PARTE II
NOVOS SONHOS OU A AUSÊNCIA DELES
Quando aconteceu haviam passados alguns meses após o término do namoro. Precisava entender o que estava acontecendo. Não queria se enganar de novo nem enganar ninguém.
Por que toda garota nos primeiros encontros quer saber dos relacionamentos anteriores, do outro? Por que ele tinha de ser tão sincero se ela era tudo o que ele queria naquele momento: conforto? Talvez porque ele acreditasse que havia mais além do conforto que ele não podia acreditar que estava acontecendo. Assim, tão cedo?
Ele contou tudo que podia, tudo que queria ter contado daquela vez que tentou convencê-la a voltar. No fim, parecia a si mesmo que tentava exorcizar o querer e dar uma nova chance às ondas do mar o levarem...
...Mas não poderia arriscar-se a ser um náufrago e nem um pirata pretenso e faminto a ancorar na primeira ilha vistosa. E o pior é que ela sabia disto. Essa gaiata era muito esperta.
Divertiram-se enquanto puderam. Mesmo ele cedendo e pedindo, ela era esperta. Ficaram sem marcar compromissos. Estava bom assim. Sem expectativas ou esperanças...
─ Vai precisar rebocar.
─ Rebocar?!?
─ Éh...O estrago aqui foi feio. Preciso abrir o motor.
─ Não dá pra trazer as ferramentas aqui?
─ Cê sabe que o bairro aqui é perigoso, tá anoitecendo...e...Não dá mesmo!
─ Certo, certo...
A Kombi não era o carro certo para o serviço, mas era o que Cleiton tinha. Duas voltas da corda puxavam a velha parati. Não demoraram chegar. A oficina ainda estava um chiqueiro de porco. O cliente torceu o nariz: era demais, mesmo para uma oficina de esquina.
─ Que merda, heim?
─ Com toda certeza, patrão. Diga um negócio: o senhor tem tempo para esperar aqui pelo serviço ou volta daqui uma semana?
Estava de volta ao trabalho.
Algo ainda corroia-lhe a alma. Sentia-se envenenado. Achava que, apesar das cobranças dela para que ele estivesse mais presente, de si reclamar sentindo-se sozinha, achava que estavam progredindo. Os sonhos só aumentavam: morar juntos, escolher a mobília nova, onde ficariam suas coisas velhas, uma pequena reforma na casa, as conversas sérias com os pais da garota, tudo desembocava num futuro breve e unido. Ela esperou demais para terminar. Esperou demais até a semente germinar, a raiz enraizar... Mas o solo não parecia fértil para ela. A raiz arrancou, mas a cicatriz foi profunda.
Na verdade, apesar dos avisos, o sonho ruiu de uma frase para outra: um instante. Ela só precisava entender que ele precisava dela para dizer adeus também. Só precisava que ela entendesse e aceitasse aquele presente de despedidas, aquele cavalo de Tróia que ela não suportou. Se ela fosse forte o suficiente o aceitaria e faria o que quisesse com ele. Por que ela não aceitou aquele presente? “Fraca!”. Por que ela o fez acreditar em sonhos perdidos? “Falsa!”. Ele não queria, mas odiá-la era a saída mais fácil e ele sempre tendeu para o lado da fraqueza humana.
“Tém! Tém!”.
Marteladas no ar.
A oficina, depois do furacão de destruição das últimas semanas, encontrava-se, pelo menos, desarrumada como antigamente. A maior diferença que chamava a atenção de todos que costumavam passar por ali no último ano era a destruição e o desprezo pelo maverick vermelho num canto da oficina. Durante todo esse tempo ele fora o xodó do local. Os clientes mais próximos apostavam se o carro voltaria a andar, se o mecânico era bom o suficiente. Hoje, não havia mais o que discutir. Apostas encerradas. Quem ganhou, ganhou. Cleiton desistiu...
Mais de seis meses haviam se passado. Sem o carro para consertar, Joaquim ausentara-se durante um tempo considerável. Cada um esteve em seu canto, contando pedras...
─ Como estamos?
─ Estamos bem, Joaquim, respondeu a voz de dentro de um quarto com a porta entreaberta, durante o intervalo das marteladas, como se o tivesse visto ontem.
“Tém! Tém!”
─ O que está fazendo?
─ Serviço rotineiro..., enquanto saia da sala, esfregando as mãos no jeans da calça.
─ Voltou a trabalhar?
─ É preciso... Mas ultimamente tenho pensado em tentar coisa nova...
─ Como assim? Largar a oficina? Tu sabe fazer outra coisa da vida?, Joaquim sentou-se no capô amassado da falida Nancy.
─ Largar, largar mesmo, eu não queria. Preciso do dinheiro...
─ É uma merda, né?
─ O quê?
─ Precisar do dinheiro...
─ Nem fale, Joaquim... Mas ‘tou revendo meu tempo, sabe? Deixar as mulheres da minha vida ─ pôs a mão no carro e continuou depois de um suspiro ─ ...me deu um buracão. Ano novo e eu nunca estive tão perdido, sem perspectiva...
─ Caindo no buraco...
─ Pois é.
─ Mas e aí?
─ O problema é esse: não sei o que eu quero. Só sei que preciso sair dessa oficina vez ou outra, arrumar um outro trampo completamente diferente, trabalhar meio expediente...
─ Ou meio-meio expediente, caramba! Tu é teu patrão!
─ Pelo menos isso.
─ Um novo sonho?
─ ...Ou a ausência dele...
