cara. Era uma oficina suja, cheia de graxa, como devem parecer as boas oficinas. Peças, bigornas, maçaricos, pneus, correias, calhas de bicicletas impinduradas pelo teto, câmeras de ar, remendos espalhados por aí... O que diferenciava aquela das outras oficinas eram os calendários: não haviam fotografias de mulheres seminuas em estúdio artificiais, com coqueiros e folhas de plástico. Ele gostava muito de personagens coloridos de histórias em quadrinhos. Poderiam ser reconhecidos naquelas paredes, um ou outro ícone pop das artes seqüências norte-americanas. Desenhos de heróis e heroínas com corpos perfeitos revestidos em colantes que acentuavam mais ainda as curvas de seus músculos.
Como um médico legista sobre uma mesa de autópsia, seu olhar meticuloso olhava curioso, procurando excluir todas as possibilidades que não explicassem aquele falecimento. A diferença era que aquela peça fria sobre a mesa poderia ser consertada, poderia voltar a respirar, explodir, esquentar... Bastava para ele, tempo suficiente, e aquele coração voltaria a bombear. A noite seria longa.
Ela chorava em seu quarto. A noite fria obrigava-a a curvar-se sobre o próprio corpo. Ela só queria que ele estivesse ali. Quantas vezes durante todos aqueles anos de namoro foi só o que ela pediu: mais atenção, mais demonstrações de carinho.
O colchão ficava estirado sobre o piso, cheio de livros, revistas e roupas sujas ao redor. Alguns cd’s românticos.
Mas nada disso importa, dessa descrição física. Apenas, ela chorava...
Quando se encontraram no outro dia, o motor ainda estava sobre a mesa. Ele sorriu. “Não vou desistir desta beleza”, disse enquanto dava um tapinha no coração de aço.
─ Cleiton, Cleiton... Se conseguirmos fazer este carro voltar a andar eu... Eu nem sei cara!
─ Nada que mais um pouco de paciência não resolva... Novidades?
─ Te trouxe uma raridade: O Evangelho do Coiote! Conhece?
“Fala sério!”, Cleiton agarrou a edição ensebada das mãos do amigo. DC 2000, nº 07. A capa, brilhantemente ilustrada por Brian Bolland, apresentava um cara loiro, de óculos estranhos, deitado no chão, de braços estendidos como se crucificado numa encruzilhada no meio do deserto. Metalingüisticamente, uma mão externa, de um artista criador, retocava as últimas cores do uniforme amarelo da criatura, o herói. Na parte inferior havia a frase: “Homem-Animal e os caprichos de um Deus”. A edição ainda vinha recheada de uma estória escrita por Grant Morrison, e tratava sobre a revolta frustrante contra o desespero e angústia do cotidiano violento na vida de um coiote, que passa todos seus dias numa caça interminável e infrutífera contra um papa-léguas. “Cara, como tu conseguiu isso?”, continuou.
─ A gente consegue de tudo no mercado negro. Espero que isso não atrase o conserto do potente aí...
─ Mas nem se preocupe.
Joaquim era um amigo de antigamente. Conheceram-se chafurdando em sebos de antiguidades do centro velho de Theresina, nestes lugares onde se encontra de tudo que não vale nada e até algumas coisas curiosas. Descobriram que dividiam uma paixão em comum: histórias em quadrinhos, com o seguinte diferencial: Joaquim era um exímio operador de lápis e nanquim, produzindo pranchetas incrivelmente belas, contando histórias absurdamente surreais, autênticas e autorias. Enquanto Cleiton, não passava de um degustador e crítico, mais ligado à fase de colantes, capas e cuecas sobre as calças. Apesar da distante diferença de gostos, davam-se muito bem, principalmente quando travavam disputas titânicas sobre os gêneros, não chegando a lugar nenhum a respeito de qual deles estava mais correto, mas era essa toda a diversão...
