quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Entrevista com Albert Piauhy - Parte 2

Continuação da entrevista com Albert Piauhy, por Bernardo Aurélio

Pergunta nº 31, Bernardo Aurélio: Como você se enxergava naquele movimento cultural da década de 70? Você se enquadrou em algum movimento?
Albert Piauhy: Quando eu cheguei em Teresina, era uma cidade muito fechada, muito provinciana e Teresina nunca se abriu muito pra ninguém E a vida cultural de Teresina era a churrascaria Avenida, na Frei Serafim. Não existia charge na imprensa local. Não existia música nos bares como tem hoje. Não existia nada. Teresina não tinha nada de arte. O que você tinha naquela época forte, era a Jovem Guarda, que tinha uma penetração muito grande na sociedade. Então, haviam grupos musicais que tocavam as músicas da Jovem Guarda: Os Metralhas,  Os Brasinhas e dezenas de grupos que tocavam em festas. Então o forte naquela época eram músicas que você tinham desses grupos. E fora isso o que é que tinha? Não tinha um salão de artes plasticas, não tinha museu, não tinha porra nenhuma. Então, eu cheguei numa cidade que, artisticamente, não tinha nada. Esporadicamente tinha o lançamento de um livro de um autor que mandava publicar seu livro, mas não tinha nada. 



32BA: E o grupo Gramma, tu chegou a ter contato com ele?
AP: Então, o movimento cultural do Piauí naquela época, se fazia muita coisa no teatro: Francisco Prado, Gomes Campos, Carlos Santana, Ari Sherlock, Caitano Silva, era um movimento teatral incipiente, mas muito forte. Por que? Porque eram caras do caralho! Entendeu? Pessoas fortes dentro da sociedade. Então tinha um teatro funcionando no Piauí. Naquela época nós estávamos na ditadura muito forte e tava tendo um movimento contracultural no mundo inteiro, entendeu? E tinha um grupo de garotos, de jovens, muito inteligentes, que era o Edmar, o Galvão, o Pereira, o Marcos Igreja e tantos outros, aí eles fizeram um jornal chamado o Gramma. Eles realmente eram muito inteligentes. Eu acho que foram eles que abriram tudo pra cidade, entendeu? Pelo menos pra mim, foram eles. E nessa época eu tava chegando de Luzilândia e não tinha condição de ter acesso a eles. Eu era “menino véi” que tava chegando. Eu fui conhecer eles depois, muito tempo que eles já tinham deixado de fazer o jornal, porque eu namorava com uma menina, que o Edilberto, que era do Gramma, também namorara, aí eu passei a conhecer esse pessoal. O Gramma foi um jornal revolucionário, abriu muito a cabeça do Piauí e que a partir daí, eu acho que muita coisa começou a acontecer na juventude teresinense. Lá desenhava o Arnaldo Albuquerque, ele começou a desenhar ali. E o Arnaldo realmente era um cara fantástico, era bonito, era “americanizado”, usava uma jaqueta, tinha uma moto.

33BA: Você chegou a editar o Humor Sangrento. Como foi conheceu o Arnaldo?
AP: Fui eu e o irmão dele que editamos. Eu conheci o Arnaldo assim: o Chico Viana era do jornal O Dia e namorava uma amiga da minha mãe. E o Chico Viana pra puder conquistar a garota, tinha de me conquistar também. Aí eu andava de carro com o Viana nessa cidade, nos bares, no meio jornalístico e um dia ele passou pra pegar o Arnaldo em casa, pra fazer desenhos para o Segundo Caderno. No jornal O Dia, pela primeira vez se fazia um caderno cultural em Teresina, aos domingos. E o Arnaldo já era chargista e desenhava lá. Aí o Chico Viana disse assim: “vamos ali pegar o Arnaldo”. Porra! Eu fiquei tremendo, porque eu conhecia o Arnaldo de Luzidlândia. Porque o Herculano dirigia o jornal eu Arnaldo fazia xilogravura lá e eu gostava das coisas que o Arnaldo fazia. Aí, de repente, eu tava no mesmo lugar que o Arnaldo. Aí nós saímos dali e fomos pro jornal O Dia. Aí eu conheci o Arnaldo e a partir dali eu colei no Arnaldo. Sempre que ele tava num lugar, eu tava atrás dele. Aí o Arnaldo me levou para as festinhas do pessoal do Gramma, nas casas tinha maconha, bebida. Era engraçado, eu fumava meu primeiro “baseado” eu capotava assim, no meio da noite (risos). Que ele já tinha costume de fumar e eu não, entendeu?
Aí eu conheci o pessoal do Gramma, através do Arnaldo, e aí começou a me dar força. Assim, o cara que não sabia desenhar, eu desenhava ruim pra porra, mas ele tinha paciência, sabe? Aí fiquei muito amigo do Arnaldo, a partir daí. Só que aí o Arnaldo se afastaria do jornal e começaria a desenhar quadrinhos, definitivamente, até ele ter aquele acidente fatídico com a moto. Na verdade, dizem que ele queria se matar. Eu acho que ele tava era doidão. E a partir daquele acidente, o Arnaldo nunca mais foi o mesmo. Porque o Arnaldo tinha liderança, era um cara bonito, simpático, envolvente. Quando ele chegava assim num lugar, ele comandava. “Vamos fazer isso! Vamos fazer assim!”. Ele tinha uma liderança tão grande, cara, impressionante! Aí depois que ele teve aquele acidente, quando passou quase dois anos deitado numa cama se recuperando, quando ele saiu da cama, ele não tinha mais capacidade de liderança. Ele perdeu a liderança, porque não tinha mais vontade. E é uma coisa que envolveu também a Lídia, que ele era apaixonado por ela e não deu mais certo. Uma série de fatores que contribuiu pra isso.



34BA: Como foi que surgiu a ideia e a oportunidade de fazer a revista Humor Sangrento?
AP: Naquela época a gente fazia um jornal chamado “Chapada”.

35BA: Foi antes, né? Vamos começar como Chapada, então. Como surgiu a ideia, como foi tua participação n'O Chapada do Corisco? Depois a gente volta lá pro tempo cronológico...
AP: A gente tinha a ideia de fazer o jornal. E naquela época todos nós eramos muito “fodidos”. Assim, naquela época não tinha mercado de trabalho pra nós. Nós todos éramos garotos que nos virávamos com muita dificuldade e os únicos caras que tinham uma posição assim mais organizada era o Dodô Macedo e o Cineas Santos. O Cineas era professor, dava muita aula, então ele tinha uma vida organizada, entendeu? E nós, não. Aí surgiu a ideia de fazer esse jornal. Juntou eu, Cineas, Dodó Macedo, Paulo Machado, Assai Campelo...

36BA: Eu vi que teve participação do Torquato...
AP: Não! Torquato não teve nada a ver com essa coisa do jornal. Ele já tinha morrido. E o Arnaldo tava no Rio de Janeiro. O Etim, que publicou, morava no Ceará, que era do Gramma. Aí a gente começou a fazer o jornal que quem diagramava era eu, aliás, quando olho pro jornal hoje, porra! Mal diagramado pra porra! Que vergonha, aquele jornal. Eu diagramava e fazia ilustrações. Ruim pra porra, as ilustrações. Quando eu olho, é impressionante.

37BA: Tinha uma linha editorial? Tinha uma proposta, o jornal?
AP: Tinha não. Eram as preocupações que a gente tinha naquela época. Era época da ditadura militar, então a gente tentava colocar no jornal aquilo que a gente tava sentindo, mas que não tinha filosofia não, assim definida, uma linha editorial. Era um jornal muito “ruinzinho”, eu acho. Era mal diagramado, a tipologia... Até porque ele não tinha recursos. Era feito em máquina de datilografar, a gente colava os textos no papel, mas ali desenhava o Arnaldo, o Dodó, o Fernando Costa. Ali escreveu Carlos Zé Cunha, o Etim, o Cineas, Alberone Lemos. E ele durou enquanto foi possível fazer, sabe? Ele se acabou porque nós fizemos uma reunião como Antônio José Medeiros e o Manoel Domingos e as pessoas que estavam envolvidas com o Chapada resolveram fazer uma livraria chamada Corisco. Aí as pessoas que tinham dinheiro entraram como sócio e as que não tinham dinheiro... Quem tinha dinheiro era o Cineas, Antônio José Medeiros, Manoel Domingos e outras pessoas. Aí quando eles começaram a fazer a livraria, deixaram de fazer o jornal, viraram capitalista. Depois, o Antônio José sai da Corisco e o Cineas chama o cara do grupo de ensino “Andreas”.