─ É, talvez seja apenas isso: a falta de expectativas gera o fim das decepções que pode levar à felicidade constante...
─ É, mas vâmo parar por aqui? Deixar de frescura?
Ela costumava passar diariamente por ali. Quando ia assistir suas aulas. Os ônibus velhos passavam, ela poderia estar ali. Grupos de alunos desciam andando em coletivos, ela poderia estar ali, passando, diariamente em frente à oficina.
As mãos nos bolsos. Um andar descompromissado. Uma noite de janeiro, de nuvens grossas, clareadas por uma lua escondida em degradê no escuro do céu e na densidade do ar que ameaçava uma forte precipitação.
O invisível em frente aos olhos, guiando. O inesperado em cada esquina. O silêncio dos sons noturnos da natureza. A calmaria, tão conhecida, que precede a tempestade.
─ Me solta, seu estúpido!, exigia a mulher.
Não estava muito longe. Pôde ouvir muito bem, o pedido. Achou comum, que não deveria se importar...
─ Eu disse: me solta, porra!, agora mais alto.
─ Te aqueta, égua!
O estralo de um tapa com a mão aberta no rosto de alguém, seguido do cair surdo de um corpo grande no chão.
Agora ele pôde ver, da esquina, ainda com as mãos nos bolsos. Ela, no chão. Uma mulher corpulenta, de seios cheios, bochecha corada pelo tapa. Ele, o outro cara: um perfeito estúpido mesmo.
─ O que tá olhando? É minha mulher..., falou como que se justificando.
Baixou a cabeça e continuou com os mesmos passos sem direção. Cruzou com os dois. “SLAP”! Outro tapa.
─ Levanta!
─ ...O-o senhor, n-não deveria. Não deveria...
─ O que foi, rapah? Quer ser heroizinho hoje, é?
─ E-eu acho que, simplesmente, o senhor...hã...Não de-deveria...
A mulher no chão esboçou um sorriso. Cleiton percebeu. Ela estava rindo dele. Ele não conseguiu não demonstrar indignação com isso. Ela percebeu. Piorou. Começou a gargalhar. O Estúpido olhou para a mulher e começou a sorrir também. Ele, o próprio Cleiton, não se conteve: viu graça, no início contida, depois explodiu como a mulher, num riso muito gostoso. Afinal, que idiotice! O que ele esperava conseguir?
─ Ontem aconteceu algo estranho, Joaquim.
─ O quê?
─ Eu quis me meter numa briga de casal, de marido e mulher...
─ Como?
─ Assim: ela tava lá, apanhando, eu, passando por ali, vi tudo e disse pra ele que não deveria fazer aquilo...
─ E aí?
─ Bom, todo mundo começou a rir. Eu tava com cara de panaca.
─ E ele parou?
─ Enquanto eu tava lá, sim...
─ Então, funcionou?
─ O importante é que eu gostei disso, entende?
─ O quê? Meter a colher?
─ Nããão! Quer dizer: sim! Gostei de ajudar. Gosto de ajudar as pessoas...
─ Iih...Sei não...
─ É sério! Acho que eu poderia ser policial...
─ Mas com essa cara de panaca? Qual é que seria? Tu ia fazer todos os mala sorrirem até tu conseguir algemá-los?
─ Porra! É sério, heim? Falar contigo é foda!
Ela poderia passar por lá todos os dias. É verdade que ele estava sempre ocupado atendendo alguém ou, muitas vezes, não estava por lá, indo trabalhar na casa dos clientes. Muitas vezes, na maioria delas, a atenção dele estava com a Nancy. Mas ela poderia passar por ali, estar por ali, ficar por ali, com igual ou maior freqüência que ele dispunha dentro da casa dela. Faria toda a diferença. Mas a questão não era apenas física. Ela queria com ele sua própria Nancy e não enxergava dedicação suficiente. Ela não enxergava, mas ele já acreditava com força nos sonhos que ela oferecia pra ele, acordada.
Transformação. Reinício. Justificar a alteração da alma numa chuva de janeiro. Mascarar o rosto frágil. Erguer-se com força no anonimato. Provar a si mesmo que é superior ao ódio. Submeter o ódio ao exercício de sublimar. Acreditar nas pessoas. Achar um novo caminho na ausência das coisas. Transformar a experiência em energia positiva, sem esperar nada em troca, a não ser superar a si próprio.
Era uma noite como a anterior. Céus densos e sem brilho de estrelas. Raios e trovões completavam o cenário. Começou com chuvisco raquítico que prometia molhar até as primeiras horas da manhã do dia seguinte.
A oficina estava às portas fechadas. O clarão dos relâmpagos iluminava as fachadas rachadas das paredes do quarteirão. Lá dentro, a luz trêmula das luzes incandescentes revelavam o processo de criação.
CA-BUUM!
Retumbavam graves, os trovões.
A garagem abre. Dois faróis acendem, ofuscando os olhos do narrador, por um instante. A Kombi ganha a rua. Dentro dela, pela primeira vez, a alma de um aventureiro encontra um botão de adrenalina escondido, que lhe injeta batidas fortes em seu peito.
É a primeira noite do Máscara-de-Ferro.
terça-feira, 11 de novembro de 2008
Por Dentro da Máscara de Ferro Parte 1
Dedico às primeiras namoradas,
Às boas garotas depois disso,
Aos grandes e melhores amigos
E a todos os sonhos perdidos.
PARTE I
ACELERANDO EM MARCHA RÉ...