“Vamos trabalhar?”, disse Joaquim, fazendo que arregaçava as mangas compridas imaginárias de sua camisa. “Ainda há muito que fazer pra esse bicho voltar a andar”. Já estavam nessa labuta desde o ano passado, completariam oito meses dali a uma semana, e tudo o que pareciam ter conseguido era espalhar peças de um lado para o outro. Mas tudo estava meticulosamente planejado, apesar das aparências dizerem o contrário. Todo aquele galpão parecia ser apenas para o maverick vermelho. Cada palmo do carro era revistado, procurando-se detalhar minuciosamente o que poderia estar faltando ali. Deixaram o motor para o final: a parte mais delicada. Todos os sucatões da cidade foram visitados em busca das peças certas. A busca de se construir a alma correta para aquele corpo passava não apenas pelo esforço de se realizar a restauração do carro, mas em se escolher desde o retrovisor correto, os pneus perfeitos até a mínima polca escondida sob a lataria escarlate.
Era uma paixão. Completar aquele carro era um sonho. Fazê-lo trilhar pelas rodovias do Piauí, era um outro sonho. Mantê-lo sempre assim seria o maior de todos os sonhos. Estavam decididos a entrar o ano novo numa fantástica viagem inaugural na nau robusta que apelidavam carinhosamente de Nancy, “a miúda e magricela Nancy, ela crescerá, encorpará”, recitava Joaquim, parafraseando com certa liberdade um texto que lera há muito tempo, numa dessas histórias em quadrinhos de que tanto gostava.
Seus estudos nunca lhe foram tão prejudiciais. Estudar nunca fora tão sufocante. Mas não era o estudo em si, era toda a dificuldade de conseguir estudar, de conseguir se concentrar, de conviver com os colegas de sala e com os professores.
A distância só piorava as coisas.
Não conseguia encontrar muito sentido naquelas palavras que os volumosos livros apresentavam à sua frente. A angústia do futuro incerto corroia-lhe a alma.
A distância só piorava as coisas.
Eles se encontraram numa pracinha.
A coisa foi tão assim. Tão decidida, tão certa do fim, que não sobrou, na hora da partida, tempo ou querer suficiente, para um último beijo de despedida.
Joaquim costumava aparecer sempre. Em alguns dias, vinha mais de uma vez. Ontem não aparecera, o amigo saíra com a namorada. Quando chegou, cedo da noite, preparado para passar uma madrugada de domingo sujando as mãos de graxa, encontrou-o deitado no banco traseiro da Nancy. Percebeu os olhos vermelhos.
─ Hoje não, Joaquim... Não tenho vontade... ─ disse Cleiton.
O amigo sentou na frente.
─ Diz aí!
A noite ainda foi longa, mas estavam trabalhando agora em outro coração que também parecia sangrar.
Ela chorava muito. Tomara uma decisão difícil. Precisava tomar.
Os dias seguiram-se sem muita pressa. Na verdade, muito mais demorado que o costumeiro. A oficina não apresentava motivos para animá-lo. Não dava mais conta da Nancy nem dos outros serviços. Nenhum dos conselhos era suficiente. Acreditou que aquilo logo passaria. Em sete anos, a segunda vez. Tudo poderia voltar. Ela mesma disse.
A princípio, além da falta de força, um profundo sentimento de culpa, mas esperanças. Depois, logo, raiva: brutal. Ódio! Explodir! Cair nas bocas. Fazer o que nunca havia feito...
...Fez.
─ Volta pra mim!, pegou em seu braço, mas sem a força que queria.
─ Não é assim. Não pode ser assim, nem conversamos...
─ Volta pra mim!, repetiu sem a força que precisava para ela acreditar.
─ Você não entende, não conseguiu...
─ Eu quero estar contigo...
─ Você já estava na rua...
─ Sem dona, interrompeu.
─ Não, concluiu.
Tinha vontade de abandonar a Nancy. Faltava-lhe tesão. Não havia inspiração alguma para o trabalho. Mal-humorado além do costume, procurava entreter-se lendo as velhas histórias em quadrinhos do baú. Era para isso suas únicas energias agora.
