quinta-feira, 1 de maio de 2014

A Fundação Nacional de Humor foi assaltada! De quem é a culpa?

Foto de Yala Sena ou Evelin Santos

A questão é muito mais complexa do que parece. Apontar um culpado é sempre a primeira coisa que fazemos. Normalmente esse peso cai sobre as costas do Albert Piauhy, que desde o começo da década de 1980 luta pelo humor gráfico levando o nome do nosso Estado pra fora do país: na minha opinião, o Salão de Humor do Piauí faz parte da construção da nossa identidade cultural e só pode ser comparado em importância e longevidade ao Encontro Nacional de Folguedos, e isso se deve, principalmente, pela iniciativa do Albert. 

Para mim, a luta do eterno presidente da Fundação Nacional do Humor é prova do seu carinho e dedicação inquestionável...

Entretanto, as pessoas criticam a "administração" do Albert e o acusam por deixar a Fundação Nacional de Humor às traças, mas esquecem que uma luta não se trava só.

Talvez esse seja o verdadeiro problema... A Fundação Nacional de Humor foi abandonada, e não apenas pela administração de um ou de outro, mas por todos aqueles que poderiam ter tomado aquele prédio pra si e sonhado junto com o Albert.

Falo por experiência própria: muitas vezes o Albert pediu que eu fosse presidente da Fundação, ou que eu levasse o Núcleo de Quadrinhos do Piauí para lá, naquele prédio que recentemente teve as portas arrombadas e os desenhos roubados e vendidos por R$ 10,00 pelas esquinas de Teresina. Eu até tentei: já fui vice-presidente daquela instituição e em 2004 fiz o Theresina HQ Festival, um evento de quadrinhos na praça Ocílio Lago, onde está o depredado prédio, sede da Fundação. No ano seguinte, fiz uma exposição de quadrinhos dentro do Salão de Humor, coisa que não acontecia há décadas... Infelizmente, ficou apenas nisso mesmo.

Acontece que as pessoas não se juntam, não se entendem, não sonham juntas, afinal, "o Núcleo de Quadrinhos do Piauí não poderia acabar e ir pra debaixo das asas da Fundação de Humor". Esse era o medo.

Há dez anos, a Fundação funcionava. Tinha funcionários e expediente. Tinha algum recurso do Estado (ou da prefeitura), tinha um ponto de cultura em Água Branca e projetos como o Picoler (carrinhos de picolé com livros dentro). Algo acontecia que poderia germinar... Mas as pessoas não se apropriaram daquilo. Tinham medo de "uma má administração" e não se esforçavam para participar dela. A Fundação foi perdendo, um a um, seus colaboradores e ficando abandonada. Albert Piauhy era como uma assombração escrita por Edgar Allan Poe vivendo naquele prédio aos escombros, inacabado, agarrando-se a um sonho que suspirava uma vez por ano quando conseguia juntar meia dúzia de pessoas para realizar esse evento que as pessoas batem no peito, orgulhosas, chamando de principal salão de humor do Brasil, comparável somente ao primo rico de Piracicaba.

Recentemente, antes do Salão de Humor do Piauí migrar para Parnaíba, onde parece estar sendo bem acolhido pela prefeitura, pelo público e pelos alunos dos cursos de turismo, Albert novamente pediu que eu assumisse a presidência. Eu, como qualquer cidadão medroso, elenquei um número incontável de problemas e deveres pessoais: eu casei, voltei a estudar, tenho meu emprego, enfim... O prédio continua lá, disponível pra quem quiser continuar sonhando e ter muito trabalho a fazer.

Talvez o problema seja muito maior e eu enxergo na Fundação Nacional de Humor um retrato "bem batido" de determinado ângulo do cenário cultural piauiense: onde temos cada um no seu canto, gestando em seu intestino uma criança que nunca nasce, que pode ter um pai, ou uma mãe, mas não tem uma família. É o retrato dos problemas que envolve o  descaso da iniciativa privada e do interesse público.

Não! Não dá pra simplesmente apontar para o Albert e colocar nele uma majestosa coroa de espinhos e julgá-lo um bobo da corte. 

Simplesmente, não dá!