38BA: O Antônio José Medeiros participava como do jornal?
AP: O Antônio José Medeiros morava no Canadá, ele foi estudar lá um tempo, se auto-exilou. Quando ele voltou pro Piauí, ainda hoje me lembro, teve uma reunião na casa do Santana e Silva, que era um cara que fazia teatro, pra reapresentar o Antonio José pra sociedade. Ainda hoje me lembro que o Antonio José fez um discurso na casa do Santana, onde ele dizia que tinha de fazer a revolução burguesa no Piauí, que no Piauí não adiantava! Tinha que ser feito a revolução burguesa antes de fazer a revolução de qualquer tipo. Só que ele tava certo, naquela época. Não sei se ele admite isso hoje. E ele se entrosou com a gente e começou a escrever artigo no Chapada, mas aí eles decidiram rever o jornal e nessa discussão eles decidiram abrir a livraria e não fizeram mais o jornal.

39BA: Era um jornal de “esquerda”, o Chapada?
AP: Rapaz, o Chapada não era porra nenhuma. Ele nunca atingiu ninguém, o público que ele atingia era mínimo. Ele nunca arranhou nada, não contribuiu com nada. Mil exemplares! O que eram mil exemplares para um jornal? Colocava na banca e ninguém comprava. A gente dava pras pessoas. Eu acho que ele não teve importância nenhuma dentro da cultura piauiense, sabe? A não ser o fato de que nós nos esforçamos em fazer.

40BA: Vocês tiveram algum problema com a polícia, durante a ditadura?
AP: Eu, quando fazia o jornal O Dia, fui chamado algumas vezes na polícia federal, por causa das charges que eu fazia. E uma vez eu tava em Luzilândia e eu fui chamado pra depor, porque alguém tinha visto eu falar uma coisa que era contra o sistema. E a gente recebia muita advertência, no jornal. Eu cheguei a ser preso. Eu, o Antonio José Medeiros, Jorge Riso, que é baiano, nós fomos presos pela ditadura.

41BA: Como foi essa história? Pode contar?
AP: Pode, cara! A gente conta qualquer hora. A gente tava sobre a ditadura e o Antonio José tinha vindo do Canadá, ele tinha se casado com a Rita, “Ritinha”, Cavalcante. E a casa do Antonio José começou a ser um local de discussão de política, entendeu? Eu era de dentro da casa do Antonio José e das reuniões, e lá começou a se fazer um grupo de estudos onde a gente estudava Fernando Henrique Cardoso (risos). Rapaz, Fernando Henrique Cardoso naquela época era revolucionário! É Celso Furtado, Otaviane, alguns autores assim daquela época que estudavam a sociedade brasileira. Aí um dia chegou um cara do Ceará, veio passar uns dias aqui e participou do grupo com a gente. Aí, o que é que acontece? Eu andava no meio da rua, ainda hoje eu me lembro, eu estava com o José Leite e um amigo meu, e eu fui a vários bares de Teresina, fui num bar, aí eu vi que tinha um pessoal seguindo a gente. Aí, depois, a gente foi no Luxor Hotel pra um evento sobre arte, e tinha um grupo seguindo a gente. Aí ele me deixou na casa de Antonio José Medeiros. Eu fiquei lá. Conversei um pedacinho, quando eu saí pra ir pra casa, uns cinco quarteirões depois, aí vários homens armados saíram de um volks e me prenderam, rasgaram minha calça, eu era magrinho, aqueles homens fortes assim, super-armados, me puseram no carro e tcham! (gesticula com a mão, um carro saindo em disparada). Aí me levaram pra polícia federal. Quando eu cheguei lá eu tive a surpresa de ver vários amigos meus lá, sabe? Revolucionários de porra nenhuma! Como eles eram desinformados, sabe? Aí tinham vários amigos meus lá presos. Cada pessoa que tinha contato ali na casa de Antonio José Medeiros, começaram a ser presos. Aí começaram os interrogatórios, eu fui colocado num quarto escuro e ele era “estreitim”, sabe? Era “estreitim” assim, sujo! Porque acho que era uma dispensa. Sujo. Ainda hoje eu me lembro, que eu tava de roupa clara. Aí eu fiquei lá, em pé, no escuro. E eu tinha bebido a noite todinha e eu tava numa ressaca da porra. A minha vontade mesmo era dormir, sabe? Aí eu me sentei naquela porra daquela sala escura, aí pensei: “sabe de uma coisa, vou me deitar”. Mas me deitar significava que eu ia ficar todo sujo. Era essa exatamente a ideia: ficar sujo e você perder a auto-estima, sabe? Porque ninguém foi torturado. Eu sei que quando, foi assim, quatro horas da tarde, que eu fui dar meu depoimento, eu tava todo sujo e com fome, porque eu não consegui comer a comida que tava lá. Eu sei que depois que eu fui libertado o Antonio José ainda foi levado pra Fortaleza, pra ser interrogado lá. A notícia saiu no Estado de São Paulo. Você pode olhar o Estado de São Paulo que tá lá a notícia da gente.  E a coisa interessante, é que quando eu fui interrogado na polícia federal, eles estavam com todos os desenhos que eu tinha publicado até então.



42BA: Como foi o interrogatório? Eles mostravam o desenho e perguntavam?
AP: Não foi desse tipo, não! Eu cheguei lá e tava toda minha coleção de desenhos e ele começou a folhear sem dizer nada, aí fechou. Aí eu disse assim: “Caramba! Eu mesmo não guardei! Agora eu já sei quando eu quiser fazer um livro eu venho aqui pedir emprestado”. Aí eles começaram a perguntar: “Você é comunista? Você tá participando de alguma cela?”. Aí começaram a me fazer pergunta sobre o Antonio José Medeiros. “Você tava no dia tal, local tal?”, eu digo “tava”. Eles sabiam onde eu tava no dia que o Antonio José tava. Aí eles começaram a fazer pergunta sobre o Antonio José Medeiros: “Antonio José é comunista?”, aí eu disse que ele não era, porque ele nunca foi, cara. Antonio José nunca foi comunista. Sempre foi de direita, ou melhor: não de direita, mas nunca foi de esquerda, entendeu? Quando o Antonio José foi pra reunião de Biuna, que ele era da Igreja, ele era um cara conservador. Ele nunca quis fazer a revolução. Aí eu disse assim: “eu me lembro que o Antonio José Medeiros tava na casa do Santana e ele disse que era preciso fazer a revolução burguesa no Piauí”. É diferente comunista, entendeu? Aí eles faziam pergunta assim: “E fulano de tal?”, eu dizia: “Coisa nenhuma!”, “Baiano? E a mulher do Antonio José?”, “coisa nenhuma!”. E aí eles começaram a fazer perguntas desse tipo e é claro que eu respondia com toda seriedade. Todo mundo era de esquerda, claro! Todo mundo era contra o sistema, mas ninguém quis ser contra o sistema jogando bomba, matando gente, entendeu? O grupo ali era pra estudar e eu nem estudava porque eu não tinha saco pra estudar os estudos que tinham na casa de Antônio José. Eu só era um frequentador. Porque lá era frequentado pela Helena e Helena, eu me interessava por ela, e depois eu casei com ela. Mas todo mundo naquela época, era envolvido com cultura e todo mundo fazia muita coisa naquela época: um era poeta, outro era cenógrafo, outro pintor, outro era músico. A gente se reunia e fazia as coisas juntos. Havia muita interação. Então, acho que era uma coisa muito importante para a cultura piauiense. Todo mundo que hoje faz cultura no Piauí de maneira sólida, começou ali.

43BA: Agora eu volto lá para a pergunta: como foi que surgiu a ideia de editar a Humor Sangrento?
AP: O Arnaldo mandava as histórias do Rio de Janeiro pra cá, as histórias que ele fazia deitado. E a gente queria fazer algo pelo Arnaldo. Era o único cara que desenhava quadrinhos no Piauí e fazia um quadrinhos inteligente. E a gente achou que aquelas histórias mereciam revista. E ele tinha um irmão que tinha uma gráfica, que era uma da maiores do nordeste.

44BA: Era a Gráfica do Povo?
AP: Não, era a gráfica do povo não. Ficava lá no centro industrial, vou já me lembrar o nome dela. Mas ele era dono da gráfica, mas não queria fazer de graça, não. Se não arrumasse um patrocinador... Aí o irmão dele era perfeccionista e o Arnaldo queria fazer as pranchas de vários tamanhos, sabe? Aí na hora de fazer a revista o irmão dele disse assim: “Vamos cortar e vamos juntar.” Ele me obrigou a cortar as histórias do Arnaldo. Ele dizia assim: “Enquanto os quadrinhos não ficarem todos iguais, eu não publico.”  Aí naquela época não tinha essa coisa da fotocópia, eu sei que eu tive de refazer todas as histórias do Arnaldo, remontar os quadrinhos. E eu fiz isso com o irmão dele. Então nós fizemos a revista Humor Sangrento. Ele mandou tudo do Rio de Janeiro pra cá. A revista foi feita aqui sem a presença do Arnaldo.

45BA: Teve alguma repercussão importante que você colocaria, sobre a publicação dessa revista?
AP: A revista teve importância no Brasil inteiro, cara. Foi muito importante porque foi a primeira revista em quadrinhos publicada assim, que eu saiba, não é? De um autor local, com desenho autoral, por um cara que sabia o que tava fazendo, que gostava de quadrinhos, que era o Arnaldo.