O rapaz puxa uma pesada corrente através das roldanas, levantando o incrível motor do velho maverick ferido à sua frente. Era apaixonante o olhar carinhoso que ele transmitia para aquela peça. O motor sangrava seu óleo negro e algumas peças soltas caíam pelo chão enquanto, habilmente, era orquestrado de um lado para o outro pelas mãos do maestro, dono da oficina.
Tudo ali era sua cara. Era uma oficina suja, cheia de graxa, como devem parecer as boas oficinas. Peças, bigornas, maçaricos, pneus, correias, calhas de bicicletas impinduradas pelo teto, câmeras de ar, remendos espalhados por aí... O que diferenciava aquela das outras oficinas eram os calendários: não haviam fotografias de mulheres seminuas em estúdio artificiais, com coqueiros e folhas de plástico. Ele gostava muito de personagens coloridos de histórias em quadrinhos. Poderiam ser reconhecidos naquelas paredes, um ou outro ícone pop das artes seqüências norte-americanas. Desenhos de heróis e heroínas com corpos perfeitos revestidos em colantes que acentuavam mais ainda as curvas de seus músculos.
Como um médico legista sobre uma mesa de autópsia, seu olhar meticuloso olhava curioso, procurando excluir todas as possibilidades que não explicassem aquele falecimento. A diferença era que aquela peça fria sobre a mesa poderia ser consertada, poderia voltar a respirar, explodir, esquentar... Bastava para ele, tempo suficiente, e aquele coração voltaria a bombear. A noite seria longa.
Ela chorava em seu quarto. A noite fria obrigava-a a curvar-se sobre o próprio corpo. Ela só queria que ele estivesse ali. Quantas vezes durante todos aqueles anos de namoro foi só o que ela pediu: mais atenção, mais demonstrações de carinho.
O colchão ficava estirado sobre o piso, cheio de livros, revistas e roupas sujas ao redor. Alguns cd’s românticos.
Mas nada disso importa, dessa descrição física. Apenas, ela chorava...
Quando se encontraram no outro dia, o motor ainda estava sobre a mesa. Ele sorriu. “Não vou desistir desta beleza”, disse enquanto dava um tapinha no coração de aço.
─ Cleiton, Cleiton... Se conseguirmos fazer este carro voltar a andar eu... Eu nem sei cara!
─ Nada que mais um pouco de paciência não resolva... Novidades?
─ Te trouxe uma raridade: O Evangelho do Coiote! Conhece?
“Fala sério!”, Cleiton agarrou a edição ensebada das mãos do amigo. DC 2000, nº 07. A capa, brilhantemente ilustrada por Brian Bolland, apresentava um cara loiro, de óculos estranhos, deitado no chão, de braços estendidos como se crucificado numa encruzilhada no meio do deserto. Metalingüisticamente, uma mão externa, de um artista criador, retocava as últimas cores do uniforme amarelo da criatura, o herói. Na parte inferior havia a frase: “Homem-Animal e os caprichos de um Deus”. A edição ainda vinha recheada de uma estória escrita por Grant Morrison, e tratava sobre a revolta frustrante contra o desespero e angústia do cotidiano violento na vida de um coiote, que passa todos seus dias numa caça interminável e infrutífera contra um papa-léguas. “Cara, como tu conseguiu isso?”, continuou.
─ A gente consegue de tudo no mercado negro. Espero que isso não atrase o conserto do potente aí...
─ Mas nem se preocupe.
Joaquim era um amigo de antigamente. Conheceram-se chafurdando em sebos de antiguidades do centro velho de Theresina, nestes lugares onde se encontra de tudo que não vale nada e até algumas coisas curiosas. Descobriram que dividiam uma paixão em comum: histórias em quadrinhos, com o seguinte diferencial: Joaquim era um exímio operador de lápis e nanquim, produzindo pranchetas incrivelmente belas, contando histórias absurdamente surreais, autênticas e autorias. Enquanto Cleiton, não passava de um degustador e crítico, mais ligado à fase de colantes, capas e cuecas sobre as calças. Apesar da distante diferença de gostos, davam-se muito bem, principalmente quando travavam disputas titânicas sobre os gêneros, não chegando a lugar nenhum a respeito de qual deles estava mais correto, mas era essa toda a diversão...
“Vamos trabalhar?”, disse Joaquim, fazendo que arregaçava as mangas compridas imaginárias de sua camisa. “Ainda há muito que fazer pra esse bicho voltar a andar”. Já estavam nessa labuta desde o ano passado, completariam oito meses dali a uma semana, e tudo o que pareciam ter conseguido era espalhar peças de um lado para o outro. Mas tudo estava meticulosamente planejado, apesar das aparências dizerem o contrário. Todo aquele galpão parecia ser apenas para o maverick vermelho. Cada palmo do carro era revistado, procurando-se detalhar minuciosamente o que poderia estar faltando ali. Deixaram o motor para o final: a parte mais delicada. Todos os sucatões da cidade foram visitados em busca das peças certas. A busca de se construir a alma correta para aquele corpo passava não apenas pelo esforço de se realizar a restauração do carro, mas em se escolher desde o retrovisor correto, os pneus perfeitos até a mínima polca escondida sob a lataria escarlate.
Era uma paixão. Completar aquele carro era um sonho. Fazê-lo trilhar pelas rodovias do Piauí, era um outro sonho. Mantê-lo sempre assim seria o maior de todos os sonhos. Estavam decididos a entrar o ano novo numa fantástica viagem inaugural na nau robusta que apelidavam carinhosamente de Nancy, “a miúda e magricela Nancy, ela crescerá, encorpará”, recitava Joaquim, parafraseando com certa liberdade um texto que lera há muito tempo, numa dessas histórias em quadrinhos de que tanto gostava.