Desejo ao Albert, antes de qualquer crítica precipitada ou bem feita, muita sorte, saúde, descanso e todos louros de sua batalha.

Por fim, gostaria de deixar algumas perguntas: quem realmente se preocupa e faz as artes plásticas e visuais acontecerem no Piauí? Há quanto tempo não temos um Salão de Artes Plásticas do Governo do Estado? Quantas galerias de arte nós temos? Há quanto tempo esperamos o Centro de Convenções voltar a funcionar? Onde está nosso Museu de Arte Contemporânea? Quais as empresas privadas do nosso Estado que tem projetos de incentivo a políticas culturais?

Para saber sobre o assalto, clique aqui.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Desenhando com o lado direito do cérebro

Livro que será base para minhas aulas na faculdade CET.
O livro "Desenhando com o lado direito do cérebro", de Betty Edwards é muito indicado para todos aqueles que pretendem desenvolver os primeiros traços.
O livro ensina como utilizar o lado subjetivo/artístico/direito do cérebro, ao invés do lado objetivo/técnico/esquerdo do cérebro. Acontece que a percepção e o desenvolvimento artístico é desenvolvido pelo hemisfério direito do cérebro, mas quando treinamos nosso desenho, normalmente utilizamos o lado racional, que corresponde ao esquerdo, e isso dificulta o aprimoramento do nosso desenho.

Livro muito interessante para todos os praticantes do desenho, isso porque os exercícios de cópia de imagens e fotografias presentes  no livro servem apenas para os primeiros passos do aprimoramento da percepção dos elementos básicos do desenho. Depois que você domina o lado direito do cérebro, desenhar torna-se muito mais natural e intuitivo.

Para baixar o livro, click aqui.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Por Dentro do Máscara de Ferro: as experiências de um herói interior.