46BA: Chegamos aqui no Salão de Humor. Como foi que tu iniciou tua participação no Salão?
AP: Rapaz, eu vou te contar a minha história, que é a verdadeira. Tem a história do Kenard, mas quem quiser acreditar no Kenard, que acredite! É o seguinte: Eu era amigo do José Elias e do Kenard e ambos trabalhavam na Fundação Cultural do Piauí. Arnaldo Albuquerque, José Elias... Nessa mesma época, você pode ir fazer a pesquisa, a secretária de finanças da prefeitura, a Veroca Conde, que era “assim” com o Zé Elias, amiga de infância e amiga da gente. Aí eu disse: “Zé Elias, porque é que a gente não aproveita e faz o Salão de Humor do Piauí, aproveitando que a Veroca Conde é secretária de finanças da prefeitura? Que ela pode financiar, cara”. Foi uma ideia minha. Aí disseram: “Aaah! Mas não dá certo. Não sei o que, não sei o que, não sei o que...”. E eu fiquei insistindo, entendeu? Aí, quando foi um dia eu abro o jornal e tá lá o regulamento do primeiro Salão de Humor do Piauí. Aí eu disse: “Porra! Essa ideia é minha. Eu não fui nem convidado”. Sabe o que foi que o Zé Elias e o Kenard fizeram? Levaram a ideia pro professor XXX Mourão. E ele topou. Agora tu imagina! Bernardo, eu não entendo de quadrinhos, agora tu imagina eu fazer um regulamento de história em quadrinhos. Entendeu? Eu que não entendo de quadrinhos? Mas naquela época, só quem entendia de desenho de humor no Piauí era eu e o Dodó. Aí eu disse assim: “Porra Zé Elias e Kenard! Vocês não me chamaram pra discutir o regulamento”. Eles disseram: “Não, o regulamento já tá aí. A gente já mandou pro Brasil”. “Legal”. Aí, quando os desenhos começaram a chegar, tinha desenho desse tamanho, tinha desenho desse tamanho (gesticula tamanhos diversos com as mãos). Porque o regulamento não constava regras básicas. Aí quando eles foram montar, colaram tudo num estande aí botaram um plástico por cima. Só pra você ver como foi amador. E naquela época eu briguei muito com eles e eu fiquei muito puto porque nem pra ser jurado eu fui convidado. Pô, quem mais entendia de desenho de humor naquela época, era eu e mais duas pessoas. Nenhum foi convidado pra ser jurado. Foi convidado um fotógrafo, gente que não tem nada a ver com humor: “personalidade”, entendeu?
No segundo Salão foi a mesma coisa. Só que no segundo eu fui convidado pra ser jurado. Eles não me chamaram pra discutir o Salão ainda. Eles ainda fizeram um terceiro e foi um fracasso.

47BA: De participação?
AP: De tudo! Foi tão ruim os três Salões, assim desorganizado, sem método. Aí o Jesualdo Cavalcante assume a Fundação Cultural do Piauí, pra secretário de cultura. Aí o Jesualdo resolveu acabar com tudo que não dava certo. E tava o Salão de Humor na lista. Aí eu disse: “Kenard, não vamos deixar o Salão de Humor acabar. Ele pode ser um Salão mal feito, mas ele agrada a cidade”. Porque desde o começo ele agradou, sabia? Ele é uma coisa que agra a cidade. “O que a gente tem que fazer é organizar o Salão “direitim”, colocar regras e fazer outras coisas paralelas”. Aí o Kenard marcou reunião com o Jesualdo, ele disse: “Eu soube que você não quer que acabe o Salão”. Eu disse: “Secretário, o Salão de Humor, ele é feito de maneira desorganizada. Dá confusão todo ano”, porque os artistas piauienses tentavam colocar os desenhos deles e não eram classificados, sabe? “Mas nós podemos transformar o Salão de Humor num dos melhores eventos do Piauí e do Brasil, desde que a gente estabeleça um regulamento compatível e a gente fazer vários eventos paralelos a ele”. Aí eu expliquei todas as ideias, sabe. O que eu achava. A gente tinha que fazer feira de livro, música, teatro... Aí ele disse “eu vou pensar”. Eu fui pra casa. Quando foi no outro dia, de manhã, chegou um carro da secretaria. “O secretário mandou lhe chamar”.  Rapaz! Só um cara desses! Só-um-cara-desses, rapaz! Ele mandou me chamar. Ele disse: “T'áqui duas passagens, pra você ir a Brasília e Rio de Janeiro. A Brasília pra você conversar com o Ministério da Cultura e a outra pra você ir na Funart e conversar com os cartunistas do Rio de Janeiro”. Por acaso, quem dirigia a Funart era o Ziraldo. Aí eu disse: “Pô! Esse cara é do caralho!”. Aí eu viajei, quando cheguei lá no MinC, eu conversei sobre o Salão, ninguém deu atenção. O MinC era uma coisa pequenininha assim. O MinC, ele veio se abrir agora. Era fechado pra porra. Aí de lá eu rumei pro Rio de Janeiro aí fui conversar com o Ziraldo, lá na Funart. Aí o Ziraldo me disse uma coisa, cara, que norteou o Salão pro resto da vida. Ele disse: “eu não vou dar dinheiro pra porra de Salão, não”. Aí eu disse: “porque Ziraldo?”. “Porque todo salão que tem nesse país, só tem gente no dia do coquetel, depois fica abandonado. No coquetel todo mundo vai. Não vou dá dinheiro, não”. Aí eu disse: “pois eu prometo pra você que o Salão de Humor não vai ser um salão desse tipo”. Aí foi a partir daí que a gente começou a colocar o salão na rua. O salão começou a ser popular, diferentemente de Piracicaba, sabe? E a partir daí o Salão de Humor começou a se desenvolver de tal maneira, que ele chegou ao estágio que nós temos hoje, que o Governador Wellington Dias não tá nem aí pra ele, sabe? (risos) Eu tou desde o começo do ano tentando liberar R$ 20 mil só pra começar o Salão e não consigo.

48BA: Acho que aqui cabe a pergunta: porque fazer a Fundação Nacional de Humor?
AP: A Fundação a gente tentou fazer porque é o seguinte, a gente viaja pro Rio de Janeiro e São Paulo e a gente percebeu que todos os salões que se fazia no Brasil eram ligados ao Estado, ou órgão ligado à esfera municipal, estadual ou federal. E a gente percebeu que não havia autonomia de se colocar ideias. Então, no Piauí era muito difícil de se fazer o Salão, porquê? Porque naquela época era o Zé Elias era não sei quem, porque o Jesualdo já tinha saído, que era um cara muito aberto.  A gente conseguia convencer ele. Tinha muita hierarquia no meio. A gente chegava e propunha uma ideia aí “não, a vai consultar o secretário” aí o secretário “não, a gente vai consultar o governador”. E a gente achava que tinha muito intermediário nas ideias. As ideias que a gente tinha eram amplas e não funcionavam. Por exemplo: essa ideia dos túneis (que expunham trabalhos nas praças) a gente teve e só conseguiu fazer dez anos depois. A ideia de fazer os túneis, a gente não conseguiu implantar.
            A Fundação foi a primeira ONG cultural do Piauí. A gente queria uma instituição onde nós mesmos planejássemos, fizéssemos e fossemos atrás. E que a gente enfrentasse nossas dificuldades. Tudo isso que tem aí, de dificuldades que a gente tem, tem ano que a gente não consegue fazer direito, já tava previsto. Aí eu comecei, a gente começou uma fundação que não tinha prédio. E eu consegui esse prédio com o Firmino. E eu venho tentando há mais de 10 anos terminar ele. Porque não consigo sensibilizar o governo, nem municipal, nem estadual, nem federal que é importante terminar aquele prédio ali. Aquele prédio funcionando a gente pode fazer muitos projetos ali dentro.
            O importante é que a gente pense por nós mesmos. No ano que não dê certo, é porque não conseguimos sensibilizar ninguém. Como esse ano não conseguimos, ano passado não conseguimos porque eu caí numa armadilha do Wellington Dias, sabia? Quero registrar aqui. Porque antes nós fazíamos o Salão com facilidade. Ele era dentro do período eleitoral. Aí o Wellington disse assim: “Olha, nós queremos que você faça sempre o Salão fora do mês eleitoral”. “Tá bom, governador.” Só que é o seguinte: toda vez que a gente faz o Salão de Humor, depois do mês eleitoral, ele não recebe ninguém porque sabe que o Salão é carta fora do baralho. Então a gente tá na discussão agora: ou a gente faz o Salão em setembro, ou faz em maio ou em junho. Porque em maio é antes do processo eleitoral. Ninguém consegue conversar com nenhuma autoridade na época eleitoral. Porque como o Salão vai ser feito depois da eleição...