Seus estudos nunca lhe foram tão prejudiciais. Estudar nunca fora tão sufocante. Mas não era o estudo em si, era toda a dificuldade de conseguir estudar, de conseguir se concentrar, de conviver com os colegas de sala e com os professores.
A distância só piorava as coisas.
Não conseguia encontrar muito sentido naquelas palavras que os volumosos livros apresentavam à sua frente. A angústia do futuro incerto corroia-lhe a alma.
A distância só piorava as coisas.
Eles se encontraram numa pracinha.
A coisa foi tão assim. Tão decidida, tão certa do fim, que não sobrou, na hora da partida, tempo ou querer suficiente, para um último beijo de despedida.
Joaquim costumava aparecer sempre. Em alguns dias, vinha mais de uma vez. Ontem não aparecera, o amigo saíra com a namorada. Quando chegou, cedo da noite, preparado para passar uma madrugada de domingo sujando as mãos de graxa, encontrou-o deitado no banco traseiro da Nancy. Percebeu os olhos vermelhos.
─ Hoje não, Joaquim... Não tenho vontade... ─ disse Cleiton.
O amigo sentou na frente.
─ Diz aí!
A noite ainda foi longa, mas estavam trabalhando agora em outro coração que também parecia sangrar.
Ela chorava muito. Tomara uma decisão difícil. Precisava tomar.
Os dias seguiram-se sem muita pressa. Na verdade, muito mais demorado que o costumeiro. A oficina não apresentava motivos para animá-lo. Não dava mais conta da Nancy nem dos outros serviços. Nenhum dos conselhos era suficiente. Acreditou que aquilo logo passaria. Em sete anos, a segunda vez. Tudo poderia voltar. Ela mesma disse.
A princípio, além da falta de força, um profundo sentimento de culpa, mas esperanças. Depois, logo, raiva: brutal. Ódio! Explodir! Cair nas bocas. Fazer o que nunca havia feito...
...Fez.
─ Volta pra mim!, pegou em seu braço, mas sem a força que queria.
─ Não é assim. Não pode ser assim, nem conversamos...
─ Volta pra mim!, repetiu sem a força que precisava para ela acreditar.
─ Você não entende, não conseguiu...
─ Eu quero estar contigo...
─ Você já estava na rua...
─ Sem dona, interrompeu.
─ Não, concluiu.
Tinha vontade de abandonar a Nancy. Faltava-lhe tesão. Não havia inspiração alguma para o trabalho. Mal-humorado além do costume, procurava entreter-se lendo as velhas histórias em quadrinhos do baú. Era para isso suas únicas energias agora.
Um garoto entra na oficina. Trazia uma pequena bicicleta com o quadro quebrado.
─ Remenda?, arriscou o menino, fungando a secreção para dentro do nariz sujo.
De dentro da rede, cogitou, com o olhar, se disponibilizaria um pequeno esforço.
─ ...Deixa aí! Volta amanhã!, aceitando o desafio.
Certo dia, depois de acordar e de se sentar na rede com os pés descalços no frio piso do quarto, ele pôs as mãos em concha sob o queixo e voltou a pensar em assuntos que não conseguia enterrar.
Olhou para o lado e pegou suas sandálias de plástico. Vestiu uma camisa que estava enganchada no canto do armador. Não havia nenhuma imagem nela. Era simplesmente uma camisa azul com três botões.
Seu café era apenas puro, forte e com uma fatia de bolo de goma com manteiga, esquentado na cuscuzeira. Estava duro depois de duas noites dormidas.
Morava só. Os cômodos ficavam atrás da oficina, não passavam de dois: quarto-banheiro e cozinha-sala. A ordem estava no caos da arrumação. Tudo deveria estar onde fora jogado. Assim funcionava.
Ele foi caminhando até a bodega comprar algo para o almoço. Arrumando as prateleiras estava uma garota bonita, baixinha, com o rabo de cavalo muito bem feito. Parecia familiar. Voltando do caixa, ao se cruzarem novamente, ela sorriu e acenou, ele respondeu o gesto com um leve aceno de cabeça e com um sorriso, tentando ser simpático. Agora lembrara: havia estudado com ela alguns anos atrás. Masturbou-se muito pensando nela. Caiu numa paixão juvenil. Hoje, não lembra mais seu nome. Como um espadachim assassino que precisa saber o nome da vítima antes de executá-la, ele sabe que não irá mais se masturbar para ela. Apesar do passado recente, ela é apenas um rosto bonito, mas sem nome, quase esquecida.
Tentou conversar, mas nunca soube como. Sair com Joaquim e abordar umas garotas era diferente. No fim de festa só sobravam eles e elas. Ele tinha certeza do que todos queriam. Apenas se divertirem. Ela era apenas uma garota bonita, desconhecida, arrumando o balcão. Ele não sabe se ela quer se divertir com ele ou se aceita seu dinheiro.
─ Você acha que tem volta?
─ Porque?
─ Vai ficar assim até quando?
─ Quem pode saber?
─ Vamos sair?
─ De novo?
─ Não ajuda?
─ Ajuda?
O “nheeec-nhec” das engrenagens do monociclo espalhava-se pelo deserto. Trêmulo, ele se equilibrava. Distante, no horizonte: uma nuvem de poeira crescia.