Um garoto entra na oficina. Trazia uma pequena bicicleta com o quadro quebrado.
─ Remenda?, arriscou o menino, fungando a secreção para dentro do nariz sujo.
De dentro da rede, cogitou, com o olhar, se disponibilizaria um pequeno esforço.
─ ...Deixa aí! Volta amanhã!, aceitando o desafio.
Certo dia, depois de acordar e de se sentar na rede com os pés descalços no frio piso do quarto, ele pôs as mãos em concha sob o queixo e voltou a pensar em assuntos que não conseguia enterrar.
Olhou para o lado e pegou suas sandálias de plástico. Vestiu uma camisa que estava enganchada no canto do armador. Não havia nenhuma imagem nela. Era simplesmente uma camisa azul com três botões.
Seu café era apenas puro, forte e com uma fatia de bolo de goma com manteiga, esquentado na cuscuzeira. Estava duro depois de duas noites dormidas.
Morava só. Os cômodos ficavam atrás da oficina, não passavam de dois: quarto-banheiro e cozinha-sala. A ordem estava no caos da arrumação. Tudo deveria estar onde fora jogado. Assim funcionava.
Ele foi caminhando até a bodega comprar algo para o almoço. Arrumando as prateleiras estava uma garota bonita, baixinha, com o rabo de cavalo muito bem feito. Parecia familiar. Voltando do caixa, ao se cruzarem novamente, ela sorriu e acenou, ele respondeu o gesto com um leve aceno de cabeça e com um sorriso, tentando ser simpático. Agora lembrara: havia estudado com ela alguns anos atrás. Masturbou-se muito pensando nela. Caiu numa paixão juvenil. Hoje, não lembra mais seu nome. Como um espadachim assassino que precisa saber o nome da vítima antes de executá-la, ele sabe que não irá mais se masturbar para ela. Apesar do passado recente, ela é apenas um rosto bonito, mas sem nome, quase esquecida.
Tentou conversar, mas nunca soube como. Sair com Joaquim e abordar umas garotas era diferente. No fim de festa só sobravam eles e elas. Ele tinha certeza do que todos queriam. Apenas se divertirem. Ela era apenas uma garota bonita, desconhecida, arrumando o balcão. Ele não sabe se ela quer se divertir com ele ou se aceita seu dinheiro.
─ Você acha que tem volta?
─ Porque?
─ Vai ficar assim até quando?
─ Quem pode saber?
─ Vamos sair?
─ De novo?
─ Não ajuda?
─ Ajuda?
O “nheeec-nhec” das engrenagens do monociclo espalhava-se pelo deserto. Trêmulo, ele se equilibrava. Distante, no horizonte: uma nuvem de poeira crescia.
À beira do asfalto no deserto, o monociclo aventurava-se.
Um grande veículo trazia a nuvem. Subiu no asfalto, um enorme caminhão truck vermelho. Em alta velocidade, chamou a atenção por que vinha em marcha ré.
Vruuuuum... Cruzou o monociclo.
Olhou para a boléia do caminhão. Viu a si mesmo, divertindo-se como na noite anterior, com as mesmas pessoas: Joaquim, ele e as garotas. Riam tão alto quanto o rancor do motor.
Passou.
“Nheeec-nhec...”.
Acordou.
─ Acelerando... Estou acelerando em marcha ré...
─ Se você não vai consertar a bicicleta, devolve! Eu não quero voltar de novo.
O quadro da bicicleta precisava de uma bela solda. Ele já havia começado duas vezes, mas não conseguia terminar.
─ Chega aqui, baixinho, traz aquela máscara ali...
O garoto alcança uma pesada máscara de solda de cima de uma mesa de madeira maciça, preta de graxa.
─ Sua bicicleta não precisa de muita solda não, tá vendo? São só umas gotas por aqui... Protege teus olhos com isso aí, vai!, vou te mostrar...
Posicionou a mão na frente do rosto, fazendo sombra nos olhos e colocou o bastão de solda sobre a parte quebrada. Algumas vezes, reforçando.