49BA: Pelo menos antes tá...
AP: É! Aí o Wellington Dias, ele pediu isso e eu deixei fazer, só que agora... Ele é sabido demais, cara, aquele governador. Esse ano, por exemplo, eu fiquei o tempo todo assim: “Governador, me dê uma audiência.” Ele disse: “Na hora que você quiser. Vá lá no palácio marcar”. Aí quando eu cheguei lá um cara disse assim: “Não adianta que o governador só vai receber depois da eleição. Porque ele tá andando no interior. Aí você não consegue, porque uma parte do dinheiro do Salão de Humor vem do Governo e você não consegue.
Agora, eu posso dizer uma coisa aqui, cara? Eu acho que a Fundação do Humor ela tem que ser rediscutida e eu acho que várias pessoas que fazem a cultura piauiense, que fazem o humor, todos nós, sabe? E a gente dar um novo direcionamento pra ela. Porra! Nós temos um prédio maravilhoso. Nós temos um acervo maravilhoso. Nós temos um acervo de exposição que ninguém tem no Piauí. E eu acho que nós temos que ter uma diretoria que funcione. Nós temos que ter um grupo que bote a Fundação pra frente. Não só interessado no dinheiro do Salão. Porque na época que o Salão de Humor tem dinheiro, todo mundo vai pra Fundação. É bom poder elaborar projetos, eventos. A interiorização do Salão do Humor. Nós temos um acervo fantástico. Ninguém tem mais condição de ir pro interior do que nós. Eu acho que a Fundação deve passar por um novo direcionamento. Eu até saio da presidência.

50BA: Tenho mais algumas perguntas aqui que são mais genéricas. Qual é o seu conceito de arte? Como você definiria?
AP: Tem coisas assim como arte, amor, que a gente quer definir e eu acho que não tem uma definição específica, sabe? Eu não acredito em arte que não seja transformadora. Eu vejo a arte assim: primeiro tem a arte que ela já foi feita, que é o patrimônio da humanidade. Eu acho que a história da humanidade é contada pela arte que o homem fez ao longo do tempo. Seja a arte utilitária, seja aquela arte que o homem que o homem tentou fazer representação de alguma coisa. Eu acho que a maior parte desse patrimônio cultural da humanidade ligada a arte ainda tá debaixo da terra. É precisa escavar pelos geógrafos, pelos antropólogos, pelos arqueólogos. Eu vejo a arte como a grande oportunidade que a humanidade tem de fazer reflexão sobre a realidade em volta dela. É essa a função do artista, ele fez um trabalho pessoal, isolado, mas depois que aquele trabalho é feito, já não é mais dele. Ele já é de outra pessoa. Aí quando você olha, ele tem que provocar alguma reflexão em você. Então a arte que não provoca uma transformação e quer ser obra de arte, ela não serve. É verdade que você pode fazer uma obra de arte que seja bonita, mas mesmo ele sendo só bonita ela já agrada quem olha, provoca uma felicidade, mas eu acho que tem que ser uma coisa transformadora.
Uma das coisas mais importantes que eu acho na minha vida é que nós devemos fazer com que a arte seja ensinada para as pessoas nas escolas. Olha, o Salão de Humor é um evento, onde você chega e olha os desenhos, mas uma coisa é você ir pra dentro da escola e ensinar arte, mostrar arte. E nós tamos perdendo um grande espaço no Brasil, porque a arte da humanidade já tá feita. Toda a arte já tá aí! A humanidade acumulou durante todos esses milênios e isso estão guardados dentro de museus, dentro das bibliotecas, na cinemateca, todo essa patrimônio cultural. E como você vai divulgar todo esse patrimônio? O melhor lugar é dentro das escolas públicas. É a gente fazer projetos em que dentro da escola pública a gente possa chegar e difundir a arte. Porque a arte sem difusão, ela não provoca nada. Você faz um evento de quadrinhos aqui, Bernardo, você sabe que só vão os aficionados. Quer dizer, qual a revolução que provoca? Nenhuma! A não ser as pessoas que já gostam e vão lá! Quando você bota na cidade, na rua, o desenho, aí muita gente vê. E eles já veem o Salão há 25 anos. Aí você trabalha com um público que você não tem noção quem é. Quando você leva todo esse acervo pras escolas e você discute ele dentro da rede escolar aí você começa a fazer uma revolução, porque o menino que tá ali ele tá vendo aquilo ali dentro da escola dele, do bairro dele. Então eu acho assim, eu não tenho um conceito pra arte, mas eu acho que a arte que não transforma a humanidade, ela não serve.

51BA: Dentro da tua produção, tu enxerga uma evolução temática, conceitual, dentro do que tu fez, do que tu faz?
AP: Eu não me acho importante dentro da arte piauiense não.

BA: (risos) Era a próxima pergunta...
AP: Eu não me acho, não. Mas eu vou dizer, porque o seguinte... Repete a pergunta!

52BA: Houve uma evolução temática e conceitual dentro do teu processo criativo?
AP: Mas é claro. O meu desenho ele super evoluiu. É porque eu tenho meus desenhos secretos, que ninguém conhece. Eu, por exemplo, deixei de fazer aquela piadinha, de quando eu comecei a desenhar humor, aquela piadinha que você faz a pergunta aí o boneco responde e faz a piadinha. Que é esse o desenho de humor que se faz no Brasil: a piadinha engraçada. E há muito tempo que eu peguei meu desenho e coloquei para o lado filosófico, entendeu? Durante muito tempo eu desenvolvi esse desenho filosófico que questiona o ser humano enquanto ser humano, só que eu irresponsavelmente não continuei. Eu tenho em casa assim, dezenas de esboços pra poder passar a limpo e eu não passo. E eu acho que meu desenho evoluiu. Ele saiu da piadinha, eu não gosto de fazer piadinha... De vez em quando eu faço uma porque eu sou gente também, sabe? Mas o meu desenho de humor hoje em dia é um desenho filosófico, então ele é plástico. Ele é formal. Se você for no meu blog, você vai ver desenhos que são formais assim. Eu desenho um pássaro, a revolução nele, com relação ao meu desenho anterior, ele é formal. Ou então você vê desenho que é filosófico, onde eu faço uma montagem, que eu ponho o pensador. Então ele tá querendo dizer uma coisa que que vai dizer é o leitor. Então eu acho que no Piauí, com relação ao desenho de humor, eu acho que quem mais avançou fui eu, até hoje. Sério. Só que a maioria dos meus desenhos eu não botei pra fora, ele não é publicado e você pode ver alguns no blog, no meu myspace. É myspace que fala?

53BA: Qual a grande contribuição que tu acho que ofereceu pra cultura piauiense? Seria aquela última pergunta.
AP: O meu desenho não contribuiu em nada pra cultura do Piauí, porque eu passei 20 anos sem desenhar. Aí eu comecei a fazer desenhos pra mim mesmo, que eu vou guardando em casa e eu acho que meu desenho não tem influencia sobre a arte nem sobre a sociedade piauiense, sabe? Até porque ninguém conhece meu trabalho, porque depois que eu deixei de ser chargista, que eu deixei de publicar no jornal, eu deixei de ser personalidade da arte. As pessoas me procuram mais pelo Salão e nem conhecem meu desenho, sabe? Elas não conhecem e nem querem, mas elas me adoram (risos). Então é mais por causa das coisas que eu faço, mas não por causa do meu desenho.
Eu tenho um material imenso pra puder fazer. Eu quero botar meu ateliê e quero voltar a ser desenhista. Vou retomar minha linha de trabalho, agora é um tipo de desenho que ainda não se faz no Piauí. Porque a charge que se faz no Brasil hoje é uma droga. Você pode olhar os jornais do país. São maus desenhistas, os caras não sabem desenhar. E no Piauí mesmo, eu vou lhe dizer uma coisa que pode ser chocante pra você, mas no Piauí, na imprensa piauiense, o humor que se faz, no mínimo é nota 2. É sério. Eu acho legal quando o Jota A ganhar prêmio nacional com cartum, mas o trabalho que ele faz no jornal O Dia, não tem uma sequencia de boas charges. Até porque ele quer caricaturá os personagens e ele não é bom caricaturista. O Moisés é fraquíssimo, porque ele é um cartunista municipal e o Amauri faz um desenho tão bem feito no computador que não tem graça. Eu me lembro de um tempo que eu fazia uns desenhos de charge, que era tão bem feito que não tinha graça, sabia? E é o caso do Amauri.
Ninguém consegue ser gênio todo dia. Aí pro Jota A ser gênio ele tinha que fazer uma charge por semana. O Chico Caruso, no jornal O Globo, ele se repete o tempo inteiro.
A geração que inventou a charge no Piauí, e o cartum: primeiro lugar o Arnaldo, aí depois sou eu. Aí teve uns caras assim que é bom você botar: o Neri, não sei se cabe...

54BA: A princípio seria um trabalho biográfico. Mas aqui tem muita matéria-prima pra depois. Meu trabalho será sobre sua via, sobre suas influencias...
AP: Você não perguntou sobre as minhas influencias não, cara?

BA: Eu imaginei que seria o Pasquim...
AP: Não!