Por Aristides Oliveira



Não, aqui você não encontra ninguém vestido com roupas super-coloridas, poderes daqueles que soltam fogo pela boca, raios pelos olhos, muito menos lutas coreografadas. O trabalho do quadrinista e articulador cultural (isso, articulador... produtor de ambientes culturais na área das HQs em Teresina, o que falta a muitos criadores hoje em dia...) Bernardo Aurélio passa longe das explosões gratuitas dos nossos amados heróis imperialistas, mas com uma influência fundamental no seu processo criativo.
Antes de falar de Por Dentro do Máscara de Ferro, vale a pena situar a importância do autor na cena das HQs na cidade. Autor de Foices e Facões – A Batalha do Jenipapo (junto com Caio Oliveira, seu irmão e artista dos bons, que participa do livro como desenhista convidado), Bernardo faz parte do Núcleo de Quadrinhos do Piauí, onde organiza (ao lado de uma equipe muito coerente) feiras temáticas em Teresina desde 2001 até então, movimentando o circuito dos quadrinhos independentes por aqui com muita responsabilidade.
O culpo diariamente por me tornar um apaixonado pelos quadrinhos há quase um ano, depois da indicação de Batman: Ano Um... não consigo parar de ler HQs... enfim... vamos voltar ao que interessa....
Por Dentro do Máscara de Ferro é um livro que te atrai fisicamente. Grande, vermelho, com uma capa impossível de resistir à leitura, gostoso de segurar e carregar por aí. Um diferencial que gostei foi o cruzamento com outras linguagens, marcados pela inserção do texto em prosa no início da história, seguindo com seus traços em p&b, bem como a preocupação com a paisagem sonora nos momentos mais importantes da saga. É, música e HQ transitam no mesmo espaço.
Já no índice, Bernardo lança para o leitor uma trilha indicada, prescrição sonora que desobedeci (quando comecei a ler, veio outro barulho na minha cabeça, pois na minha construção sonora do personagem coube outros sons, como Ten Years After e alguns momentos de Neil Young...) para experimentar outras possibilidades de leitura e exercícios particulares de imaginação.
A cada situação valiosa na trama, Bernardo faz as indicações sonoras aparecerem ao leitor, como podemos visualizar em Acelerando em marcha ré, com a trilha Foi tudo culpa do amor, de Odair José ou As rosas não falam, de Cartola e outras seqüências musicais articuladas ao enredo. Assim, Bernardo abre espaço para ampliar as sensações do público, tornando seu trabalho mais sonoro-visual-pop-experimental. Um jogo de mixagem que deve ser feito tanto com as músicas sugeridas e as que compõem o universo do leitor, sacudindo as experiências do personagem.
Numa oficina de carros, o jovem mecânico tenta recuperar o motor de um Maverick (entra o som de Alvin Lee e Ten Years After... viu? Não pude evitar...). Neste cenário é que a história do Máscara inicia em texto-prosa. Sua mente está dividida entre o fim de um relacionamento e o trabalho que o consome... a rotina... a repetição, a vontade de mudar o percurso: “tenho pensado em tentar coisa nova” (...). “O problema é esse: não sei o que quero. Só sei que preciso sair dessa oficina vez ou outra (...)”.
Uma inquietação move aquele mecânico, algo estava fora do lugar... A operação de reviver o Maverick foi um fracasso... Fecham-se as portas da oficina. A paisagem fica cada vez mais noturna e úmida. Um leve chuvisco, daqueles leves e demorados, com relâmpagos e trovões ao fundo... Nosso olho está do lado de fora da garagem aparentemente vazia e triste, esperando algo acontecer, pois dá pra ver lá dentro que a luz está acesa...
“A garagem abre. Dois faróis acendem (...). A Kombi ganha a rua. Dentro dele, pela primeira vez, a alma de um aventureiro encontra aquele botão de adrenalina escondido, que injeta batidas fortes no peito”. Eis que explode o Máscara de Ferro.
Caracterizado por uma máscara típica dos soldadores, carregando no seu “cinto de utilidades” um maçarico, umas chaves de boca e roda, martelo, pregos, porcas, um cano e o “antigo 38 do meu velho pai”, o Máscara de Ferro sai em busca de aventuras nas noites de Teresina.
Entre ações frustradas como “super-herói” da noite e explorações das suas habilidades, o Máscara abre para nós uma reflexão que move sua caminhada: “Será que temos de ser loucos para sermos heróis? Será que todos não usamos máscaras?”
E assim, vamos acompanhando o processo de auto-descoberta do Máscara. Após a cômica “carga dramática” que movimenta a performance do nosso herói, ele salta pelo ar e vivencia um conjunto de experiências fundamentais para reorganizar seus sentimentos, mesmo em conflito com seu melhor amigo: “Alguma vez, da altura desses teus vinte e poucos anos, tu já sentiu uma maldita certeza de que queria fazer alguma coisa na vida e que só o que te impedia era tu mesmo?”
Caminhando por Theresina (já escura), ele vai em direção aos seus fantasmas, pois a sua máscara é o instrumento que potencializa todas as suas vontades mais secretas, agora compartilhadas entre nós. É aí que fui imaginando os traços autobiográficos em convergência entre Máscara e seu autor, que o toma como elemento para explorar paisagens talvez inabitadas, se não houvesse a armadura construída para tal.
A busca por justiça, ameaçada por um desejo mal compreendido? A angústia e a vontade de invadir os olhos da antiga amada? Uma curiosidade insistente pela felicidade dela? Porquê tomar os olhos dos outros? “Você ainda não conseguiu colocar uma pedra por cima disso”? Estaria o Máscara, (como todos nós...) buscando uma armadura para resolver seus conflitos mais íntimos? Quantas Kássias precisamos (diariamente) para exorcizar nossos demônios, a fim de reinventar a noção de desejo e todo aquele pó que cobre nossas taras? Aqui entra Marina Lima (na minha trilha sonora), situando o amor dos dois: “Os dois cansados, de tanto amar, empapuçados, pra poder fugir, os dois cansados, de viajar, maravilhados, pra poder fugir, enquanto você se afasta me desenterro...”
Nada como a água para purificar os conflitos internos, mesmo com Deus cuspindo verdades que a gente não quer ouvir. Às vezes a gente toma o aprendizado como algo doloroso e é dessa forma que vejo o Máscara, um personagem que carrega a vontade de desbravar todos os seus limites e de conhecer esferas que fogem das convenções estabelecidas. Como invadir sem proteção? Como não sentir dor se algumas explorações podem nos custar um preço alto?
Todos os desbravadores da vida, seja por meio lícito ou não, guardam nas mochilas suas máscaras de ferro, pois o corpo não suporta todas as pressões: “somos tão falíveis”...
Sentado na calçada, conversando com uma garota perto da Ponte Metálica, talvez o Máscara tenha encontrado algum estilhaço que possa ser útil para aliviar seus conflitos. “Sabe o que acontece quando se pede algo a Deus? Ele te dá a oportunidade de provar para si mesmo se você merece o que quer... depende mais de você e das suas escolhas do que da vontade dele”.
Os demônios que o cercam são expulsos para que um Amor possa entrar. O Máscara enfrenta todos os seus inimigos interiores, amplia todos os seus horizontes de experiência, para finalmente completar seu objetivo mais importante: se reencontrar a partir do outro.
Bernardo é o Máscara de Ferro? Aonde você esconde a sua? Você já explodiu em si mesmo para arrancar as armaduras que o impedem de viver um grande amor? Não seria a nossa máscara um artefato moralista-conservador, diante da maravilhosa possibilidade de transitar pelo Inferno e por vários corpos oferecidos por Dino Buzzati? A diferença entre Máscara e Orfi é que aquele não usa violão para lutar contra seus maus espíritos, mas convergem no mesmo “inventário de ‘baixezas’ e de ‘nobrezas’, aquelas que se abrigam no coração de todos” (TOSCANI, Cláudio).