À beira do asfalto no deserto, o monociclo aventurava-se.
Um grande veículo trazia a nuvem. Subiu no asfalto, um enorme caminhão truck vermelho. Em alta velocidade, chamou a atenção por que vinha em marcha ré.
Vruuuuum... Cruzou o monociclo.
Olhou para a boléia do caminhão. Viu a si mesmo, divertindo-se como na noite anterior, com as mesmas pessoas: Joaquim, ele e as garotas. Riam tão alto quanto o rancor do motor.
Passou.
“Nheeec-nhec...”.
Acordou.
─ Acelerando... Estou acelerando em marcha ré...
─ Se você não vai consertar a bicicleta, devolve! Eu não quero voltar de novo.
O quadro da bicicleta precisava de uma bela solda. Ele já havia começado duas vezes, mas não conseguia terminar.
─ Chega aqui, baixinho, traz aquela máscara ali...
O garoto alcança uma pesada máscara de solda de cima de uma mesa de madeira maciça, preta de graxa.
─ Sua bicicleta não precisa de muita solda não, tá vendo? São só umas gotas por aqui... Protege teus olhos com isso aí, vai!, vou te mostrar...
Posicionou a mão na frente do rosto, fazendo sombra nos olhos e colocou o bastão de solda sobre a parte quebrada. Algumas vezes, reforçando.
─ Aqui tá pronto, mas eu deixaria a bicicleta aqui por mais um dia... O garfo tá empenado, tá vendo? Tem muita folga no guidão e na corrente, sem falar que está tudo seco, precisando de uma graxa aqui e acolá...
─ Ih, seu moço, num vô ter dinheiro pra tudo isso não...
─ ...Hum... Faz assim, você quer sair daqui com essa bicicleta tinindo?
─ Quero!
─ Então me ajuda com o seu serviço aqui, me traz alguma coisa pra jantar e tamos conversado, feito?
─ Certo! Mas queria pedir mais uma coisa, moço...
─ O quê?
─ Posso ficar usando a máscara-de-ferro?
─ Claro! Nós somos uma dupla: o incrível Borracheiro e seu fiel ajudante mirim, o Máscara-de-Ferro.
─ Você não vai dizer nem “oi”?, disse ela.
─ Não sei se devo, respondeu.
Ela estava no corredor que leva à sala do cinema, conversando com uma conhecida atrás do balcão de bombons.
─ Eu adoro este lugar...
─ Pena que é a última vez que vem à Piripiri, respondeu.
Agora estavam de mão dadas, caminhando numa cidadezinha do interior, onde costumavam passar os feriados...
Ele acordou. Isso o angustiava. Queria parar de sonhar e simplesmente dormir. Apenas dormir, sem sonhar...
Joaquim chegou com o mesmo embrulho que, tão cuidadosamente, Cleiton havia carregado até a casa dela. Um embrulho que cabia no bolso.
─ Ela pediu que devolvesse...
Recebeu a contra-gosto.
─ ...Sequer abriu...
─ Disse que leu o bilhete e imaginou o que havia dentro... Não quis...
─ Ela não entendeu nada... Não era um pedido, era simplesmente um presente de despedida, uma prova de que eu acreditava em suas promessas, de que o ano que entra seria...
Calou-se. Jogou o embrulho dentro de uma caixa de sapato suja debaixo da cama. Voltou para o fundo da rede...
─ Ela ainda disse que tu não devia procurar ela mais, não... Que está dificultando as coisas pros dois...
─ Pros três: eu, ela e o outro cara...
─ Você sabe que isso não teve nada a vê com o fim de vocês, certo?
─ ...
─ Esse outro cara. Nada a ver. Certo, Cleiton?
─ ...Certo.
A madrugada foi cheia de demônios.
Ao amanhecer, a oficina era um caos. O que não fora destruído estava espalhado de um canto a outro. O corpo jogado de costas, encostado ao pneu do maverick, a Nancy. Algumas garrafas espalhadas pelo chão. Parecia o fundo do poço.
─ Sabia que’u não deveria ter te deixado só, disse Joaquim. Quando saí ontem, tudo me dizia para ficar por aqui...
─ Eu não consegui, Joaquim...
─ O quê?
─Destruir a porra deste carro!
Deu um soco na lataria da porta. De fato, era a única coisa intocada no local.
─ Todos os dias e noites que eu estava aqui, com você e o carro... As escolhas que me afastaram dela... Ela nunca se sentiu à vontade aqui, com a gente e nosso sonho, se sentia à parte. Eu não consegui trazê-la conosco, nem ficar com ela...
─ Não dependia só de ti, cara. Ela também não conseguiu chegar... Da minha parte...
Joaquim olhou para um lado e para o outro, encontrou e pegou um pesado cano de aço com um joelho de encanamento para tubulação numa das extremidades, levantou com força e golpeou com brutalidade o capô do carro, sem coração. Cleiton assustou-se e levantou de um salto, incrédulo.
─ Da minha parte, como estava dizendo: me desculpe. Nossos sonhos distantes e incomuns tem parte nisto, nessa merda toda.
Jogou o cano sob seus pés, que rolou, ecoando pela oficina. As mãos de Cleiton pousaram sobre ele. Agarrou-o. Não se tratava de loucura, era ódio puro, canalizado. Coitada da Nancy, nem pôde ver o quê a atingiu...
Às boas garotas depois disso,
Aos grandes e melhores amigos
E a todos os sonhos perdidos.