55BA: (risos) Tinha uma pergunta aqui, mas eu achei que já tava respondida. Mas tem aqui: quais as mais fortes influencias que teve e por que?
AP: As maiores influencias que eu tive na minha vida, é o seguinte: o Pasquim não foi o desenhista nacional, não. Porque depois da geração do J. Carlos começa a surgir uma geração com o Jaguar, Fortuna, Claudios, Millor e Ziraldo. Aí eles começam a dar uma qualidade artística mesmo para o desenho. Então você olha e são bem desenhados. Então essa foi a primeira influencia que eu tive. Depois, eles começaram a perder essa qualidade. O Jaguar hoje em dia faz um desenho de qualquer jeito. E o Jaguar é o mais genial cartunista do Brasil. Então o desenhista que mais viria me influenciar, e influenciou uma geração de cartunistas no Brasil inteiro... Por que o Jornal do Brasil, ele tinha um caderno chamado Caderno Especial e as matérias eram matérias sobre economia, ecologia, sobre vários assuntos e eles eram ilustrados pelos grandes ilustradores do mundo. Aí tinha um cara lá chamado Rolland Toppor, Eugene Milaresko, Milton Glayse, Saul Stenberg, Half Stidman. Todos tem na internet. Todos eles. Essas pessoas todas influenciavam a gente. Não que a gente fizesse igual a eles, mas essas pessoas colocaram o desenho de humor no suporte da arte. Então, a partir dessas pessoas, eu comecei a fazer desenhos sem palavras. Desenho de humor, que não tivesse palavra e que o leitor é que desse o significado do desenho, entendeu.
Quer dizer, os grandes desenhistas que o mundo já teve, assim como você tem os caras que são importantes pros quadrinhos, esses caras são impantes para o desenho de humor. Ilustradores fantásticos. Os desenhos deles são mais importantes que o texto.

56BA: Eu lembro que seus desenhos publicados num álbum, tem muitas “setas”. Tem alguma influencia direta de algum deles?
AP: Não porque a seta é do mundo moderno, mas o seguinte: é que eles foram geniais e ninguém conhece, na arte. Quando a gente fala de desenho de humor, ninguém conhece esses caras. E outra coisa... (e a bateria acabou).

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Entrevista com Albert Piauhy - Parte 1



Por Bernardo Aurélio

Essa entrevista foi realizada em Teresina no dia 14 de outubro de 2008 e serviu de base para um trabalho de conclusão de curso de especialização em artes pela UFPI que eu estava fazendo. Construí, inicialmente, uma lista de 20 perguntas, o que acabou se tornando mais de 50!!!
            Marcamos o dia da entrevista e ele me disse para esperá-lo numa esquina, há alguns quarteirões de distância de sua casa, onde tinha um terreno com uma pequena casa de reboco debaixo de um pé de manga e do outro lado, tinha um boteco. Ele veio fumando seu cigarrinho de palha, apontou pro barzinho e falou com aquele jeito pausado típico que tem: “Vamos conversar ali. Porque... é melhor". Nós fomos, pedimos uma cerveja, comecei a gravar...

01Bernardo Aurélio: Pra começar, aquela pergunta básica: nome completo, data e local de nascimento.
Albert Piauhy: Bom, meu nome é Albert Nunes de Carvalho. Nunes da parte da minha mãe, que também é Pereira de Araújo, e Carvalho da parte do meu pai, que também é Uchôa e Rodrigues. Eu nasci em Luzilândia, que é uma cidade que fica à margem do rio Parnaíba do lado do Piauí e foi lá onde eu nasci, uma das cidades mais antigas do Estado, no dia 24 de setembro de 1953. Sou libriano, que é o signo da maioria das pessoas que fazem arte e que fazem imprensa.

02BA: Os primeiros nomes dos seus pais?
AP:  Bernardo Uchôa de Carvalho e Maria José Nunes de Carvalho. Ambos são maranhenses de São Bernardo, que é uma cidade do outro lado do rio. Meu pai nasceu lá, mas praticamente se criou em Luzilândia.

03BA: Você viveu em Luzilândia até quando?
AP: Bom, eu vivi em Luzilândia até os 14 anos, quando eu fui pra Goiás. Eu quero dizer que Luzilândia é uma cidade que quando eu era menino, na minha adolescência, era uma cidade muito festeira, tinha muita peça e eu me lembro que era muito animada. Lá tinha um teatro, era uma das poucas cidades do interior que tinham teatro: O Cine Tearo Domingos.

04BA: Você ia muito ao teatro?
AP: Bom, no teatro tinham shows e eu me lembro que eu ia muito assistir os ensaios das peças que meus pais participavam. Que na verdade não era uma peça de teatro como nós temos agora, eram chamados “dramas”, que eram coisas variadas, eram shows de variedades, que tinham a peça principal e tinham danças e muitas coisas. Eu me lembro que eram coisas muito engraçadas, lembro que eu morria de rir.

05BA: E seus pais participavam como disso?
AP: Ah!, meus pais participavam como ator. Eu, inclusive, fiz o papel de menino Jesus, uma vez. Porque, como era uma cidade muito católica, sempre tinha alguma coisa ligada à Igreja, sabe? Mas era muito engraçado, tinha dança, tinha teatro. O “drama” na verdade é uma comédia, apesar de ter uma parte dramática, entendeu? E o drama também é meio musical. E eu participei muito disso aí.
Eu me lembro que em Luzilândia, a minha família assistiam muito a novelas. As mulheres se reuniam pra assistir as novelas do rádio. E também haviam muita troca de livros...

06BA: Em frente ao cine-teatro?
AP: Não, a troca de livro era assim: a primeira que tinha o livro emprestava pra outra família. O livro que tava na moda. Circulava a revista O Cruzeiro, Seleções, que todo mundo lia. Naquela época, todas as casas tinham Seleções e a revista O Cruzeiro. Agora a coisa mais forte da minha infância, que eu acho, que foi através dessas revistas que eu comecei a me envolver no mundo cultural. Você pode achar bobagem, mas era a coisa que tinha: as fotonovelas. Fotonovela era moda, a minha mãe tinha vários baús cheios de fotonovelas. Então as revistas de fotonovelas tinham notícias sobre cinema nacional, sobre o cinema “americano”, sobre os artistas do rádio e tinha a fotonovela, claro, que era o grosso da revista, tinha a fotonovela Capricho, Grande Hotel, eram tantas, rapaz... E quem dominavam eram as produções italianas, eram todos atores italianos, como Sandro Moretti, Michela Rossi e tantos outros. A gente sabia o nome de todos os atores de fotonovela. E porque que elas eram italianas? Porque essas editoras que publicavam eram de italianos que estavam no Brasil, como o dono da Abril, por exemplo. Então todo mundo lia fotonovelas e a minha mãe tinha um baú cheio. E não era “chic”, e não era direito, um menino (risos), ler fotonovela, que era coisa de mulher, entendeu? Só que isso não entrava na minha cabeça, então eu lia todas, traçava todas as fotonovelas e as notícias que tinham sobre cinema, arte em geral, tudo destinado às mulheres. Então eu li todas essas histórias escondido da minha mãe, das pessoas, porque menino não poderia ler fotonovela.
E depois, chegaria um primo meu em Luzilândia com as revistas em quadrinhos, aí eu entrei na casa dos quadrinhos. Quer dizer, não era esse quadrinhos “artístico”, era o Tio Patinhas, era o Mickey, Cavaleiro Negro, Batman e Robin, né? Naquele tempo eles andavam juntos... Flash Gordon, Mandrake, tudo isso aí... Kit Carson. Depois, quando meu pai viajava, ele sempre trazia histórias pra mim. E eu comecei a ter uma coleção muito grande de revistas de histórias em quadrinhos, quem tinha revista de história em quadrinhos em Luzilândia era eu! Mas desse quadrinho que eu tou te falando, coisa publicada pela Ebal, que dominava o mercado de quadrinho no Brasil, e ela publicou muita coisa boa, mas eu não tenho muita lembrança da Ebal ter publicado quadrinhos brasileiros. Que eu me lembre, o quadrinho brasileiro que chegou lá na minha terra, era “O Anjo”. Você tem que pegar O Anjo, cara, porque ele é importante pra história dos quadrinhos no Brasil, que é um dos primeiros personagens policial brasileiro. O Anjo, A turma do Pererê, que conseguiu chegar em Luzilândia e também as histórias de terror que começaram a ser publicados por autores nacionais, que começaram a recuperar o Lobisomem, por exemplo.

7BA: Tinham muitos quadrinhos de terror na década de 60, e quadrinhos brasileiros eróticos...
AP: É, tinham também os quadrinhos eróticos. É claro que tinham que ser vistos escondidos. Tinha o Zéfiro, que era o quadrinho erótico que chegou lá.

8BA: E na frente do cinema houve... (fui interrompido).
AP: Não, em Luzilândia não tinha isso. O cinema era esporádico, porque nunca teve um dono do cinema da cidade. Então, quando o cinema chegava em Luzilândia, era um cara que tinha o equipamento e passava de cidade em cidade passando filme. Então, todos os filmes que passaram em Luzilândia era de pessoas que iam chegando. É por isso que nós precisamos um dia resgatar quem eram essas pessoas que iam de cidade em cidade, naquela época, passando filmes. Então Luzilândia sempre teve filme no Cine Teatro, mas eram gente de fora que iam passar filme lá.