Orfi sofre o luto de não capturar Eura e o Máscara vive feliz, jogando fora sua armadura para poder (finalmente) olhar sem medo para a mulher que ama, encerrando uma saga interior, pois “poucas coisas no mundo devem ser como estar no fundo da rede com quem você quer”. A vida segue.


Aristides Oliveira é jogador de bola aos domingos, leitor de HQs amador, professor de História da Universidade Federal do Piauí (Floriano), editor da revista Acrobata.



quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Lançamento de "Por Dentro do Máscara de Ferro"


Neste dia 30 de janeiro de 2014, dia do quadrinho nacional, teremos o lançamento do livro "Por Dentro do Máscara de Ferro" na livraria Quinta Capa Quadrinhos (clique aqui para ver um vídeo explicando como chegar na livraria ou aqui para ver no googlemaps).


É um livro que conta a origem de um personagem que criei despretenciosamente há muito tempo atrás, em 2000. O Máscara não tinha um passado, era só um cara com uma máscara de solda na cara e um cano de ferro na mão enfrentando badidos na rua. Era uma sátira a super-heróis que nasceu da pergunta: como seria um super-herói piauiense? Então o Batmóvel virou uma Kombi velha, o cinto de utilidades virou um cinturão daqueles de metalúrgico, com um monte de apetrechos comuns...
Acontece que eu peguei esse personagem e o usei, literalmente, para contar uma história que precisava contar.
Trata-se de um livro bonito. Não estou me gabando do meu texto ou desenho, não se confunda! O que digo é que ficou um livro bonito de ver, de pegar, de folhear. Eu e os amigos-editores Lais Romero e Zorbba Igreja queríamos que o livro chamasse atenção, tivesse uma qualidade gráfica como raríssimos outros títulos do Piauí tem. Acho que conseguimos. Minha pretensão com esse livro é mostrar algo bom, em todos os sentidos, e tentar incentivar a produção de outras publicações.
Trata-se de uma obra sobre superar seus problemas rotineiros, sobre ser melhor que o que costuma ser. Uma história sobre obsessões e sonhos. Espero que gostem.


Sinopse:  Por Dento do Máscara de Ferro.

Um jovem mecânico (além de borracheiro e eletricista) fã de quadrinhos passa por um momento triste, mas muito comum à sua idade: a perda de sua primeira namorada. A única maneira que encontra para superar essa crise, relativamente parecida com a do Superman, Batman ou Homem-Aranha, é tornar-se também um super-herói. Uma história sobre superação de problemas cotidianos.