PARTE I
ACELERANDO EM MARCHA RÉ...
O rapaz puxa uma pesada corrente através das roldanas, levantando o incrível motor do velho maverick ferido à sua frente. Era apaixonante o olhar carinhoso que ele transmitia para aquela peça. O motor sangrava seu óleo negro e algumas peças soltas caíam pelo chão enquanto, habilmente, era orquestrado de um lado para o outro pelas mãos do maestro, dono da oficina.
Tudo ali era sua cara. Era uma oficina suja, cheia de graxa, como devem parecer as boas oficinas. Peças, bigornas, maçaricos, pneus, correias, calhas de bicicletas impinduradas pelo teto, câmeras de ar, remendos espalhados por aí... O que diferenciava aquela das outras oficinas eram os calendários: não haviam fotografias de mulheres seminuas em estúdio artificiais, com coqueiros e folhas de plástico. Ele gostava muito de personagens coloridos de histórias em quadrinhos. Poderiam ser reconhecidos naquelas paredes, um ou outro ícone pop das artes seqüências norte-americanas. Desenhos de heróis e heroínas com corpos perfeitos revestidos em colantes que acentuavam mais ainda as curvas de seus músculos.
Como um médico legista sobre uma mesa de autópsia, seu olhar meticuloso olhava curioso, procurando excluir todas as possibilidades que não explicassem aquele falecimento. A diferença era que aquela peça fria sobre a mesa poderia ser consertada, poderia voltar a respirar, explodir, esquentar... Bastava para ele, tempo suficiente, e aquele coração voltaria a bombear. A noite seria longa.
Ela chorava em seu quarto. A noite fria obrigava-a a curvar-se sobre o próprio corpo. Ela só queria que ele estivesse ali. Quantas vezes durante todos aqueles anos de namoro foi só o que ela pediu: mais atenção, mais demonstrações de carinho.
O colchão ficava estirado sobre o piso, cheio de livros, revistas e roupas sujas ao redor. Alguns cd’s românticos.
Mas nada disso importa, dessa descrição física. Apenas, ela chorava...
Quando se encontraram no outro dia, o motor ainda estava sobre a mesa. Ele sorriu. “Não vou desistir desta beleza”, disse enquanto dava um tapinha no coração de aço.
─ Cleiton, Cleiton... Se conseguirmos fazer este carro voltar a andar eu... Eu nem sei cara!
─ Nada que mais um pouco de paciência não resolva... Novidades?
─ Te trouxe uma raridade: O Evangelho do Coiote! Conhece?
“Fala sério!”, Cleiton agarrou a edição ensebada das mãos do amigo. DC 2000, nº 07. A capa, brilhantemente ilustrada por Brian Bolland, apresentava um cara loiro, de óculos estranhos, deitado no chão, de braços estendidos como se crucificado numa encruzilhada no meio do deserto. Metalingüisticamente, uma mão externa, de um artista criador, retocava as últimas cores do uniforme amarelo da criatura, o herói. Na parte inferior havia a frase: “Homem-Animal e os caprichos de um Deus”. A edição ainda vinha recheada de uma estória escrita por Grant Morrison, e tratava sobre a revolta frustrante contra o desespero e angústia do cotidiano violento na vida de um coiote, que passa todos seus dias numa caça interminável e infrutífera contra um papa-léguas. “Cara, como tu conseguiu isso?”, continuou.
─ A gente consegue de tudo no mercado negro. Espero que isso não atrase o conserto do potente aí...
─ Mas nem se preocupe.
Joaquim era um amigo de antigamente. Conheceram-se chafurdando em sebos de antiguidades do centro velho de Theresina, nestes lugares onde se encontra de tudo que não vale nada e até algumas coisas curiosas. Descobriram que dividiam uma paixão em comum: histórias em quadrinhos, com o seguinte diferencial: Joaquim era um exímio operador de lápis e nanquim, produzindo pranchetas incrivelmente belas, contando histórias absurdamente surreais, autênticas e autorias. Enquanto Cleiton, não passava de um degustador e crítico, mais ligado à fase de colantes, capas e cuecas sobre as calças. Apesar da distante diferença de gostos, davam-se muito bem, principalmente quando travavam disputas titânicas sobre os gêneros, não chegando a lugar nenhum a respeito de qual deles estava mais correto, mas era essa toda a diversão...
“Vamos trabalhar?”, disse Joaquim, fazendo que arregaçava as mangas compridas imaginárias de sua camisa. “Ainda há muito que fazer pra esse bicho voltar a andar”. Já estavam nessa labuta desde o ano passado, completariam oito meses dali a uma semana, e tudo o que pareciam ter conseguido era espalhar peças de um lado para o outro. Mas tudo estava meticulosamente planejado, apesar das aparências dizerem o contrário. Todo aquele galpão parecia ser apenas para o maverick vermelho. Cada palmo do carro era revistado, procurando-se detalhar minuciosamente o que poderia estar faltando ali. Deixaram o motor para o final: a parte mais delicada. Todos os sucatões da cidade foram visitados em busca das peças certas. A busca de se construir a alma correta para aquele corpo passava não apenas pelo esforço de se realizar a restauração do carro, mas em se escolher desde o retrovisor correto, os pneus perfeitos até a mínima polca escondida sob a lataria escarlate.