9BA: Você falou que seu pai foram atores. Eles trabalhavam com algum outro tipo de arte, de desenho?
AP: Não. A minha mãe hoje desenha, depois que ela ficou idosa, ela começou. Mas em Luzilandia não havia a cultura do desenho. Eu me lembro que só fui conhecer uma obra original, uma tela, em Teresina.

10BA: E seus irmãos? Você teve irmãos?
AP: Eu tenho quatro irmãos. Um morreu, que é o Mauro, e a área dele era o futebol, era goleiro. Depois foi trabalhar na FUNDAC e me ajudava muito no Salão de Humor. Eu era o caçula, o mais novo.

11BA: Algum trabalhou com arte?
AP: Não, nenhum. O Ezequiel é enfermeiro. O Francisco é federalista e pastor evangélico. E a nossa cultura maior mesmo, a coisa que mais empolgava a gente era o futebol, era o objeto de nossas conversas diárias de menino.

12BA: Tu jogou muito?
AP: Eu era “fraco”, mas eu era jogador.

13BA: Era goleiro?
AP: Não! Eu era volante. Cheguei a ter um time chamado Luzilândia Clube, que, aliás, nunca perdeu pra ninguém. Mas quando a gente era menino, a gente jogava muito e de lá saiu o Augusto, que depois foi técnico do Flamengo e era meu amigo de infância. E o futebol era a coisa que mais nos impressionava, que mais mexia com a gente, nós sabíamos a escalação de todos os times do Brasil. Impressionante! Naquela época chegava em Luzilândia a Revista dos Esportes, e outra coisa: havia meninos que torcia pela Chevrolet e pela Ford, e pela Monarc e pela Gulliver.

14BA: Essas empresas tinham clubes de futebol?
AP: Não! Porque todos nós torcíamos por alguma coisa. Então tinha menino que torcia pela marca de carro. Por exemplo: caminhão. Tinha menino que torcia pelo caminhão chevrolet e tinha quem torcia pelo Ford, aí a gente brigava pra saber qual era o melhor caminhão, e pelos melhores times, entendeu? E a maior parte dos meninos torcia pelo Botafogo e a outra parte torcia pelo Santos, que eram dois times de maior repercussão na época. Aí, dentro disso aí, eu era o menino diferente, entendeu?

15BA: Nenhum menino discutia com você qual era a melhor fotonovela?
AP: Não! De jeito nenhum! Aí é que tá. Dentro dessa discussão que a gente tinha de futebol que eu comecei a me interessar pela arte, pela história em quadrinhos. Eu comecei a me interessar pela cultura na medida que chegava lá. Era um menino que não tinha muita opção cultural.

16BA: E pelas letras si, mesmo, Albert, como você começou a gostar de escrever?
AP: Eu me lembro que eu gostava muito de Cassimiro Coco, o teatro de bonecos, e acontece que aqueles bonecos ali, daquela época, eram maravilhosos, cara. Acontecia na periferia da cidade, que não era muito grande e eu assisti coisas de Cassimiro Coco que o pessoal que faz aqui não chega nem perto, porque era o autêntico mesmo, enchia de gente, de toda a cidade.

E outra coisa também muito importante eram os violeiros. Eu assistia muitos violeiros em Luzilândia, na minha terra. Coisas que eu vi na minha infância assim, de cultura, que ficou marcado, foi o Cassimiro Coco, os violeiros e o Bumba-meu-boi, que não era esse boi pequeno como esse que tem aqui não. O Boi era grande. Tinha muito Boi em Luzilândia, cara. Era uma coisa fantástica. E tinha os “terecô” e muitos forrós e muitos sanfoneiros.



17BA: E teus estudos? Começou a estudar lá, saiu só com 14 anos...
AP: Eu estudei no Grupo Escolar João Carvalho, depois eu fui fazer exame de admissão com a dona Cleunice, que era minha professora, depois eu fui fazer o Ginásio no Senec. Não sei se você sabe o que é o Senec, sabe? Senec é de um cara de Pernambuco, vou já lembrar o nome dele, que era menino pobre que não tinha escola, aí ele começou a fundar escolas no Brasil inteiro, cara. Então, a maior rede de escolas do Brasil, era do Senec. É importante você saber que o Senec era uma instituição privada, sem fins lucrativos era uma ONG. Essa cara era louco. Em Luzilândia não tinha, aí ele foi lá e colocou ginásio lá. Se não fosse o Senec, ninguém fazia ginásio. Na medida que o poder público começou a ocupar os espaços, a Senec foi perdendo o espaço e hoje em dia eles tão vendendo tudo quanto é de prédio e a Senec chegou à decadência, entendeu? Porque naquela época ele ocupou um espaço que o estado não funcionava e na medida que o Estado brasileiro começou a funcionar e a fundar escolas, não teve mais lugar pro Senec. Então, as últimas escolas do Senec foram fechadas exatamente quando o governo Lula chegou ao poder. Porque não tinha mais sentido o Estado ajudar a Senec se ele podia ele mesmo fazer. Aí eu fiz 2 anos do ginásio lá em Luzilândia e 2 anos no Liceu Piauiense. Fiz o primeiro e o segundo ano em Luzilândia, depois fui pra Goiás. Depois voltei pra Teresina, fiz o terceiro e o quarto ano no Liceu, que era a melhor escola de Teresina na época.

18BA: Tu chegou em Teresina em que ano?
AP: Cheguei em Teresina em 68. Eu fui morar em Goiás e passei 4 meses. Foi um choque cultural, porque, em primeiro lugar, eles falam diferente. Aí eles se vestem diferente por causa do frio. Aí eles comem diferente. Além de comer diferente, em Goiás, só vai anoitecer 8 horas da noite (risos). Aí, por exemplo, eles tem o costume de almoçar 9 horas da manhã. Aí, quando é 3 horas da tarde, eles jantam. Aí eu passava o tempo com fome, entendeu? Não me acostumei. Quando amanhecia o dia eu ficava ouvindo aquelas músicas caipira, de dupla, só que eram duplas sertanejas tradicionais, era muito bonito, cara. Mesma assim, era um saco ouvir aquilo o dia inteiro pra quem só ouvia baião, xote, xaxado essa coisa toda. Eu quis voltar porque eu não me acostumava com os costumes locais.

19BA: Você foi pra lá por que?
AP: Porque o meu pai faleceu e minha mãe ficou viúva, né? Aí ela tinha 4 filhos pra sustentar. Aí um tio levou um sobrinho, outro tio levou outro. Mas quando chegou em Goiás, o meu tio era um cara muito esquisito, ele não era muito de falar, de se comunicar e eu trabalhava o dia inteiro na farmácia que ele tinha de vender produtos veterinários e a pecuária é o forte de lá.

20BA: Você acha que essa sua passagem por lá te influenciou de alguma forma, culturalmente?
AP: Só me influenciou porque eu conheci a obra do Mazzaropi e a música caipira autêntica, que ainda não tinha sido dominada por Chitãozinho e Xororó, esse pessoal todo. Outra coisa que me impressionou muito foi que os meninos ricos da cidade, cada menino tinha uma caixa de engraxate e engraxavam os sapatos pra ganhar dinheiro, coisa de um menino de classe média no Piauí, jamais faria isso. Chegava um fazendeiro eles diziam: “vamos engraxar o sapato?”, eles engraxavam pra ganhar dinheiro. Eu me impressionei muito com isso, até quando eu vim-me embora pra cá.



21BA: Quando foi que tu percebeu tua inclinação pro desenho?
A inclinação pro desenho foi exatamente na época em que eu tomei contato com as histórias em quadrinhos. Porque eu comecei a copiar, copiar mesmo. Olhava assim o Cavaleiro Negro, eu desenhava igual. Naquela época, eu gostava muito de desenhar na calçada de Luzilândia, eu era menino, e eu pegava carvão e desenhava a calçada inteira da igreja. O padre, que era meu padrinho, ele ficava puto. Porque quando ele chegava assim de manhã na Igreja ela tava toda riscada, a calçada. Eu riscava inteiro, cara. Ainda hoje eu gostaria de tentar fazer isso de novo. Eu pegava a calçada aí eu fazia uma cidade de uma ponta a outra. Eu fazia um fio direto aí fazia as casinhas, entendeu? Então a calçada ficava toda riscada de carvão ou então ficava de giz, e o padre Jonas, que era meu padrinho, ficava puto. Então, a minha inclinação veio daí, entendeu?