Alternando entre drama e comédia, a obra é dividida em duas partes: uma parte apenas de texto e outra composta por histórias em quadrinhos.

136 páginas, capa cartonada, P&B. R$ 30,00

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Piteco veio morar no Piaui!

Que o Piteco é da Paraíba todo mundo já sabe, depois de ler Ingá.

Capa do livro "Piteco - Inga", título lançado pela Panini e Mauricio de Sousa

A Pedra do Ingá é um monumento arqueológico que Shiko (desenhista da obra) usou como cenário para iniciar sua história em quadrinhos do personagem de Maurício de Sousa. Acontece que nessa HQ, Piteco e toda sua tribo estão migrando e o local onde eles chegam, ao final do quadrinho, me é muito familiar...

 A Pedra do Ingá, na Paraíba
A Pedro do Ingá, no quadrinho do Shiko



Não há nenhuma citação clara, e se Shiko não quisesse deixar margens para dúvidas teria desenhado a Pedra Furada da Serra da Capivara, mas não fez... 


Pedra Furada, no Sítio da Serra da Capivara

Entretanto, o fato é que existem três pinturas rupestres que identificam a geografia onde a tribo de Piteco chega que são muito característicos da nossa Serra aqui no Piauí.

As pinturas de homens dançando ao lado de galhos de árvores.

Homens dançando na Serra  da Capivara
 Homens dançando em Ingá
Novamente, homens dançando na Serra  da Capivara


A figura do beijo.
 Beijo na Serra da Capivara
Beijo em Ingá


E por fim, a própria Capivara, que é símbolo do nosso sítio.
 Capivara na Serra da Capivara
Capivara em Ingá.

Pronto! Não há quem me convença do contrário! 
Piteco é o nosso homem das cavernas aqui no Piauí!

(Atualizado em 24/01/14)

Para minha grata surpresa, depois de compartilhar essa notícia no facebook, o próprio Shiko confirmou, afinal, como haveria de ser diferente? Valeu, Shiko!



quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

POR DENTRO DO MÁSCARA DE FERRO


Por Dentro do Máscara de Ferro (livro de minha autoria com patrocínio do BNB, BNDES e apoiadores do Catarse) está perto de ir pra gráfica, por isso comecei a divulgar algumas imagens.
O livro deve ser lançado em janeiro. Acompanhe tudo em nossa página do facebook. clicando na imagem abaixo:

https://www.facebook.com/MascaraDeFerroVerdadesDitas?hc_location=timeline
Aproveite e curta nossa página lá também.

Abaixo vc encontra alguns previews.











segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Um Capítulo na História dos Quadrinhos no Piauí




Por Bernardo Aurélio

Obs: Esse artigo foi publicado na revista Caderno de Teresina, em 2006. Perdoem qualquer erro.

