quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Criaturas das Trevas Existem!

Criaturas das Trevas Existem!

Por Bernardo Aurélio

Eu estava saindo muito tarde do trabalho. Os colegas já haviam me advertido do perigo de deixar o prédio altas horas da noite. Mas o volume de tarefas estava crescendo assustadoramente e eu tinha de dar conta dos assuntos se não a bola de neve ficaria impossível de barrar.

Os processos estavam ocupando toda a mesa e meu chefe, em poucos dias não conseguiria mais me ver sentada atrás da pilha de pastas de documentos atrasados. O serão era inevitável também se eu quisesse tirar a semana de recesso que tanto desejava no início do próximo ano.
É verdade que consegui adiantar muito do que precisava, mas meus dedos começaram a doer, a vista pesou e meu pescoço parecia um nó de correntes, de tão tenso. A cadeira giratória parecia de concreto e minha bunda estava reta como uma régua.

Desliguei as luzes e tranquei a porta. O corredor estava vazio. A lâmpada estava piscando, a luz estava trêmula. Já havia pedido inúmeras vezes ao zelador que a trocasse. Ao fundo podia escutar apenas o elevador se movimentando pelos cantos de concreto do prédio cafona, construído há mais de trinta anos.
O barulho do salto-alto ecoando secamente a cada passo que dava começava a me amedrontar. Era a confirmação de que estava sozinha naquele silencio.

Segurava contra o seio, a pasta abarrotada de papeis inúteis. Dobrando à minha esquerda, pude ouvir o elevador parar. As portas abrindo. Passos. Devia ser o zelador...
Naquele canto estava uma planta triste, cheia de tocos de cigarros enfiados na terra, contra sua raiz. Quando cheguei até à planta, vi uma pessoa estranha: ele era alto, careca e tinha a pele escura como caramelo. Os músculos dos braços eram torcidos como troncos de árvores, apertados contra uma camisa branca de mangas curtas. Havia alguma coisa, talvez “Rock”, escrito na altura do seu peito. Algumas correntes prateadas nos pulsos, calça jeans preta, um pouco rasgada e botas, tipo coturno.

Ele olhou para mim. O negro dos seus olhos era profundo, sem luz. Nunca o tinha visto antes no prédio. Estranho. Ainda mais tão tarde da noite.
As lâmpadas piscaram, e, pode parecer estranho, mas tive a nítida impressão de que as sombras estavam escorrendo para um canto, como se entrasse pela janela do nono andar a luz do farol de um carro que passava pela avenida abaixo. Nesse instante, ele começou a me ignorar e passou por mim, quase esbarrando seu ombro pesado contra mim. Parecia nervoso e apressado.
Entrei no elevador e, antes que as portas fechassem por completo, vi-o tirar um chaveiro do bolso e pude ouvir as chaves a tilintar.
O antigo elevador resmungou um pouco, como um velho antes de levantar da preguiçosa, e desceu comigo.

O estacionamento era grande, mas àquela hora havia apenas meu carro: um Corsa branco. Havia goteiras d’água pelo chão e colunas cilíndricas que sustentavam toda a construção.
A porta que dava para a escada de serviços rangeu um pouco antes de abrir. Cambaleando, o enorme homem apareceu. Era incrível: primeiro por que ele já estava aqui em baixo, desceu os nove lances de escada mais rápido do que eu pelo elevador, segundo por que ele estava cambaleando! Era inacreditável! Uma montanha daquelas poder ser atingida por alguma coisa...
Carregava no braço uma simples pasta marrom de processo, igual a tantas que estavam sobre minha mesa.

Ele olhou novamente para mim e disse: “Você vai morrer, vaca!”. Antes que pudesse responder alguma coisa, ou que aquele brutamontes desse um único passo sequer, algo que vinha da escuridão das escadas socou suas costas tão forte que um sangue negro espirrou logo depois que ouvi sua caixa torácica estourar. Nunca havia visto um sangue tão negro antes, espalhando pelo chão, como uma poça de lama.
O estanho sangue parecia agora parar de jorrar. O coração deveria ter parado de bater, mas não, não foi isso. O sangue parecia cada vez mais denso e escuro e agora estava recuando, como se voltasse para o corpo. Assim, simplesmente voltando com calma e lentidão...
A escuridão do corredor parecia maior, como se as próprias paredes estivessem cobertas de um veludo negro. Um veludo corpulento. A escuridão parecia pesada e viva. O sangue não voltava para o corpo, atravessava-o rumo ao corredor. A maior parte do sangue não era “sangue”, era como se fosse a própria escuridão.

Passos desciam às escadas. Perplexa, pareci idiota lembrando que já deveria ter saído daquele estacionamento a muito tempo. As chaves na palma da minha mão pareciam peixes aflitos pulando no asfalto quente. Nunca conseguiria abrir o carro, ligá-lo e sair dali à tempo.
Os passos pararam, por um instante tudo ficou em silêncio. O corpo começou a ser puxado para o corredor por várias mãos negras. O sangue escorreu até as escadas, onde a vítima começava a desaparecer. Como que acordando de um coma, só naquele instante consegui gritar o grito mais terrível da minha vida.
Enquanto o berro ecoava pelas paredes do assustador prédio, o corredor das escadas pareceu iluminar-se vagarosamente, como se uma pequena luz fosse acendida gradativamente. De repente, todas as luzes do estacionamento acenderam-se e dois seguranças entraram segurando suas arma no coldre da cintura.

O sangue havia simplesmente desaparecido na altura de alguns degraus. Não havia mais ninguém além de nós três, assustados e confusos. A pasta marrom de processo que era carregada pela pobre vítima também não estava mais lá.
Em meio a toda luz que nos envolvia naquele estacionamento, aquela noite foi para mim o momento quando passei a abrir mais os olhos para qualquer canto escuro da cidade. Depois daquela noite, foi como se tivesse despertado para algo que está profundamente guardado não apenas nas sombras de um prédio assustador, mas dentro de cada pessoa, como se nós escondêssemos as mais terríveis criaturas das trevas.