22BA: Quais foram as tuas grandes influencias?
AP: Aí quando eu cheguei em Teresina é que a coisa se manifestou de outra maneira, porque eu fui morar numa rua, que, por acaso, tinha um maestro do 25º BC que morava ao lado, e ele tinha três filhos, um chamo Giovane, o Toim e o novinho, que tocava violão e um deles gostava de ler Pasquim. Aí eu comecei a ler O Pasquim, e o Giovane lia o Pasquim, e nele tinham desenhos. Mas meu primeiro contato com desenho, na verdade, é em Luzilândia, desenho mesmo, porque, não sei se você sabe, mas a revista O Cruzeiro tinha o maior time de humoristas do mundo, tinha Millô Fernandes, tinha o Péricles. Foi através da Cruzeiro que eu tomei conhecimento de todas as pessoas que desenhavam humor no Brasil. Quando eu cheguei em Teresina eu já gostava de desenho de humor, porque eu gostava desde criança, porque a revista Cruzeiro tinha o maior time de humoristas que você possa imaginar do Brasil, tava lá, desenhando. Quando eu tomei contato com o Pasquim aí eu tomei contato com grandes desenhistas como o Jaguar, que eu não conhecia, aí tava lá o Ziraldo, Miguel Paiva, Fortuna, Claudios, então, o grande time do humor brasileiro estava no Pasquim.
E também tinha o pessoal do Centavo, que o pessoal principiante. Na verdade foi depois do Pasquim que eu comecei a me interessar por arte mesmo, de uma vez. Depois que eu conheci “O Pasquim” eu decidi o que eu queria ser, entendeu? Eu queria ser desenhista, jornalista...


23BA: Porque você decidiu fazer jornalismo? Você é formado em jornalismo, certo?
AP: (acena com a cabeça que “não”)

24BA: Não?
AP: Que decepção, não é Bernardo? (risos) Quando eu cheguei em Teresina eu tinha 14 anos. Quando eu tinha 16 anos eu me interessei por jornal, imprensa, por humor. No Brasil, quase não tinha escola de jornalismo. O “boom” dele veio na década de 70 e Teresina não tinha escola de jornalismo. Como era que o jornalista se formava? Ele entrava menino no jornal, garoto, e ele aprendia com quem tava lá. Então, quando eu comecei a fazer jornalismo no Piauí, não tinha escola. Eu entrei jornal O Dia quando era um jornal pequeno e tinha jornalistas como a Veroni Lemos, Nil Salvani, que era de São Paulo, tinha o Chico Viana, que são pessoas que ninguém fala mas que são muito importantes para a formação do jornalismo piauiense. O Feitosa Costa, que foi o grande revolucionário da imprensa piauiense, porque foi ele quem organizou o jornal, que não tinha diagramação, não tinha hora de editar matéria, não tinha editoria. Ele organizou todos os jornais, porque era diretor industrial. O coronel Miranda, era um cara rico, e queria fazer um jornal moderno, aí ele fi no Ceará e trouxe os melhores profissionais de lá, trouxe o Santos, o Vanderlei Barbosa, Feitosa Lite, pra ajudar na parte gráfica. E pela primeira vez no Piauí, tinha um jornal moderno como os de Pernambuco, os melhores jornais do Ceará e do Brasil. O coronel Miranda pegou toda a fortuna que ele tinha e investiu no jornal, e eu entrei exatamente nessa época, como garoto queria fazer charge, escrever. Porque eu já queria ser jornalista. Eu tentei primeiro pelo jornal O Estado,  mas ele era um jornal secundário e eu queria ir pro melhor. Aí eu fiz um teste pro jornal O Dia e passei. Aí eu comecei a ser chargista lá, no começo da década de 70.  Agora o importante: o Arnaldo (Albuquerque) já tinha passado por lá, porque historicamente o Arnaldo é o primeiro chargista da história piauiense. De verdade, entendeu? Porque eu entrei lá pra substituir o Arnaldo. O Torquato Neto passou por aqui e levou a turma pro Rio de Janeiro aí ficou lá o espaço, aí eu “pá!”, entrei.

25BA: Você acha que conseguiu unir bem seu trabalho de jornalista com chargista, que você queria fazer?
AP: Olha, o jornal naquela era era provinciano, eu era um garoto não bem formado, eu não tinha boa formação, porque naquela  época a gente nem todo mundo tinha muita informação, era época de ditadura e eu era um “menino véi”. Hoje um menino de 18 anos tem muita informação que eu não tinha naquela época, e a informação que a gente tinha era a que a gente pegava entre os outros, mas eu só digo uma coisa, a gente fazia jornalismo com muita emoção. Por que, na verdade, o Arnaldo fez charge no jornal O Dia, mas o primeiro chargista constante fui eu mesmo. Fui eu que consolidei a charge no jornalismo piauiense. Só que naquela época eu era um cara muito inquieto e o mundo era grande e eu achei de ir embora pro Rio de Janeiro. Aí eu ficava nessa inda e vinda, entendeu? Então eu fui chargista do Jornal O Dia várias vezes até chegar a vez do Jota A.

26BA: Você ia com frequência lá pro Rio ou foi só uma temporada?
AP: Não. Eu ia, morava, voltava. Ia, morava, voltava. Isso a partir de 73, por aí assim. Aí eu cheguei a publicar no Pasquim...

27BA: Você conheceu o pessoal do Pasquim?
AP: Conheci assim, nunca fui tão íntimo, hoje eu sou. Mas eu ía lá e eu tinha minha vida, eu achava que eu era um garoto muito imaturo. Eu não tinha um trabalho sólido.

28BA: O Amauri Pamplona não gostava do Pasquim, chamava o jornal de bairrista, tentou publicar e não conseguiu...
AP: Mas era, claro. Mas o meu desenho, eu não tinha capacidade naquela época de ficar no time do Pasquim. Eu conseguia publicar alguns desenhos no Pasquim, entendeu? Eu não tinha um trabalho sólido, um trabalho bem feito e maduro pra poder ser um cara constante no Pasquim, entendeu? Eu era aquele cara que de vez em tinha um desenho que publicava no Pasquim. Eu conheci o Ziraldo, fui na casa dele, ele me recebeu com muita amabilidade, foi muito amável comigo, mas eu não era um bom chargista na época. Eu acho que eu era muito imaturo. Quando eu era chargista em Teresina, eu não conhecia nem os materiais, cara. Os materiais de você desenhar. Eu desenhava em num material errado. No Rio de Janeiro eu fui conhecer o bico-de-pena, a tinta nanquim. Aqui eu não tinha pessoas com quem interagir, porque o desenho de humor tava começando com a gente. E o Arnaldo, que eu ainda hoje me lembro, desenhava com aquelas canetas de arquiteto.

29BA: Você conheceu essas técnicas novas com quem, lá no Rio?
AP: Um dia eu cheguei no Pasquim e vi o Ziraldo desenhando uma capa, aí ele tava com um bico-de-pena. Aí ele botava lá no... desenhando. Aí eu disse assim: “Porra! Que diabo é isso aqui? Tu desenha com isso?”. Ele disse: “É”. E eu desenhava com caneta de arquiteto, que é uniforme, porque o bico-de-pena você vai, quando você trabalha com bico-de-pena, quando você pressiona ele no papel, você dá várias espessuras e você inventa o que você quiser. Com aquela caneta de arquiteto o traço é uniforme e o desenho não é bom, e meu desenho só começou a evoluir mais quando comecei a trabalhar com o bico-de-pena. E você não aprende de um dia pro outro, demora muito, aí eu comecei a usar muito, até eu aprender, entendeu? Na verdade, custei muito a aprender a desenhar, cara. Eu acho. Porque no Piauí não tinha escola. Você começar a desenhar numa cidade que não tem uma escola de artes plásticas, não tem um salão de espécie alguma, não tinha ninguém que desenhasse antes de você, que você conhecesse, não tinha ninguém pra trocar ideia com você. A única coisa que você tinha acesso era o trabalho dos outros humoristas que você via nos jornais. Olhando o jornal você não sabe a técnica que o cara usou, então era muito difícil nessa época você desenhar. Hoje em dia o desenhista tem muita informação e eu não sei porque o desenho de hoje é tão mais ruim do que naquela época. Eu não seu porque que a charge na imprensa do Piauí é tão ruim hoje. Quer dizer, o cara tem muita informação, ele recebe informação do mundo inteiro aí você olha o jornal O Dia, olha o jornal Meio Norte e olha o Diário do Povo, a charge é ruim, repetitiva, é mal desenhada.

30BA: De um modo geral, o desenho perdeu muito espaço no jornal...

AP: No mundo inteiro e no Brasil mesmo. Hoje o espaço pro cara desenhar é a internet. Quem não tem seu blog e não participa de sites ele não tem onde mostrar o desenho dele. Porque o jornal O Dia só tem o Jota A, ele não abre espaço pra mais ninguém, o Meio Norte só tem o Moisés, que aliás tá fazendo uma caricatura boa agora. A charge dele continua municipal, não boa, eu acho. É uma opinião minha, não é ser contra ele, mas ele tá começando a se destacar com esse trabalho de caricatura estilizada. Se ele investir naquilo, ele vai ser muito bom. O caminho dele é aquele, não charge.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Por que queremos comemorar o Halloween e não o Dia dos Mortos?