O Piauí tem uma nova história para contar sobre seus quadrinhos, um capítulo recente que pode ser narrado em poucas páginas. Pode-se dizer que este novo momento dos quadrinhos no Piauí surgiu em 1990, quando Jal e Gualberto[1], ilustres ativistas e representantes do quadrinho nacional, vieram ao IX Salão Internacional de Humor do Piauí e ministraram uma oficina expondo o conceito de “núcleo” para alguns alunos, como Anna Kelma Gallas, Kennedy Eugênio e Allan Ribeiro[2]. Logo após o Salão, esse grupo realizou as primeiras atividades em torno dos quadrinhos naquela década: ampliaram o grupo reunindo mais fãs da arte seqüencial, fizeram oficinas e formaram gibitecas em colégios e tiveram acesso à imprensa, publicando matérias em jornais. Infelizmente, os integrantes do então formado “Núcleo de Quadrinhos do Piauí” não conseguiram manter seus desejos de viverem a partir do trabalho desenvolvido com os quadrinhos. O tempo passou e tiveram de seguir outros talentos e aptidões, tornaram-se jornalistas, professores, médicos... e em poucos anos o Núcleo parou suas atividades.
            Em 1995, Willdaves Machado e Emanuel Richardson, associados que haviam participado das reuniões semanais promovidos pelo Núcleo de Quadrinhos do Piauí, adquirem uma banca de jornais no centro de Teresina, mais precisamente na rua 7 de Setembro com Areolino de Abreu. Lá é germinada uma nova idéia. Ribamar Rodrigues, o jornaleiro da banca teve uma simples idéia: reunir o grupo de jovens que assiduamente compravam quadrinhos por lá. Deu certo! A Banca do Ribamar, como é conhecida, ainda tinha alguns detalhes para atrair o público consumidor de quadrinhos em Teresina: era a única que dedicava uma parede inteira para as revistinhas em quadrinhos e mais, nenhuma além da Banca do Ribamar vendia comics originais, histórias importadas dos Estados Unidos.
Os encontros aos sábados foram crescendo e atraindo mais gente, revelaram grandes fãs, colecionadores e artistas que produziam quadrinhos. Tudo isso chamou de volta a atenção de Anna Kelma, já uma notória jornalista da cidade. Com muita paciência, fundamental para lidar com jovens iniciantes no mundo das artes, Kelma propõe a fundação da Associação dos Quadrinhistas e Aficcionados – AQUA.
A AQUA é organizada em torno de um estatuto, de objetivos, de adolescentes empolgados e da presidente Anna Kelma. A atenção que foi dada a esses jovens era uma experiência diferente. Os quadrinhos, até então não passavam de um hobby, de repente chega janeiro de 1999 e acontece a 1ª Feira de Quadrinhos do Riverside. Foi um grande evento, com lançamento de jornal (Estação HQ), palestras, sebos, exposição, profissionalismo e divulgação: não deixou de aparecer uma TV da cidade para cobrir o evento.
Ainda em 1999 a AQUA lança o informativo “Quadrinhos”, distribuído gratuitamente por correios aos seus 60 sócios, informando sobre novidades da nona arte e trabalhos que a Associação vinha realizando, como os projetos “Quadrinhos nas Escolas”[3] e “Papelaria Amiga do Desenhista”.
No dia 5 de maio de 1999, estréia no caderno Alternativo do Jornal Meio Norte a coluna semanal Estação HQ, onde a AQUA ampliaria suas atividades, comunicando-se com um número maior de leitores do mundo dos quadrinhos.Logo na coluna e estréia, a AQUA divulga a realização de um novo evento para os quadrinhos:

Realmente, como faremos um evento que demandará tantos recursos? (...) Com garra, planejamento e responsabilidade. Parece receita de bolo partidário, mas é pura verdade. O que arrecadamos mal dá para manter a correspondência em dia. Iremos fazer esse evento com caixa zerado (SEM AUTOR).

O evento pretendia ter expressão nacional e muitas categorias competitivas. Infelizmente esses objetivos não foram alcançados. O Festival HQ aconteceu ainda em 1999, de 4 a 7 de agosto, na Casa da Cultura. Mesmo apenas cinco meses após a feira do shopping Riverside, e sem alcançar suas principais metas, o Festival HQ ainda apresentou muitos pontos positivos: foram lançados vários fanzines[4], houve shows de Rock, inclusive lançamento de CD’s das bandas Capitão Guapo e Narguilê Hidromecânico. Houve participação do grupo Singular Plural (Maranhão) nas exposições além de oficinas e palestras.
Nesses dois eventos organizados pela AQUA em 1999, houve um profissionalismo e reconhecimento inegável pela sociedade teresinense. Aconteceram palestras e shows de pessoas como Douglas Machado e Júlio Medeiros.
Em 2000 a AQUA ainda divulgou que desenvolveria um novo e grande evento competitivo dentro do XVIII Salão Internacional de Humor do Piauí, infelizmente a associação extinguiu antes que isso pudesse acontecer. A explicação mais razoável para o fim da AQUA e o engavetamento de tantos sonhos foi a falta de ajuda dos maiores interessados. No informativo “Quadrinhos”, de março de 1999, a AQUA reclamava que 70% dos associados não contribuíam com a quantia simbólica de R$ 2,00 mensais. Isso levou a um profundo esgotamento da diretoria.
O ano de 2000 passou sem nenhuma atividade para o quadrinho piauiense além dos mesmos encontros informais na banca do Ribamar. Fábio Nascimento, um dos autores do fanzine Camafeu, escreveu na terceira edição do título que corria por algumas bancas naquele morno ano:

Gostaríamos de expressar, em poucas palavras, nossa insatisfação com relação ao Estado em que se encontra o movimento quadrinhístico piauienses: totalmente parado e praticamente moribundo. Bem diferente de há um ano atrás, quando era um movimento que começava a ganhar força e reconhecimento (NASCIMENTO, 2000).