Era uma paixão. Completar aquele carro era um sonho. Fazê-lo trilhar pelas rodovias do Piauí, era um outro sonho. Mantê-lo sempre assim seria o maior de todos os sonhos. Estavam decididos a entrar o ano novo numa fantástica viagem inaugural na nau robusta que apelidavam carinhosamente de Nancy, “a miúda e magricela Nancy, ela crescerá, encorpará”, recitava Joaquim, parafraseando com certa liberdade um texto que lera há muito tempo, numa dessas histórias em quadrinhos de que tanto gostava.
Seus estudos nunca lhe foram tão prejudiciais. Estudar nunca fora tão sufocante. Mas não era o estudo em si, era toda a dificuldade de conseguir estudar, de conseguir se concentrar, de conviver com os colegas de sala e com os professores.
A distância só piorava as coisas.
Não conseguia encontrar muito sentido naquelas palavras que os volumosos livros apresentavam à sua frente. A angústia do futuro incerto corroia-lhe a alma.
A distância só piorava as coisas.
Eles se encontraram numa pracinha.
A coisa foi tão assim. Tão decidida, tão certa do fim, que não sobrou, na hora da partida, tempo ou querer suficiente, para um último beijo de despedida.
Joaquim costumava aparecer sempre. Em alguns dias, vinha mais de uma vez. Ontem não aparecera, o amigo saíra com a namorada. Quando chegou, cedo da noite, preparado para passar uma madrugada de domingo sujando as mãos de graxa, encontrou-o deitado no banco traseiro da Nancy. Percebeu os olhos vermelhos.
─ Hoje não, Joaquim... Não tenho vontade... ─ disse Cleiton.
O amigo sentou na frente.
─ Diz aí!
A noite ainda foi longa, mas estavam trabalhando agora em outro coração que também parecia sangrar.
Ela chorava muito. Tomara uma decisão difícil. Precisava tomar.
Os dias seguiram-se sem muita pressa. Na verdade, muito mais demorado que o costumeiro. A oficina não apresentava motivos para animá-lo. Não dava mais conta da Nancy nem dos outros serviços. Nenhum dos conselhos era suficiente. Acreditou que aquilo logo passaria. Em sete anos, a segunda vez. Tudo poderia voltar. Ela mesma disse.
A princípio, além da falta de força, um profundo sentimento de culpa, mas esperanças. Depois, logo, raiva: brutal. Ódio! Explodir! Cair nas bocas. Fazer o que nunca havia feito...
...Fez.
─ Volta pra mim!, pegou em seu braço, mas sem a força que queria.
─ Não é assim. Não pode ser assim, nem conversamos...
─ Volta pra mim!, repetiu sem a força que precisava para ela acreditar.
─ Você não entende, não conseguiu...
─ Eu quero estar contigo...
─ Você já estava na rua...
─ Sem dona, interrompeu.
─ Não, concluiu.
Tinha vontade de abandonar a Nancy. Faltava-lhe tesão. Não havia inspiração alguma para o trabalho. Mal-humorado além do costume, procurava entreter-se lendo as velhas histórias em quadrinhos do baú. Era para isso suas únicas energias agora.
Um garoto entra na oficina. Trazia uma pequena bicicleta com o quadro quebrado.
─ Remenda?, arriscou o menino, fungando a secreção para dentro do nariz sujo.
De dentro da rede, cogitou, com o olhar, se disponibilizaria um pequeno esforço.
─ ...Deixa aí! Volta amanhã!, aceitando o desafio.
Certo dia, depois de acordar e de se sentar na rede com os pés descalços no frio piso do quarto, ele pôs as mãos em concha sob o queixo e voltou a pensar em assuntos que não conseguia enterrar.
Olhou para o lado e pegou suas sandálias de plástico. Vestiu uma camisa que estava enganchada no canto do armador. Não havia nenhuma imagem nela. Era simplesmente uma camisa azul com três botões.
Seu café era apenas puro, forte e com uma fatia de bolo de goma com manteiga, esquentado na cuscuzeira. Estava duro depois de duas noites dormidas.
Morava só. Os cômodos ficavam atrás da oficina, não passavam de dois: quarto-banheiro e cozinha-sala. A ordem estava no caos da arrumação. Tudo deveria estar onde fora jogado. Assim funcionava.
Ele foi caminhando até a bodega comprar algo para o almoço. Arrumando as prateleiras estava uma garota bonita, baixinha, com o rabo de cavalo muito bem feito. Parecia familiar. Voltando do caixa, ao se cruzarem novamente, ela sorriu e acenou, ele respondeu o gesto com um leve aceno de cabeça e com um sorriso, tentando ser simpático. Agora lembrara: havia estudado com ela alguns anos atrás. Masturbou-se muito pensando nela. Caiu numa paixão juvenil. Hoje, não lembra mais seu nome. Como um espadachim assassino que precisa saber o nome da vítima antes de executá-la, ele sabe que não irá mais se masturbar para ela. Apesar do passado recente, ela é apenas um rosto bonito, mas sem nome, quase esquecida.
Tentou conversar, mas nunca soube como. Sair com Joaquim e abordar umas garotas era diferente. No fim de festa só sobravam eles e elas. Ele tinha certeza do que todos queriam. Apenas se divertirem. Ela era apenas uma garota bonita, desconhecida, arrumando o balcão. Ele não sabe se ela quer se divertir com ele ou se aceita seu dinheiro.
─ Você acha que tem volta?
─ Porque?
─ Vai ficar assim até quando?
─ Quem pode saber?
─ Vamos sair?
─ De novo?
─ Não ajuda?
─ Ajuda?