Por Bernardo Aurélio

Sabe uma coisa que me incomoda? Não é somente o fato de estarmos criando uma tradição do Halloween no Brasil, não sou xenófobo a esse ponto, adoro a cultura norte-americana ou britânica, assim como também curto a arte oriental e tudo mais... O que me incomoda é muito simples: o Halloween é dia 31/10 e nós não tínhamos praticamente tradição nenhuma com essa data, mas a estamos cultivando quando poderíamos buscar reverenciar uma data muito mais próxima de nossa realidade: o dia de finados, que é dia 02 de novembro, bem pertinho desse dia das bruxas.

É claro que no Brasil há bruxas e todo esse folclore de vampiros e lobisomen, mas, inevitavelmente, quando uma menininha se fantasia de bruxa ela acaba vestindo roxo e um chapéu pontudo daqueles com o qual não vejo nenhuma identificação com nossa cultura. O que me incomoda é perceber que existe um certo esforço para que um dia crianças em todo o Brasil se fantasiem e vão de porta-em-porta pedir doces ou travessuras sem saber o real significado desse ato. Eu não sei o real significado desse ato! E nem me importo em saber... O que me incomoda é saber que já existe no Brasil uma cultura profundamente enraizada de visitar os mortos no dia 02 de novembro. Existe um ritual forte e tradicional que não foi inventado aqui no nosso país nas últimas décadas, mas é secular. Nosso dia de finados é fruto de uma cultura colonial e católita, por isso também a data é tão forte no México, que é um país muito mais próximo de nós do que os EUA.



Tenho certeza que no México, ali coladinho com a Américo do Norte, não se comemora o Halloween. Eles comemoram el dia de los Muertos! Que coisa legal! E eles comemoram mesmo! É uma grande festa e movimenta um mercado imenso, afinal: o culto aos mortos é também um culto a criaturas folclóricas e à identidade de seu povo. Se precisamos fazer uma festa para o terror no Brasil e vender aranhas de borracha e dentes de vampiro, vamos fazer isso do jeito brasileiro. Vamos festejar nosso tradicional dia dos finados! Cuidado! Pois as almas estão sempre nos observando...

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Núcleo de Quadrinhos lança obra adaptada de conto de Machado de Assis

Professos e alunos no dia do lançamento de "O Imortal".

Por Bernardo Aurélio

No último dia 14 de outubro de 2014 o Núcleo de Quadrinhos do Piauí (NQ) lançou o livro "O Imortal". Trata-se de uma parceria entre o NQ, o CEMTI Didácio Silva (do Dirceu II) e a Secretaria de Educação do Piauí.


Membros do NQ na ocasião do lançamento

A obra é fruto de uma oficina de 5 meses de duração. O objetivo era ensinar aos alunos como funciona a linguagem das histórias em quadrinhos (HQs) para depois praticá-las na adaptação de uma obra de domínio público. Não era nosso objetivo ensina-los a desenhar, esse exercício caberia a outro momento, ou mesmo a toda a vida de produção de um artista: estamos sempre aprendendo a desenhar. Mesmo porque, quase toda criança desenha. Queria focar na técnica da linguagem, não na do desenho. 



Escolhi o conto "O Imortal" de Machado de Assis porque é uma obra de fantasia, quase ficção científica, o que julguei como um atrativo para despertar o interesse dos alunos.

Nós lemos e re-lemos aquele conto. Criamos o visual dos principais personagens. Adaptamos o texto e criamos os esboços/layouts das páginas que seriam desenhadas. Desenhamos, arte-finalizamos, letreirizamos. Fizemos a capa. Tudo isso durou 5 meses, em encontros semanais aos sábados. Alguns alunos foram saindo (tudo bem, é normal), outros permaneceram até o fim! 56 páginas de quadrinhos. Uma obra!




O professor do CEMTI Patrício ajudou muito na coordenação do curso e, principalmente, na parte final, articulando com a SEDUC para conseguirmos a impressão do livro. Edjofre (funcionário da SEDUC) e Alano (secretário) aceitaram desde o princípio a ideia e não demorou para conseguirmos mandar rodar o livro.

Na ocasião do lançamento, falei de três coisas importantes que justificam esse tipo de projeto:
1) Foi o primeiro contato de 20 alunos da rede pública com um texto do Machado de Assis;
2) Esses alunos aprenderam uma linguagem com a qual podem se expressar e até contar suas próprias histórias, a partir de então;
3) Esses alunos, de 10 a 16 anos, eram agora autores com uma obra publicada.




Alunos autografando na ocasião do lançamento.

Não diria que o valor destes três itens é incalculável, porque na verdade sai até barato (inclusive um projeto para levar esse tipo de oficina para outras escolas está sendo preparado e esperamos ser tão bem recebidos como fomos com respeito à questão da impressão), mas a verdade é que o ganho para o Estado, para os alunos, para a arte, para o ensino e para as HQs no Piauí é muito grande. Não é pequeno mesmo! Tenho outras duas obras publicadas (Foices & Facões e Por Dentro do Máscara de Ferro) que são importantíssimas pra mim, mas considero "O Imortal"  muito mais significativo para a o Piauí. 


Diretora da escola (Tatá), Ssecretário de Educação (Alano), Diretor da Regional, Edjofre Coelho, professor Patrício e eu.

Ver os alunos de pouco mais de 12 anos arrodeados de gente querendo seus autógrafos, saber que pelo menos 3 mil pessoas serão atingidas diretamente com essa publicação e que podem atingir outras 3 mil pessoas se a revista for repassada para outros, e se professores utilizá-lo em sala de aula será multiplicado novamente esse alcance. Isso é, realmente muito gratificante. Obrigado a todos!

Veja aqui vídeos que foram feitos sobre esse projeto. Um feito pela SEDUC outro pelo projeto Imagine na Copa

E aqui tem uma matéria feita pelo programa Mosaico.


terça-feira, 30 de setembro de 2014

Sin City – A dama fatal é muito bom

Ave!, Eva é Ava.

(Leia sem medo. Nada comprometedor)

Assisti recentemente ao novo Sin City. Que filme, heim? Não resisti e no dia seguinte fui até meu armário, peguei os 7 volumes publicados pela Devir. Dei uma folheada para relembrar e tentar fazer uma comparação. Li algumas páginas. Impressionante. Miller parece escrever e desenhar como se estivesse gravando em pedras. Irretocável. E que adaptação de Dama Fatal! Tirando alguns detalhes, apenas para tornar a história mais fluida no cinema, e até melhorando o efeito visual de algumas cenas que o audiovisual proporciona: como os carros rodeando Marv, como se fossem seus pensamentos, na cena de abertura do filme.

Pense numa porrada doida!

Enquanto assistia, reconheci facilmente algumas cenas espetacularmente adaptadas para a telona, como Ava pulando do trampolim e escorregando gentilmente para dentro da piscina, que ficaram gravados em minha memória de quando li o álbum, mas também fiquei angustiado porque não reconhecia as outras histórias que compuseram o filme. Na primeira adaptação, usaram A Grande Matança, Assassino Amarelo e A Cidade do Pecado (além do conto “O cliente tem sempre razão”, que é a abertura do filme), histórias que focam em Dwigth, Hartigan e Marv, respectivamente. As outras 4 edições publicadas no Brasil são: A Dama Fatal, A Noite da Vingança, De Volta ao Inferno e Balas, Garotas & Bebidas. Essa continuação para o cinema tem como base, obviamente, A Dama Fatal, narrando a história pregressa de Dwight, ou seja, conta uma história anterior ao que vimos no primeiro filme, que tem também outras duas histórias, além do curta “Mais uma noite de sábado” (sequencia de abertura).

Poker.

As histórias que me inquietaram durante o filme, porque não as reconheci, é uma sobre jogos de Poker com o Senador Roark (pai do Assassino Amarelo) e outra que mostra a vida de Nancy, a dançarina apaixonada por Hartigan, como se fosse a continuação direta daquilo que vimos no filme anterior. Ora! Essas histórias não foram desenhadas por Miller! Ou pelo menos não foram publicadas por aqui, até onde eu sei. Corrija-me quem puder! O fato é que são também muito boas histórias, e eu conseguia visualizá-las em 2D, nanquim e preto & branco em alto contraste.

Hartigan e Nancy.

Algumas das mudanças mais sentidas foi a troca de alguns atores. Dwigth não é mais Clive Olwen (mas tudo bem, isso nunca seria um problema, se você conhece os quadrinhos). Miho também mudou, o que parece ter agradado a maioria. A falta mais sentida é a ausência de Michael Clark Duncan como Manute, mas tudo bem, arrumaram também um ator à altura do personagem, não incomoda tanto.



É um filme irreal, com seus exageros maravilhosos, exalando hormônios e fumaça. Recomendo muito. Vá assistir com a namorada, porque minha mulher disse que é até um filme romântico.




Obs: Ainda há muita coisa daquela cidade baixa que não foi adaptada para os cinemas. Esperando um terceiro filme, de volta ao inferno, e que não demore tanto para acontecer.

Tchau!