2001 representou uma retomada das atividades que a AQUA realizou, pelo menos no que diz respeito aos eventos de quadrinhos. Eu, Bernardo Aurélio, e meu primo, Pedro Victor, que participamos de reuniões da associação e estivemos presentes nas feiras anteriores decidimos dar continuidade ao movimento. Com base neste pensamento continuísta, a 1ª Feira de Quadrinhos do Riverside e o Festival HQ da Casa da Cultura tornaram-se as duas primeiras Feiras HQ. De 8 a 11 de outubro de 2001 aconteceu a 3ª Feira HQ, também na Casa da Cultura, onde é realizada até hoje.
Houve uma grande participação: foi contabilizado uma média de 140 pessoas por dia e cerca de 100 trabalhos expostos. Aconteceu uma palestra sobre a produção do quadrinho brasileiro, com Antonio Amaral (autor de Hipocampo, premiado com o HQ Mix de melhor quadrinho independente de 2001) e Kennedey Eugênio (professor de historia da UFPI com publicações sobre quadrinhos no Estado). Foram lançados os fanzines Zona Zine nº1 (de Dedé Leão), MaxxZine nº 1 (Caio Thiago), Filósofo de Banheiro e O Messias e o Narrador (ambos de Bernardo Aurélio). Pela primeira vez em Teresina, houve uma exibição voltada especialmente para fãs de animês (desenhos animados japoneses), lotando várias seções de vídeo na sala da Casa da Cultura. A presença de um grande sebo para venda e troca de quadrinhos novos e usados também chamou a atenção. Foi considerado um bom evento, mas não teve a repercussão dos anteriores.
Em 2002, Pedro Victor não pôde dedicar-se inteiramente e eu tive tomar a liderança por muito tempo sozinho. Depois que os primeiros passos haviam sido dados, um grupo de ajudantes que foram prestigiar nosso trabalho no ano anterior, apareceu: Malu Flávia, João Luiz, Paulo Daniel, Francisco Freitas, Davi e Thiago Muniz foram a força motriz da 4ª Feira HQ.

O quadrinho, a cada dia que passa, ganha voz e vez no meio cultural de Teresina. Crescendo de forma meio tímida, os aficcionados pelo mundo HQ despontam e quando menos se espera eles mostram sua dimensão na cidade. Alguns eventos são cruciais para que eles saiam da toca e mostrem sua força. É o caso da Feira HQ, que acontecerá de 17 a 21 de dezembro, na Casa da Cultura, e ria reunir diversos quadrinhistas (PEDROSA, 2002)

Cerca de 350 pessoas passaram pela 4ª F-HQ. A maior movimentação de pessoas durante uma exposição da Casa da Cultura naquele ano. Palestraram Anna Kelma Gallas e Santiago Júnior, apresentando seus trabalhos acadêmicos, conclusões de curso. Amaral fez-se presente novamente, contando sobre sua vida, criação e publicação de três edições do Hipocampo.
Além de palestras com grandes representantes e estudiosos do quadrinho no Piauí, a quarta feira contou novamente com uma grade de exibição de animês, como Kenshin (Samurai X – OVA’s), Metrópolis e Vampire Hunter D, antecipando a grande força de público que só apareceria no ano seguinte, com eventos voltados exclusivamente para exibição dos desenhos orientais, como o Manganimation ou o Animex.
Gilson Fontenele é o dono de um sebo que sempre esteve presente desde a terceira edição, e confirma que grandes colecionadores procuram desde os clássicos Cavaleiros das Trevas ou Reino do Amanhã até Cavaleiros do Zodiaco ou Dragon Ball.