O “nheeec-nhec” das engrenagens do monociclo espalhava-se pelo deserto. Trêmulo, ele se equilibrava. Distante, no horizonte: uma nuvem de poeira crescia.
À beira do asfalto no deserto, o monociclo aventurava-se.
Um grande veículo trazia a nuvem. Subiu no asfalto, um enorme caminhão truck vermelho. Em alta velocidade, chamou a atenção por que vinha em marcha ré.
Vruuuuum... Cruzou o monociclo.
Olhou para a boléia do caminhão. Viu a si mesmo, divertindo-se como na noite anterior, com as mesmas pessoas: Joaquim, ele e as garotas. Riam tão alto quanto o rancor do motor.
Passou.
“Nheeec-nhec...”.
Acordou.
─ Acelerando... Estou acelerando em marcha ré...
─ Se você não vai consertar a bicicleta, devolve! Eu não quero voltar de novo.
O quadro da bicicleta precisava de uma bela solda. Ele já havia começado duas vezes, mas não conseguia terminar.
─ Chega aqui, baixinho, traz aquela máscara ali...
O garoto alcança uma pesada máscara de solda de cima de uma mesa de madeira maciça, preta de graxa.
─ Sua bicicleta não precisa de muita solda não, tá vendo? São só umas gotas por aqui... Protege teus olhos com isso aí, vai!, vou te mostrar...
Posicionou a mão na frente do rosto, fazendo sombra nos olhos e colocou o bastão de solda sobre a parte quebrada. Algumas vezes, reforçando.
─ Aqui tá pronto, mas eu deixaria a bicicleta aqui por mais um dia... O garfo tá empenado, tá vendo? Tem muita folga no guidão e na corrente, sem falar que está tudo seco, precisando de uma graxa aqui e acolá...
─ Ih, seu moço, num vô ter dinheiro pra tudo isso não...
─ ...Hum... Faz assim, você quer sair daqui com essa bicicleta tinindo?
─ Quero!
─ Então me ajuda com o seu serviço aqui, me traz alguma coisa pra jantar e tamos conversado, feito?
─ Certo! Mas queria pedir mais uma coisa, moço...
─ O quê?
─ Posso ficar usando a máscara-de-ferro?
─ Claro! Nós somos uma dupla: o incrível Borracheiro e seu fiel ajudante mirim, o Máscara-de-Ferro.
─ Você não vai dizer nem “oi”?, disse ela.
─ Não sei se devo, respondeu.
Ela estava no corredor que leva à sala do cinema, conversando com uma conhecida atrás do balcão de bombons.
─ Eu adoro este lugar...
─ Pena que é a última vez que vem à Piripiri, respondeu.
Agora estavam de mão dadas, caminhando numa cidadezinha do interior, onde costumavam passar os feriados...
Ele acordou. Isso o angustiava. Queria parar de sonhar e simplesmente dormir. Apenas dormir, sem sonhar...
Joaquim chegou com o mesmo embrulho que, tão cuidadosamente, Cleiton havia carregado até a casa dela. Um embrulho que cabia no bolso.
─ Ela pediu que devolvesse...
Recebeu a contra-gosto.
─ ...Sequer abriu...
─ Disse que leu o bilhete e imaginou o que havia dentro... Não quis...
─ Ela não entendeu nada... Não era um pedido, era simplesmente um presente de despedida, uma prova de que eu acreditava em suas promessas, de que o ano que entra seria...
Calou-se. Jogou o embrulho dentro de uma caixa de sapato suja debaixo da cama. Voltou para o fundo da rede...
─ Ela ainda disse que tu não devia procurar ela mais, não... Que está dificultando as coisas pros dois...
─ Pros três: eu, ela e o outro cara...
─ Você sabe que isso não teve nada a vê com o fim de vocês, certo?
─ ...
─ Esse outro cara. Nada a ver. Certo, Cleiton?
─ ...Certo.
A madrugada foi cheia de demônios.
Ao amanhecer, a oficina era um caos. O que não fora destruído estava espalhado de um canto a outro. O corpo jogado de costas, encostado ao pneu do maverick, a Nancy. Algumas garrafas espalhadas pelo chão. Parecia o fundo do poço.
─ Sabia que’u não deveria ter te deixado só, disse Joaquim. Quando saí ontem, tudo me dizia para ficar por aqui...
─ Eu não consegui, Joaquim...
─ O quê?
─Destruir a porra deste carro!
Deu um soco na lataria da porta. De fato, era a única coisa intocada no local.
─ Todos os dias e noites que eu estava aqui, com você e o carro... As escolhas que me afastaram dela... Ela nunca se sentiu à vontade aqui, com a gente e nosso sonho, se sentia à parte. Eu não consegui trazê-la conosco, nem ficar com ela...
─ Não dependia só de ti, cara. Ela também não conseguiu chegar... Da minha parte...
Joaquim olhou para um lado e para o outro, encontrou e pegou um pesado cano de aço com um joelho de encanamento para tubulação numa das extremidades, levantou com força e golpeou com brutalidade o capô do carro, sem coração. Cleiton assustou-se e levantou de um salto, incrédulo.
─ Da minha parte, como estava dizendo: me desculpe. Nossos sonhos distantes e incomuns tem parte nisto, nessa merda toda.
Jogou o cano sob seus pés, que rolou, ecoando pela oficina. As mãos de Cleiton pousaram sobre ele. Agarrou-o. Não se tratava de loucura, era ódio puro, canalizado. Coitada da Nancy, nem pôde ver o quê a atingiu...
domingo, 9 de novembro de 2008
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008
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