terça-feira, 17 de março de 2009

Um conto de ninguém

Por Bernardo Aurélio


Um obscuro dia me aguarda amanhã. Não sei por onde começar a me perder pelas ruas. Talvez não precise sequer sair de casa.
Olho o chão. Vejo meus pés descalços em cima dele. A sujeira entre as unhas encravadas. Tanto peso sobre o mundo. Tanta gente besta.
Não me considero um grande pessimista, até consigo me divertir com as pessoas mais ingratas que conheço.
...Mas amanhã... Amanhã sim, bem cedo, pela manhã.


As coisas quase sempre nunca são como esperamos. Amanheceu como sempre. Raiou o dia. Nenhum bicho entre as árvores de concreto. Não há ninhos ali. Não os vejo. Pelo contrário, havia uma mangueira bem ali, onde vivia algum animal barulhento, mas alguém a derrubou. Pena. Fazia uma sombra boa em meu quintal. O bicho voou pra outro lugar.

É claro que tenho esperanças e oportunidades. Minha vida é cheia disso. Já posso ir embora?

Eu devia começar falando sobre o assassinato ou sobre a cena erótica, pornográfica?

Eu peguei seu rosto frio e machucado. O gosto da urina entre suas coxas era de azedar. Ela já não tinha mais forças pra nada. Eu não agüentava mais olhar para aquela cara, por isso a arranquei e joguei fora.

A polícia não a encontrou. Eu estou livre. Final feliz. Dostoievski que se foda!

Um comentário:

D disse...

esses textos repletos de verdades amargas - te disse que gostei muito desse em especial, a forma literaria, a contrução, os pedaços de frases - curtas, as vezes como soluço - além das supresas lietrárias que se desenrolam facilmente "Amanheceu como sempre. Raiou o dia. Nenhum bicho entre as árvores de concreto." - dá até pra imaginar salas de estudo, pessoas discutindo - torquato e toda essa gente assim foram só caras de sorte - o talento literario ficou mesmo na mão de malditos anonimos.