...um dos grandes atrativos fica por conta da grande variedade de mangás e HQ encontrados no local. Edições clássicas de histórias em quadrinhos de heróis como Batman e Super-Homem são garimpados.
(...)
A iniciativa é boa! Passeando pela feira a gente se depara com trabalhos profissionais de gente como Dedé, Arimatéia Rodrigues, Isabel Cristina, Bernardo, entre outros. Um material bom, mas que ainda conta com a falta de espaço para divulgação e, claro, o incentivo merecido (FRANÇA. 2002)

São os talentos revelados pela Feira HQ e reconhecidos pela imprensa. Infelizmente, culpar a falta de incentivo seria muito lugar comum. O Núcleo de Quadrinhos ainda precisa se organizar muito para exigir patrocínios e fazer mais pelo quadrinho nacional que exposições no Piauí.
Em 2003, sou convidado a organizar uma exposição de quadrinhos durante o Salão de Humor daquele ano. Esta tarefa quebrou um jejum de quase uma década sem a participação dos quadrinhos no Salão, desde de 1994, por ocasião do lançamento da revista Qua-qua-quadrinhos. Também monto exposição com a presença do sebo do Gilson no Teresina é Pop 2, evento da prefeitura que acontece em Agosto, durante aniversário da cidade. Estas atividades impedem-me de organizar um novo evento, por conta disto, Malú e Paulo, auxiliados pelos demais ajudantes que surgiram em 2002, realizam a 5ª Feira - HQ.
A 5ª F-HQ aconteceu de 18 a 21 de dezembro de 2003. Seguiu os modelos anteriores, mas infelizmente não conseguiu crescer substancialmente. O único fanzine lançado foi “Os Pankekas”, de Hugo Leonardo, o público esteve presente, continuando sendo um evento de destaque para a Casa, mas desta vez voltados mais para as exibições de animês, mesas de RPG ou para venda e troca de material em sebos. A exposição de desenhos continha muitos trabalhos dos anos anteriores. Faltou, mais do que antes, uma mínima divulgação e organização para captação de recursos.
Em 2004 iniciou-se uma proposta inovadora para o evento. O Núcleo de Quadrinhos da Fundação Nacional de Humor, ofereceu uma quantia mínima como premiação aos melhores trabalhos expostos na 6ª Feira HQ. Os artistas sentiram-se interessadas em participar. Produziram e inscreveram ilustrações. Houve também, pela primeira vez, uma premiação com brindes a um concurso de cosplay (fantasia) e uma oficina com quatro professores voltados ao ensino da construção e narrativa, arte-final, colorização e fanzine (professores Leno Jefferson, Francilon Carvalho Barros, Esaul Furtado e Bernardo Aurélio). A 6ª F-HQ ainda teve um Live Action (jogo de interpretação ao vivo) com grande participação de jogadores organizado pela Associação de RPG de Teresina – ARTE. Tiveram duas palestras, a primeira sobre o que é RPG e a ARTE, com Luiz Mário e Virgílio, e a segunda sobre a História dos Fanzines Piauienses, de minha autoria. Foi lançada a edição nº 0 de O Besouro, dos alunos de artes da Universidade Federal do Piauí – UFPI.
A 6ª F-HQ, apesar de demonstrar muitas características de uma organização amadora, mesmo com meia década de existência, representou para seus produtores um novo rumo para o evento e para os quadrinhos piauienses. É preciso ousadia e força de vontade para realizar eventos quando se tem apenas a pouca experiência dos jovens, a falta de tempo dos estudantes e o interesse do fã.


[1]              Gualberto é um dos criadores do Troféu HQ Mix, a mais importante prêmiação para os quadrinhos publicados no Brasil.
[2]              Meio Norte. Alternativo. Pág. 01. 07 de jan de 1999.
[3]              O Projeto “Quadrinhos na Escola” foi divulgado no dia 12 de maio de 1999, no caderno Alternativo do jornal Meio Norte. Aconteceu no colégio Mérito D’Martone.
[4]              Só em 1999 foram lançados doze fanzines: Kid Amba, Camafeu 1 e 2, Zona Zine 0 e ½, Seguidores de Yndico, Ócio 1 e 2, City Art, MaxxZine 1 e 73, Clam Fantasy.