─ Aqui tá pronto, mas eu deixaria a bicicleta aqui por mais um dia... O garfo tá empenado, tá vendo? Tem muita folga no guidão e na corrente, sem falar que está tudo seco, precisando de uma graxa aqui e acolá...
─ Ih, seu moço, num vô ter dinheiro pra tudo isso não...
─ ...Hum... Faz assim, você quer sair daqui com essa bicicleta tinindo?
─ Quero!
─ Então me ajuda com o seu serviço aqui, me traz alguma coisa pra jantar e tamos conversado, feito?
─ Certo! Mas queria pedir mais uma coisa, moço...
─ O quê?
─ Posso ficar usando a máscara-de-ferro?
─ Claro! Nós somos uma dupla: o incrível Borracheiro e seu fiel ajudante mirim, o Máscara-de-Ferro.
─ Você não vai dizer nem “oi”?, disse ela.
─ Não sei se devo, respondeu.
Ela estava no corredor que leva à sala do cinema, conversando com uma conhecida atrás do balcão de bombons.
─ Eu adoro este lugar...
─ Pena que é a última vez que vem à Piripiri, respondeu.
Agora estavam de mão dadas, caminhando numa cidadezinha do interior, onde costumavam passar os feriados...
Ele acordou. Isso o angustiava. Queria parar de sonhar e simplesmente dormir. Apenas dormir, sem sonhar...
Joaquim chegou com o mesmo embrulho que, tão cuidadosamente, Cleiton havia carregado até a casa dela. Um embrulho que cabia no bolso.
─ Ela pediu que devolvesse...
Recebeu a contra-gosto.
─ ...Sequer abriu...
─ Disse que leu o bilhete e imaginou o que havia dentro... Não quis...
─ Ela não entendeu nada... Não era um pedido, era simplesmente um presente de despedida, uma prova de que eu acreditava em suas promessas, de que o ano que entra seria...
Calou-se. Jogou o embrulho dentro de uma caixa de sapato suja debaixo da cama. Voltou para o fundo da rede...
─ Ela ainda disse que tu não devia procurar ela mais, não... Que está dificultando as coisas pros dois...
─ Pros três: eu, ela e o outro cara...
─ Você sabe que isso não teve nada a vê com o fim de vocês, certo?
─ ...
─ Esse outro cara. Nada a ver. Certo, Cleiton?
─ ...Certo.
A madrugada foi cheia de demônios.
Ao amanhecer, a oficina era um caos. O que não fora destruído estava espalhado de um canto a outro. O corpo jogado de costas, encostado ao pneu do maverick, a Nancy. Algumas garrafas espalhadas pelo chão. Parecia o fundo do poço.
─ Sabia que’u não deveria ter te deixado só, disse Joaquim. Quando saí ontem, tudo me dizia para ficar por aqui...
─ Eu não consegui, Joaquim...
─ O quê?
─Destruir a porra deste carro!
Deu um soco na lataria da porta. De fato, era a única coisa intocada no local.
─ Todos os dias e noites que eu estava aqui, com você e o carro... As escolhas que me afastaram dela... Ela nunca se sentiu à vontade aqui, com a gente e nosso sonho, se sentia à parte. Eu não consegui trazê-la conosco, nem ficar com ela...
─ Não dependia só de ti, cara. Ela também não conseguiu chegar... Da minha parte...
Joaquim olhou para um lado e para o outro, encontrou e pegou um pesado cano de aço com um joelho de encanamento para tubulação numa das extremidades, levantou com força e golpeou com brutalidade o capô do carro, sem coração. Cleiton assustou-se e levantou de um salto, incrédulo.
─ Da minha parte, como estava dizendo: me desculpe. Nossos sonhos distantes e incomuns tem parte nisto, nessa merda toda.
Jogou o cano sob seus pés, que rolou, ecoando pela oficina. As mãos de Cleiton pousaram sobre ele. Agarrou-o. Não se tratava de loucura, era ódio puro, canalizado. Coitada da Nancy, nem pôde ver o quê a atingiu...
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